Avanço da bicheira-do-Novo Mundo se soma a crise sanitária com a gripe aviária, bloqueio do gado mexicano e guerra comercial com o maior exportador de carne do planeta.
Relatos contínuos sobre a gripe aviária vêm preocupando autoridades e produtores norte-americanos. Gado leiteiro infectado, aves e instalações de postura contaminadas, leite cru e até ração para animais de estimação comprometidos compõem um quadro de risco sanitário crescente. Há ainda casos esporádicos em pessoas, geralmente associados ao contato com aves selvagens, aves de produção e gado. Esse cenário já era suficiente para acender o alerta vermelho no setor pecuário, mas ele ganhou contornos ainda mais dramáticos com a chegada iminente de uma nova ameaça.
Agora, os Estados Unidos enfrentam também o avanço da bicheira-do-Novo Mundo (Cochliomyia hominivorax), praga capaz de dizimar rebanhos bovinos e que coloca em xeque a produção de carne do país. Com o fechamento das fronteiras para o gado mexicano e a decisão de aplicar tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira, o abastecimento interno corre risco real de sofrer um colapso sem precedentes.
No Texas, criadores e autoridades alertam que o país não está preparado para lidar com um surto. “Se esperarmos, perderemos”, afirmou Stephen Diebel, vice-presidente da Associação de Criadores de Gado do Texas e do Sudoeste, durante audiência legislativa em Austin.
A infestação ocorre quando a mosca fêmea deposita de 10 a 400 ovos em feridas abertas de animais. As larvas eclodem em poucas horas, penetram na carne viva e se alimentam dela, agravando a lesão e atraindo mais moscas. Sem tratamento, uma vaca pode morrer em até duas semanas.
O parasita também pode atingir animais silvestres, domésticos e, raramente, humanos. Antes da erradicação nos EUA, na década de 1960, a praga causava prejuízos anuais estimados em US$ 20 milhões para a pecuária.
Por décadas, um esforço conjunto entre EUA e Panamá manteve a bicheira afastada. Mas agora a situação mudou:
- A praga foi detectada a menos de 600 km da fronteira texana.
- Mudanças climáticas e transporte ilegal de gado aceleram seu avanço.
- O comissário de Agricultura do Texas, Sid Miller, estima que ela possa chegar ao estado em até quatro meses.
A ameaça chega em um momento delicado para o abastecimento de carne nos EUA. O país já enfrenta o menor rebanho bovino desde 1952, devido a secas e altos custos de ração.
Para conter a praga, o governo americano suspendeu repetidamente a importação de gado vivo, cavalos e bisões do México — principal fornecedor de animais para engorda nos EUA. Essa medida já foi adotada três vezes nos últimos oito meses.
O impacto é imediato: a exportação de gado mexicano, que gerou US$ 1,2 bilhão no último ano, despencou para menos da metade em 2025. No México, pequenos produtores como Martín Ibarra Vargas perderam seu principal mercado e tiveram que recorrer à apicultura, ovinocultura e produção de leite para sobreviver.
Com a paralisação das compras do México, os EUA ficam ainda mais dependentes da carne importada — e aí surge outro problema. O presidente Donald Trump anunciou a aplicação de uma tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira a partir de agosto, medida que afeta diretamente o maior exportador mundial do produto. Essa decisão deve encarecer a carne importada e reduzir a oferta disponível no mercado americano.
O resultado é um cenário de pressão dupla sobre os preços: menor oferta de animais para abate e custo mais alto da carne importada. Em maio, a carne moída já atingiu recorde histórico de US$ 5,98 por libra, e analistas alertam que esse valor pode subir ainda mais nos próximos meses.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, anunciou:
- US$ 8,5 milhões para produção de moscas estéreis no Texas.
- US$ 21 milhões para modernizar fábrica no México, capaz de produzir até 100 milhões de moscas estéreis por semana.
Mas especialistas alertam que isso representa apenas 20% da produção necessária para conter um surto. Nas décadas passadas, eram liberadas 600 milhões de moscas estéreis por semana para erradicar a praga.
O senador John Cornyn propôs US$ 300 milhões para construir uma nova planta nos EUA, mas o projeto aguarda decisão no Congresso.
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