EPA amplia cooperação científica para reexaminar um dos herbicidas mais utilizados no mundo; nova análise vai incluir estudos recentes sobre câncer, exposição de trabalhadores, resíduos em alimentos e formulações comerciais, com possíveis reflexos regulatórios além dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos entraram em uma nova e mais ampla etapa da reavaliação científica do glifosato, ingrediente ativo presente em alguns dos herbicidas mais utilizados pela agricultura mundial. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) confirmou que pretende concluir até o fim de 2026 uma nova avaliação de risco à saúde humana, incorporando estudos publicados desde sua análise anterior e aprofundando temas que permanecem no centro do debate científico internacional.
A revisão ganhou uma dimensão adicional em setembro. No dia 22 de setembro de 2026, EPA e Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS) anunciaram um acordo para ampliar a cooperação científica sobre o herbicida. O trabalho conjunto deverá olhar especialmente para toxicologia das formulações comerciais e de surfactantes, epidemiologia ocupacional, exposição humana, biomonitoramento e exposição alimentar.
Não se trata, neste momento, de uma decisão para proibir o glifosato nem de uma conclusão de que o produto passou a representar um novo risco. O que está ocorrendo é uma atualização formal da base científica usada pela autoridade reguladora americana, justamente em um momento em que novos trabalhos vêm sendo publicados e diferentes organismos internacionais continuam adotando abordagens distintas para avaliar o ingrediente.
Para o agronegócio brasileiro, o processo merece atenção. O glifosato ocupa papel estratégico no manejo de plantas daninhas e em sistemas de produção associados ao plantio direto, enquanto soja e milho — culturas nas quais esse tipo de herbicida tem ampla utilização — representam parcela dominante da produção brasileira de grãos.
O que os Estados Unidos estão reavaliando
A EPA realiza periodicamente a chamada registration review, processo pelo qual pesticidas registrados são reexaminados para verificar se continuam atendendo aos padrões estabelecidos pela legislação americana diante da evolução da ciência. Pela legislação federal dos Estados Unidos, os pesticidas passam por esse processo periodicamente, em ciclos de até 15 anos.
No caso do glifosato, a agência está atualizando especificamente sua avaliação de risco à saúde humana.
A análise deverá contemplar, entre outros pontos:
- potencial carcinogênico;
- genotoxicidade;
- efeitos reprodutivos e no desenvolvimento;
- exposição de trabalhadores;
- exposição por alimentos e água;
- aplicações realizadas antes da colheita;
- formulações contendo glifosato;
- substâncias utilizadas junto ao ingrediente ativo, como surfactantes;
- estudos epidemiológicos e dados de biomonitoramento humano.
Segundo a EPA, pesquisas científicas consideradas relevantes serão avaliadas por critérios sistemáticos de qualidade antes de serem incorporadas às conclusões regulatórias.
É uma diferença importante. A revisão não se limita ao glifosato isoladamente, mas deverá observar também evidências relacionadas às formulações às quais trabalhadores e usuários efetivamente podem estar expostos.
Estudos publicados desde 2017 entram na análise
Em agosto, antes mesmo do novo acordo entre EPA e HHS, a agência americana havia divulgado o resultado de uma ampla busca na literatura científica para identificar trabalhos que poderiam integrar a próxima avaliação.
O levantamento inclui publicações surgidas desde a revisão anterior da literatura aberta, realizada em 2017. A documentação foi colocada em consulta pública para que pesquisadores, empresas, organizações e demais interessados apontassem estudos revisados por pares eventualmente ausentes do levantamento. O prazo para contribuições terminou em 24 de setembro de 2026.
A próxima etapa será justamente separar disponibilidade de evidência de qualidade da evidência.
Em outras palavras, a publicação de um estudo não significa automaticamente que sua conclusão será incorporada ao parecer regulatório. A EPA afirma que examinará relevância, desenho experimental, qualidade dos dados e reprodutibilidade antes de utilizar os trabalhos na avaliação final.
Esse ponto será decisivo porque existe hoje uma literatura científica extensa — e por vezes divergente — sobre o herbicida.
Novo estudo sobre câncer também será examinado
Entre os trabalhos que entraram no radar americano está uma pesquisa publicada em 2025 ligada ao Ramazzini Institute, que voltou a alimentar o debate internacional sobre possíveis efeitos carcinogênicos associados ao glifosato e a formulações comerciais.
A própria EPA informou que o trabalho foi publicado tarde demais para entrar nas avaliações anteriores e que será examinado agora quanto à relevância e qualidade científica, podendo integrar a atualização prevista para 2026.
Isso não significa que a agência tenha aceitado antecipadamente suas conclusões. O estudo será submetido aos mesmos critérios de revisão empregados para outras pesquisas.
A distinção é importante porque a discussão sobre o glifosato frequentemente mistura três questões diferentes: existência de um perigo em determinadas circunstâncias, nível real de exposição e risco nas condições de utilização agrícola.
E é justamente nessa diferença metodológica que surgiram algumas das conclusões distintas entre organismos internacionais.
Câncer permanece no centro da discussão
Na avaliação americana anterior, de 2017, a EPA concluiu que os usos registrados do glifosato não apresentavam riscos à saúde humana considerados preocupantes quando o produto era utilizado de acordo com as condições estabelecidas e classificou o ingrediente como “não provavelmente carcinogênico para humanos”.
Existe, porém, uma divergência científica conhecida.
Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato no Grupo 2A — “provavelmente carcinogênico para humanos”. A avaliação considerou evidência limitada de câncer em humanos, evidência suficiente em animais experimentais e evidências relacionadas a mecanismos de carcinogenicidade.
As conclusões não são diretamente equivalentes porque os organismos utilizam estruturas de avaliação diferentes.
A própria IARC explica que sua classificação identifica perigo carcinogênico — ou seja, se um agente possui capacidade de causar câncer em determinadas condições. Avaliações regulatórias, por outro lado, também levam em conta as doses e os níveis reais de exposição para estimar o risco associado às condições previstas de utilização.
Essa diferença ajuda a explicar por que diferentes instituições podem analisar parte da mesma literatura científica e chegar a enquadramentos regulatórios distintos.
Europa também manteve o produto, mas com condições
O debate não está restrito aos Estados Unidos.
A União Europeia realizou outra extensa avaliação entre 2019 e 2023. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que não encontrou “áreas críticas de preocupação” que impedissem a renovação da autorização, embora tenha apontado lacunas de informação e questões ainda não totalmente esclarecidas.
A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), por sua vez, concluiu em sua avaliação que o glifosato não preenchia os critérios científicos europeus para ser classificado como substância carcinogênica, mutagênica ou tóxica para reprodução.
Ao final do processo, a União Europeia renovou a aprovação do ingrediente por dez anos, até 15 de dezembro de 2033, sujeita a condições e restrições.
O cenário mostra por que a nova revisão americana será acompanhada de perto: o glifosato já passou por grandes processos científicos em diferentes regiões, mas continua sendo reavaliado à medida que novos estudos aparecem.
Por que isso interessa diretamente ao produtor brasileiro
No campo brasileiro, a importância prática do tema vai muito além do debate regulatório internacional.
O glifosato está inserido no manejo de plantas daninhas de áreas extensas e tem relação direta com sistemas de plantio direto e redução do revolvimento do solo. A própria EPA destaca que o controle químico de plantas daninhas possibilitou a adoção de sistemas com menor intensidade de preparo mecânico, reduzindo erosão e perturbações do solo em determinadas condições de manejo.
A dimensão da agricultura brasileira ajuda a colocar isso em perspectiva. Dados oficiais indicavam para 2026 aproximadamente 174,9 milhões de toneladas de soja e 141,8 milhões de toneladas de milho no país. Juntos, os dois produtos respondiam por quase 90% da produção nacional estimada de cereais, leguminosas e oleaginosas no levantamento de julho.
Por isso, qualquer alteração significativa nas condições internacionais de registro, limites de resíduos, exigências de aplicação ou regras de proteção ocupacional pode produzir consequências que ultrapassam o mercado americano.
Isso não significa que uma eventual mudança nos EUA seja automaticamente reproduzida no Brasil. Cada país possui seu próprio processo regulatório, mas avaliações produzidas por grandes agências tendem a ampliar a quantidade de evidências disponíveis para reguladores, pesquisadores e cadeias agrícolas em outros mercados.
Glifosato continua autorizado no Brasil
No Brasil, a Anvisa concluiu sua própria reavaliação toxicológica do glifosato mantendo o ingrediente ativo autorizado, porém com restrições e medidas regulatórias adicionais. O resultado consta da RDC 441/2020.
O tema da exposição de trabalhadores também permanece dentro da estrutura regulatória atual.
Desde junho de 2026, a aplicação das regras brasileiras de avaliação de risco ocupacional inclui o glifosato entre os ingredientes que possuem nível aceitável de exposição ocupacional (AOEL) estabelecido pela Anvisa, parâmetro utilizado na avaliação da exposição de operadores, trabalhadores de reentrada, residentes e transeuntes.
Ou seja, o debate brasileiro não começa com a nova decisão americana. O país já dispõe de parâmetros próprios de avaliação e gerenciamento do risco.
A relevância dos Estados Unidos está em outro ponto: uma grande quantidade de evidência científica recente será novamente filtrada e analisada por uma das principais agências regulatórias do mundo.
O que pode realmente mudar no fim de 2026
A divulgação da nova avaliação será provavelmente o ponto mais importante dessa revisão até agora.
A EPA poderá manter suas conclusões anteriores, modificar parâmetros de avaliação de exposição, propor novas medidas de mitigação ou identificar questões que exijam estudos adicionais. Qualquer consequência regulatória dependerá das conclusões científicas e das etapas administrativas posteriores.
Por isso, seria prematuro interpretar a atual movimentação como prenúncio de proibição.
Até agora, o que existe oficialmente é uma ampliação da revisão científica.
A EPA afirma que está atualizando tanto sua análise sobre potencial carcinogênico quanto a avaliação mais ampla de riscos à saúde humana, com conclusão prevista para o final de 2026. Depois da publicação, o documento ainda será submetido a comentários públicos. Para o início de 2027, a agência também prevê um webinar para explicar os resultados da avaliação atualizada.
Para a agricultura mundial, portanto, a questão central nos próximos meses não será simplesmente se o glifosato continuará ou deixará de ser usado nos Estados Unidos.
Será entender se a incorporação de quase uma década de novos estudos científicos altera — ou reforça — a avaliação de risco que sustenta uma das ferramentas de manejo mais presentes na agricultura moderna.
E é justamente por essa combinação entre relevância agronômica, saúde ocupacional, comércio internacional e segurança alimentar que o parecer americano previsto para o fim de 2026 deverá ser acompanhado com atenção também pelo agronegócio brasileiro.
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