Santa Teresa respondeu por cerca de 43% das importações americanas de bovinos do México nos últimos cinco anos e volta a operar sob rígido protocolo contra a mosca-da-bicheira
Os Estados Unidos começam nesta quinta-feira (24) uma nova etapa na tentativa de enfrentar um dos maiores problemas de sua pecuária: a falta de bovinos. Está programada para hoje a reabertura do porto pecuário de Santa Teresa, no Novo México, principal corredor terrestre para entrada de gado mexicano no mercado americano. A passagem estava fechada desde maio de 2025 devido ao avanço da mosca-da-bicheira pelo México.
A importância do corredor é expressiva. Segundo autoridades americanas, Santa Teresa respondeu por aproximadamente 43% das importações de bovinos mexicanos pelos Estados Unidos nos últimos cinco anos. A retomada ocorre justamente quando o país enfrenta oferta apertada de animais, menor produção de carne e redução na entrada de bovinos nos confinamentos.
EUA precisam de mais animais nos confinamentos
As entradas de bovinos nos grandes confinamentos americanos recuaram 9% em agosto na comparação anual. Ao mesmo tempo, o USDA reduziu sua projeção para a produção de carne bovina dos Estados Unidos em 2026 para aproximadamente 24,9 bilhões de libras.
Nesse cenário, recuperar o fluxo de animais mexicanos representa uma das alternativas para aumentar a oferta futura.
Quando opera plenamente, Santa Teresa tem capacidade estimada para movimentar entre 500 mil e 700 mil bovinos por ano, considerando os dois sentidos do fluxo.
A retomada, porém, será gradual. A indicação inicial é de aproximadamente 750 animais por dia, permitindo que as autoridades avaliem o funcionamento dos novos protocolos sanitários antes de ampliar o volume.
Grande parte desses bovinos cruza a fronteira ainda como animal de reposição e segue para sistemas de recria e confinamento, especialmente no Sudoeste americano.
Mosca-da-bicheira mantém alerta sanitário
A fronteira foi fechada devido à expansão da mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax) pelo México. Suas larvas se alimentam de tecidos vivos em feridas e podem atingir bovinos, equinos, ovinos, caprinos, animais silvestres e seres humanos.
Por isso, a reabertura não significa retorno às condições anteriores.
Os animais precisarão passar por inspeções para sinais da praga, além de protocolos de tratamento e rastreabilidade. No caso de Santa Teresa, os bovinos também são avaliados em Chihuahua, no México, antes de chegar à fronteira.
O cenário ganhou ainda mais atenção após a confirmação, em 17 de setembro, de uma infestação por mosca-da-bicheira em um cavalo no condado de Grant, Novo México.
Até as últimas atualizações, entretanto, a programação para Santa Teresa estava mantida, acompanhada de reforço na vigilância sanitária.
Mais gado mexicano pode afetar os preços?
A reabertura pode aliviar parte da escassez, mas dificilmente produzirá uma mudança imediata na oferta de carne americana.
Primeiro porque o fluxo inicial de aproximadamente 750 animais por dia é pequeno diante da dimensão do mercado. Além disso, boa parte do gado mexicano ainda precisará passar pela recria e pelo confinamento antes de chegar ao frigorífico.
Há também um problema estrutural: o rebanho bovino americano permanece historicamente reduzido, e sua reconstrução depende da retenção de matrizes e de um processo que leva anos.
O que isso significa para o Brasil
É justamente a escassez americana que abriu uma oportunidade importante para a carne brasileira.
Entre janeiro e agosto, os Estados Unidos compraram 269,1 mil toneladas de carne bovina do Brasil, avanço de 28,7% sobre igual período do ano anterior. A receita chegou a US$ 1,74 bilhão.
Os dois fornecedores, porém, atendem necessidades diferentes.
Do México chegam principalmente animais vivos, que ajudam a abastecer recrias e confinamentos. Do Brasil chega carne bovina, inclusive matéria-prima magra utilizada pela indústria americana.
Por isso, a reabertura de Santa Teresa não significa o fim da oportunidade brasileira. O aumento do fluxo mexicano pode aliviar gradualmente a escassez de animais, enquanto a produção doméstica americana continua limitada.
A partir de agora, o mercado deverá acompanhar principalmente o ritmo de entrada do gado mexicano, a eventual reabertura de outros corredores e, sobretudo, a evolução da mosca-da-bicheira.
Santa Teresa devolve aos Estados Unidos uma importante fonte de bovinos, mas o tamanho do impacto dependerá de quanto gado realmente conseguirá atravessar a fronteira nos próximos meses.
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