Com o rebanho bovino entre os menores em décadas e a carne em preços elevados, Estados Unidos voltam a importar animais do México sob rígido protocolo sanitário. Presença da New World screwworm no território americano adiciona novo risco à tentativa de reconstrução da oferta.
A falta de gado que vem sustentando os preços elevados da carne bovina nos Estados Unidos ganhou um novo elemento de preocupação. Depois de meses de restrições provocadas pela New World screwworm, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) iniciou a reabertura gradual da fronteira para a entrada de bovinos mexicanos justamente quando o país tenta enfrentar uma de suas maiores crises de oferta de animais em décadas.
Desde 24 de agosto, o porto de Douglas, no Arizona, voltou a receber bovinos provenientes do México. Segundo o USDA, a reabertura faz parte de um plano gradual e está condicionada ao cumprimento de medidas sanitárias acordadas entre os dois países. Cada animal precisa passar por inspeção oficial antes de entrar nos Estados Unidos.
A decisão tem importância econômica direta. O México é tradicionalmente um importante fornecedor de bovinos vivos para a pecuária americana, especialmente animais destinados à recria e terminação. Em um momento em que os Estados Unidos possuem somente 28,5 milhões de vacas de corte e enfrentam dificuldade para aumentar rapidamente a produção, a entrada de animais mexicanos ajuda a reforçar uma oferta doméstica extremamente apertada.
O problema é que a fronteira também se tornou um dos pontos mais sensíveis da defesa sanitária americana.
Bicheira já foi detectada em bovinos nos Estados Unidos
O USDA confirmou em 3 de junho de 2026 a primeira ocorrência doméstica da New World screwworm em quase seis décadas. O parasita foi identificado em um bezerro de apenas três semanas no condado de Zavala, no Texas. Nos dias seguintes surgiram outras ocorrências, incluindo novos bezerros e um cão.
A mosca, conhecida cientificamente como Cochliomyia hominivorax, deposita ovos em ferimentos. As larvas se alimentam de tecido vivo e podem provocar lesões graves e até a morte dos animais quando não há tratamento.
O USDA ressalta que não se trata de um problema de segurança da carne destinada ao consumidor, mas o impacto potencial sobre a produção pecuária é considerado relevante.
A situação levou o governo americano a intensificar vigilância, controle de movimentação dos animais e liberação de moscas estéreis em áreas estratégicas.
Estados Unidos precisam de gado — justamente quando enfrentam risco sanitário
É essa combinação que transforma o problema sanitário em uma questão importante para o mercado da carne bovina.
Os Estados Unidos precisam aumentar a disponibilidade de animais para reduzir a pressão sobre frigoríficos e consumidores. Entretanto, qualquer avanço relevante da bicheira poderia resultar em novas restrições de movimentação, fechamento de fronteiras e aumento dos custos sanitários.
A escassez de gado já atingiu diretamente grandes empresas. A Tyson Foods reduziu novamente sua projeção de lucro em setembro e atribuiu parte da deterioração dos resultados à falta histórica de bovinos disponíveis para processamento.
Por isso, a entrada de animais mexicanos passou a desempenhar papel ainda mais estratégico.
O USDA estabeleceu protocolos específicos para os bovinos que chegam do México, incluindo inspeção e tratamento contra a New World screwworm. A agência também informou que poderá avaliar posteriormente a reabertura dos portos de Santa Teresa e Columbus, no Novo México, caso os resultados da primeira fase sejam considerados satisfatórios.
Contrabando de animais virou outra preocupação
Uma investigação publicada pela Reuters em 5 de setembro adicionou outro componente ao cenário.
Animais vêm sendo transportados ilegalmente do México para os Estados Unidos por regiões remotas da fronteira, escapando das inspeções veterinárias. Entre eles estão cavalos e outros animais que poderiam representar uma falha na barreira criada para impedir a circulação do parasita.
Não há confirmação de que os casos recentes da doença tenham sido provocados por esses movimentos clandestinos.
Ainda assim, autoridades americanas reconhecem que animais que entram no país sem inspeção representam um risco adicional para o sistema de vigilância.
Um novo problema para a reconstrução do rebanho americano
A principal preocupação econômica aparece no médio prazo.
Os Estados Unidos já precisam reter mais novilhas para aumentar o número de matrizes e reconstruir gradualmente o rebanho. Esse processo naturalmente reduz a disponibilidade de animais para abate no curto prazo.
Caso problemas sanitários provoquem mortalidade adicional, restrições de movimentação ou interrupções nas importações de gado mexicano, a recuperação da oferta poderia ficar ainda mais lenta.
Por isso, o controle da New World screwworm passou a ser diretamente relacionado à tentativa americana de estabilizar o mercado da carne.
E o que isso significa para o Brasil?
Para a pecuária brasileira, o cenário americano merece atenção por dois caminhos.
O primeiro está no próprio mercado internacional. Quanto maior a dificuldade dos Estados Unidos para recompor sua produção doméstica, maior tende a ser sua necessidade de complementar a oferta por meio de importações de carne.
O segundo envolve possíveis mudanças nos fluxos comerciais.
Se problemas sanitários voltarem a limitar a entrada de bovinos mexicanos, a oferta disponível para os frigoríficos americanos poderá permanecer apertada por mais tempo. Isso tende a sustentar preços elevados e ampliar a procura por proteína importada.
Ao mesmo tempo, qualquer agravamento sanitário exigirá atenção redobrada dos países exportadores às regras impostas pelos Estados Unidos.
O mercado americano, portanto, enfrenta hoje uma equação particularmente delicada: precisa trazer mais animais para aliviar a falta de gado, mas também precisa impedir que o movimento necessário para ampliar a oferta se transforme em uma porta de entrada para novos riscos sanitários.
Com carne bovina cara, rebanho reduzido e uma reconstrução que levará anos, a bicheira se tornou mais uma variável capaz de definir o comportamento da pecuária americana — e, por consequência, influenciar o mercado mundial da carne.
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