Pesquisa brasileira identificou alterações térmicas associadas à sobrecarga provocada pelas selas e reforça a importância do ajuste correto para prevenir desconforto, lesões e prejuízos ao desempenho dos animais.
A escolha da sela pode ter consequências muito maiores do que o conforto do cavaleiro. Uma pesquisa científica realizada com cavalos da raça Mangalarga Marchador identificou alterações nos padrões térmicos de contato entre o equipamento e o dorso dos animais, revelando pontos de possível sobrecarga que merecem atenção de criadores, treinadores e profissionais da equinocultura. Os resultados reforçam que uma sela aparentemente adequada pode apresentar problemas de ajuste capazes de comprometer o bem-estar e a funcionalidade do cavalo.
O trabalho, publicado na revista científica Research in Veterinary Science, utilizou termografia infravermelha para investigar alterações térmicas relacionadas ao uso da sela e avaliar os efeitos de uma intervenção quiroprática. Entre os resultados, 31% das imagens analisadas apresentaram assimetrias ou contato da calha da sela com a linha média do dorso, região que precisa ser protegida de pressões inadequadas. A descoberta chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado no manejo: a compatibilidade entre a estrutura da sela, a anatomia do animal e a distribuição do peso durante a montaria.
O que os pesquisadores descobriram nos cavalos Mangalarga Marchador
O estudo reuniu 13 cavalos Mangalarga Marchador, sendo sete machos e seis fêmeas, submetidos a uma sessão padronizada de exercício de 25 minutos.
Os animais foram divididos em dois grupos: seis integrantes do grupo controle e sete do grupo submetido à intervenção quiroprática. Durante a pesquisa, foram realizadas avaliações clínicas e termográficas antes e depois dos exercícios, além de acompanhamentos posteriores.
A termografia permitiu identificar diferenças de temperatura nas regiões de contato da sela. Essas alterações podem indicar distribuição irregular de carga, embora a temperatura, isoladamente, não seja uma medida direta da pressão exercida sobre o dorso.
Entre os achados, os pesquisadores registraram elevação média próxima de 1 °C em um dos quadrantes avaliados nas selas, além das assimetrias observadas nas imagens.
A avaliação quiroprática também identificou alterações vertebrais classificadas pelos autores como complexos de subluxação, principalmente nas regiões cervical e lombar. Entretanto, uma única sessão de quiropraxia não produziu mudanças significativas nos padrões termográficos dorsais.
Os resultados indicam a importância de investigar as condições mecânicas da montaria, sem atribuir à intervenção manual uma eficácia que o experimento não comprovou.
Problema já havia aparecido em outras pesquisas brasileiras
Os resultados ganham relevância quando comparados a estudos anteriores realizados com a mesma raça.
Em uma pesquisa publicada em 2019 no Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, cientistas avaliaram termograficamente 18 selas utilizadas por cavalos Mangalarga Marchador durante uma exposição nacional.
Os números chamaram atenção:
- 83,3% das selas apresentaram assimetria na área de contato.
- 83,3% também demonstraram interação com a linha média dorsal.
- Apenas 22,2% possuíam suadouros com área de contato superior a 50%.
Esses resultados não significam que todos os cavalos apresentavam lesões, mas evidenciam uma frequência elevada de inadequações na adaptação das selas examinadas.
Outra investigação, publicada em 2020 na revista Ciência Animal Brasileira, avaliou dez selas australianas utilizadas em cursos básicos de equitação com Mangalarga Marchador. Naquela amostra, todas apresentaram contato inadequado da região da calha com o dorso dos animais.
Os autores destacaram a necessidade de avaliações específicas de adaptação, especialmente em atividades que envolvem cavaleiros iniciantes.
Por que uma sela mal ajustada pode prejudicar a marcha
O Mangalarga Marchador é reconhecido pela comodidade e regularidade de seus andamentos, características que exigem coordenação muscular, equilíbrio e liberdade de movimento.
Durante a marcha, a musculatura do dorso participa da estabilização do tronco e da transmissão das forças geradas pelos membros. Quando a sela concentra peso em regiões inadequadas, o animal pode desenvolver desconforto, tensão muscular e alterações compensatórias.
Em situações persistentes, uma adaptação inadequada pode contribuir para dores toracolombares, perda de rendimento, alterações comportamentais e resistência ao trabalho.
O problema nem sempre aparece inicialmente como uma lesão visível. Mudanças na disposição para ser selado, sensibilidade durante a escovação, dificuldade de movimentação ou alterações no desempenho podem justificar uma investigação veterinária.
É importante observar que nem toda alteração de marcha tem origem na sela. Problemas locomotores, musculares, odontológicos e outras condições clínicas também podem interferir no comportamento e no rendimento do cavalo.
O que os criadores devem observar antes de montar
Para haras, centros de treinamento e proprietários, a principal contribuição prática dessas pesquisas está na necessidade de tratar a sela como um equipamento que exige avaliação individualizada.
Alguns cuidados merecem atenção:
- Distribuição do contato: a sela deve apoiar-se de maneira equilibrada, evitando concentrações excessivas de carga.
- Liberdade da coluna: a calha precisa preservar espaço adequado para a região dorsal central.
- Compatibilidade anatômica: largura, comprimento e formato da armação devem corresponder à conformação do cavalo.
- Avaliação em movimento: uma sela que parece adequada com o animal parado pode apresentar alterações de contato durante o exercício.
- Revisões periódicas: mudanças de musculatura, condição corporal e intensidade de treinamento podem modificar o ajuste necessário.
A termografia é uma ferramenta complementar útil para identificar assimetrias térmicas, mas não substitui o exame clínico nem a avaliação completa de adaptação da sela realizada por profissional capacitado.
Bem-estar também representa preservação do investimento
Na criação de cavalos Mangalarga Marchador, o investimento em genética, nutrição, treinamento e preparação para exposições pode ser elevado. Entretanto, o potencial de um animal depende também de sua capacidade de trabalhar com conforto e manter uma condição musculoesquelética adequada.
Uma sela incompatível com a conformação do cavalo pode prejudicar a rotina de treinamento e gerar despesas com avaliações, tratamentos e períodos de recuperação. Em animais destinados às provas de marcha, o desconforto também pode dificultar a expressão regular de suas características funcionais.
Por isso, a escolha do equipamento não deve considerar exclusivamente acabamento, tradição da marca ou preferência do cavaleiro. A adaptação ao dorso do cavalo precisa ter prioridade.
Pesquisa reforça necessidade de manejo individualizado
Embora o estudo mais recente envolva uma amostra limitada de 13 animais e não permita generalizações para toda a raça, os achados se somam a evidências brasileiras anteriores de que o ajuste das selas merece maior atenção na equinocultura.
A principal mensagem é que o bom desempenho não depende apenas de genética e treinamento. A interação entre cavalo, cavaleiro e equipamento também influencia o conforto e as condições de trabalho do animal.
Para os criadores de Mangalarga Marchador, incorporar avaliações periódicas da sela à rotina de manejo representa uma medida preventiva importante, capaz de contribuir para a saúde do dorso, o bem-estar e a longevidade esportiva dos cavalos.
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