Rebanho foi levado para uma área de preservação em Alicante com uma missão estratégica: consumir a vegetação que alimenta as chamas e ajudar a proteger florestas e residências. Iniciativa pode inspirar novas soluções para o campo brasileiro.
Um verdadeiro exército de 250 cabras assumiu uma missão pouco convencional na Espanha: ajudar a proteger uma área ambiental contra incêndios florestais. Os animais voltaram a circular pelo entorno do Parque Natural do Montgó, no município de Xàbia, província de Alicante, onde o acúmulo de vegetação representa um desafio para a segurança das florestas e das comunidades próximas.
A estratégia, retomada em setembro de 2026 após uma experiência iniciada em janeiro, aposta em uma solução antiga para enfrentar um problema cada vez mais complexo. Em vez de depender exclusivamente de máquinas e equipes de limpeza, as autoridades locais utilizam o comportamento alimentar dos caprinos para reduzir a quantidade de material vegetal que pode servir de combustível em um incêndio. A iniciativa combina preservação ambiental, atividade pecuária e proteção de propriedades próximas à vegetação natural.
A operação utiliza uma técnica conhecida como pastejo dirigido, na qual os animais são conduzidos para pontos específicos do terreno, consumindo gramíneas, folhas e arbustos que, quando secos, podem favorecer a propagação das chamas.
O trabalho é especialmente importante nas chamadas interfaces urbano-florestais, áreas onde residências e outras construções ficam próximas à vegetação. Nessas regiões, reduzir o material combustível pode contribuir para diminuir a intensidade de um eventual incêndio e facilitar a atuação das equipes de emergência.
O projeto é realizado com planejamento e supervisão, respeitando as orientações dos responsáveis pelo Parque Natural do Montgó. Áreas ambientalmente sensíveis, como microrreservas de flora e locais com espécies protegidas, ficam fora das rotas de pastejo.
A iniciativa reúne a prefeitura de Xàbia, o parque natural, a Creama e representantes do setor pecuário. Após a fase experimental iniciada em janeiro, o município decidiu manter a estratégia e avaliar sua expansão para outros espaços.
Por que as cabras foram escolhidas para essa missão?
A escolha não é por acaso. Diferentemente dos bovinos, que geralmente concentram o consumo nas gramíneas, as cabras apresentam maior aptidão para explorar vegetação arbustiva, folhas e brotações de plantas lenhosas.
Essa característica torna os caprinos particularmente úteis em ambientes mediterrâneos, onde o crescimento de arbustos pode formar camadas densas de vegetação inflamável.
A eficiência da técnica também encontra respaldo científico. Em um estudo conduzido no Parque Nacional de Doñana, na Espanha, pesquisadores acompanharam o efeito do pastejo caprino durante dois anos e identificaram resultados expressivos.
Nas áreas manejadas com cabras, o volume da vegetação arbustiva apresentou redução de 23,1%. Já nas áreas sem pastejo, houve aumento de 32,9% no mesmo período.
Os resultados reforçam que o pastejo controlado pode funcionar como ferramenta de manejo preventivo. Isso não significa, entretanto, que os animais sejam capazes de impedir todos os incêndios. A técnica reduz parte do combustível disponível e deve integrar um planejamento mais amplo de proteção florestal.
Uma solução que também pode gerar renda para os pecuaristas
Além da questão ambiental, a experiência espanhola aponta para uma oportunidade econômica: transformar o manejo de rebanhos em um serviço de conservação e proteção territorial.
Em algumas regiões da Espanha, produtores e pastores já participam de programas remunerados de manutenção de faixas de proteção contra incêndios. O modelo pode contribuir para sustentar pequenas propriedades e preservar a atividade pecuária tradicional.
Para os municípios, o benefício potencial está na manutenção contínua da vegetação, complementando os trabalhos mecanizados. Para os criadores, representa a possibilidade de diversificar receitas, embora a viabilidade dependa de custos operacionais, deslocamento, alimentação dos animais e contratos de prestação de serviço.
Estratégia espanhola poderia funcionar no Brasil?
O exemplo espanhol tem relação direta com um debate importante para a pecuária brasileira: o papel dos animais no manejo de áreas sujeitas a grandes incêndios.
No Pantanal, por exemplo, a Embrapa já destacou o potencial do chamado boi bombeiro, conceito associado à utilização do pastejo bovino para reduzir o acúmulo de biomassa combustível nas pastagens.
A lógica é semelhante, embora existam diferenças significativas entre os ecossistemas. Enquanto os caprinos podem atuar sobre parte da vegetação arbustiva, os bovinos apresentam grande capacidade de consumo de gramíneas.
No Brasil, a aplicação de estratégias semelhantes exige critérios técnicos, especialmente em áreas de vegetação nativa, unidades de conservação e reservas legais. O manejo inadequado pode provocar sobrepastejo, erosão, danos à regeneração natural e prejuízos à biodiversidade.
Para propriedades rurais, o principal aprendizado está no uso planejado dos animais como parte da gestão da vegetação, sempre respeitando a capacidade de suporte das pastagens e as exigências ambientais.
A prevenção começa muito antes das primeiras chamas
A experiência de Xàbia mostra que a prevenção de incêndios não depende apenas de equipamentos modernos ou grandes operações de combate. Também pode envolver o aproveitamento planejado de práticas tradicionais da pecuária.
O retorno das 250 cabras ao entorno do Parque Natural do Montgó representa justamente essa combinação entre conhecimento rural, planejamento ambiental e proteção das comunidades.
O rebanho não substitui bombeiros, aceiros ou outras medidas de segurança. Sua contribuição está em uma etapa anterior: reduzir as condições que permitem ao fogo ganhar intensidade e se espalhar rapidamente.
Para o agronegócio brasileiro, a principal lição é que a atividade pecuária, quando conduzida com responsabilidade técnica e ambiental, pode desempenhar funções que vão além da produção de carne e leite, tornando-se também uma aliada na conservação da paisagem e na prevenção de desastres.
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