USDA aponta que os preços americanos já tornam os Estados Unidos mais atraentes para exportadores argentinos; movimento eleva a concorrência no mercado dos EUA e pode reorganizar fluxos para a China, principal destino da carne brasileira.
Uma mudança importante começa a aparecer no comércio mundial de carne bovina. A forte demanda dos Estados Unidos está atraindo volumes argentinos que tradicionalmente teriam a China como destino, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, 14 de setembro, com base em avaliação do escritório do USDA em Buenos Aires.
A Argentina possui uma cota tradicional de 20 mil toneladas para o mercado americano e recebeu em 2026 autorização adicional para enviar 80 mil toneladas de aparas magras de carne bovina, elevando o potencial total dentro das cotas para aproximadamente 100 mil toneladas. A ampliação foi adotada pelo governo dos EUA justamente para aumentar a oferta de matéria-prima destinada à produção de carne moída e tentar conter os preços ao consumidor.
O sinal mais relevante agora vem do ritmo de utilização dessa cota. Segundo a avaliação atribuída ao USDA, depois de uma utilização parcial do primeiro lote, as segunda e terceira parcelas foram rapidamente preenchidas, e a expectativa é de forte procura também pelo volume que será aberto em outubro. O mercado americano oferece preços atraentes e ainda possui vantagem logística sobre a China para os frigoríficos argentinos.
EUA passam a disputar carne com a China
A China continua sendo o maior comprador da carne argentina, mas o USDA considera que a combinação entre preços elevados nos Estados Unidos, menor distância e custos logísticos mais baixos pode redirecionar parte dos embarques para compradores americanos. A Argentina deverá exportar perto de 800 mil toneladas equivalente carcaça em 2027, segundo a projeção citada pelo relatório.
O movimento é relevante porque ocorre em um momento de baixa disponibilidade de bovinos nos Estados Unidos e crescente dependência das importações. Na prática, o mercado americano passa a competir de maneira mais agressiva por carne que também abasteceria outros grandes compradores internacionais.
O efeito para a carne brasileira
Para o Brasil, o cenário produz dois efeitos diferentes.
Nos Estados Unidos, a Argentina se torna uma concorrente mais forte, especialmente no segmento de carne magra utilizada na indústria de hambúrgueres. Por outro lado, se volumes argentinos forem desviados da China para o mercado americano, compradores chineses precisarão buscar produto em outros fornecedores.
É nesse ponto que o Brasil pode ser beneficiado. Como maior exportador mundial de carne bovina e principal fornecedor da China, o país possui escala para atender parte dessa demanda adicional. O efeito, porém, dependerá dos preços, das regras comerciais chinesas e da oferta de outros concorrentes, como Austrália e Uruguai.
O novo movimento mostra que a crise de oferta americana começa a produzir consequências além de suas fronteiras. Os Estados Unidos não estão apenas importando mais carne: estão aumentando a disputa por volumes disponíveis no mercado mundial, com potencial para modificar fluxos comerciais entre América do Sul, Estados Unidos e China.
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