Propriedade inglesa atravessa uma seca severa mantendo o gado no pasto graças ao uso de espécies de raízes profundas, diversidade vegetal e manejo rotacionado do rebanho
Enquanto a seca transforma áreas rurais da Inglaterra em campos amarelados, uma propriedade no condado de Essex chama atenção pelo contraste. A fazenda continua verde sem irrigação e ainda consegue manter o rebanho em pastejo, mesmo após semanas de pouca chuva. O resultado está associado a uma estratégia de manejo que combina diversidade de plantas, raízes profundas, cobertura permanente do solo e períodos controlados de descanso das pastagens.
O caso ocorre na Humphreys Farm, em Great Waltham, onde o produtor Sam Squier cria bovinos Aberdeen Angus em aproximadamente 200 acres. Nos últimos anos, ele substituiu parte do modelo convencional de pastagem por um sistema baseado em princípios de agricultura regenerativa.
A experiência ganhou repercussão em um momento especialmente difícil para a pecuária britânica. Dados oficiais divulgados em agosto mostram que 71,3% da Inglaterra estava em condição de seca, após o país registrar o julho mais seco em 190 anos. Em algumas regiões do sudeste inglês, o volume de chuva ficou próximo de apenas 1% da média esperada para o mês.
Fazenda continua verde sem irrigação com pastagem diversificada
Uma das principais diferenças está na composição do pasto.
Em vez de depender exclusivamente de gramíneas tradicionais, a fazenda utiliza os chamados herbal leys, uma mistura formada por gramíneas, leguminosas e outras plantas forrageiras capazes de ocupar diferentes profundidades do solo.
Espécies com sistemas radiculares mais desenvolvidos conseguem buscar umidade em camadas que permanecem inacessíveis para plantas de raízes superficiais. Isso amplia a capacidade da vegetação de atravessar períodos prolongados sem precipitação.
A estratégia também reduz a dependência de uma única espécie. Quando uma planta sofre mais com determinado tipo de estresse climático, outras podem continuar produzindo e ajudar a sustentar a oferta de forragem.
Segundo informações divulgadas sobre a propriedade, algumas áreas permaneceram com vegetação acima da altura dos joelhos mesmo após aproximadamente dois meses sem chuva significativa e sem uso de irrigação.
Manejo do solo ajuda a conservar a umidade
A diversidade de plantas funciona em conjunto com outro elemento essencial: a estrutura do solo.
Raízes em diferentes profundidades ajudam a criar canais naturais, favorecendo a entrada de água durante os períodos chuvosos. Ao mesmo tempo, resíduos vegetais permanecem sobre a superfície e ajudam a reduzir a exposição direta do terreno ao sol e ao vento.
Esse tipo de cobertura pode diminuir a evaporação e proteger a camada superficial contra degradação.
Na Humphreys Farm, Squier estima que as mudanças realizadas no manejo tenham aumentado significativamente a capacidade de armazenamento de água do terreno. O produtor calcula um ganho de aproximadamente 400 mil litros por acre, embora esse número seja uma estimativa da própria fazenda e não o resultado de um experimento científico independente.
A experiência ilustra um princípio importante: a técnica não substitui a chuva, mas procura fazer com que a propriedade aproveite melhor a água disponível quando ela chega.
Pastejo rotacionado evita pressão excessiva sobre o capim
Outra peça importante do sistema está na forma como os animais utilizam o terreno.
O rebanho permanece por períodos curtos em pequenas parcelas e depois é transferido para outra área. Em alguns momentos, os bovinos chegam a ser movimentados duas vezes no mesmo dia.
Esse controle reduz o risco de os animais consumirem repetidamente plantas que ainda estão em recuperação.
Após a saída do gado, a parcela permanece sem pastejo por um período determinado. O descanso permite que as plantas recomponham folhas, fortaleçam raízes e acumulem reservas antes da próxima entrada dos animais.
Parte da vegetação também acaba sendo pisoteada e permanece sobre a superfície, contribuindo para a formação de cobertura orgânica.
Seca pressiona pecuaristas na Inglaterra
O desempenho da propriedade se torna mais relevante quando comparado ao cenário enfrentado por outros produtores.
A Environment Agency informou que a seca já levou pecuaristas ingleses a anteciparem o uso de estoques de forragem reservados para o inverno, consequência direta da redução no crescimento das pastagens.
Os reservatórios do país também estavam em cerca de 69% da capacidade, abaixo do nível considerado normal para o período.
Em algumas regiões, a limitação da disponibilidade hídrica também passou a afetar a retirada de água destinada às atividades agrícolas.
Na Humphreys Farm, Squier afirma que há oito anos não precisa adquirir alimentação adicional destinada ao período de inverno. Segundo ele, a maior estabilidade das pastagens permitiu reduzir essa dependência.
O resultado, entretanto, não deve ser interpretado como uma garantia aplicável a qualquer propriedade, já que desempenho produtivo depende de clima, solo, espécies utilizadas, lotação animal e histórico de manejo.
Pesquisas avaliam se sistemas regenerativos suportam melhor a seca
O interesse por práticas desse tipo cresce à medida que eventos climáticos extremos passam a afetar de maneira mais frequente a produção agrícola.
Uma análise divulgada pela Soil Capital em 2026 avaliou informações de 1.262 propriedades agrícolas da França, cobrindo mais de 331 mil hectares entre 2021 e 2024.
Entre propriedades expostas a episódios de seca, aquelas com maior adoção de determinadas práticas regenerativas apresentaram perdas menores em alguns cenários.
Em uma das regiões avaliadas, a produtividade da cultura mais afetada caiu cerca de 22% nas propriedades com menor adoção dessas práticas, contra aproximadamente 8% entre as fazendas classificadas no grupo de maior adoção.
O levantamento, porém, é observacional. Isso significa que não é possível afirmar que apenas uma técnica tenha provocado a diferença. Tipo de solo, intensidade da seca, cultura plantada e decisões específicas de cada produtor também interferem nos resultados.
Ainda assim, os dados reforçam o interesse em sistemas capazes de tornar a produção menos vulnerável aos extremos climáticos.
Fazenda continua verde sem irrigação em meio a prejuízo bilionário
Além dos efeitos agronômicos, a seca vem ampliando a preocupação econômica.
Estimativa da Energy and Climate Intelligence Unit, citada pela Reuters, aponta que perdas agrícolas relacionadas à onda de calor no Reino Unido e na União Europeia podem alcançar aproximadamente € 2,3 bilhões.
O avanço dos prejuízos ajuda a explicar por que bancos, seguradoras e empresas ligadas à cadeia de alimentos começaram a participar do financiamento de iniciativas voltadas à recuperação dos solos e à adaptação climática.
No Reino Unido, programas já reúnem instituições financeiras, empresas de alimentos e companhias de água interessadas em reduzir riscos associados à produção agrícola.
A motivação vai além da sustentabilidade ambiental. Uma propriedade que atravessa períodos de seca com menor perda produtiva também representa menos risco para fornecedores, financiadores, seguradoras e compradores.
Técnica chama atenção, mas não é solução isolada
O fato de uma fazenda continuar verde sem irrigação durante uma seca severa mostra o potencial de sistemas baseados em diversidade vegetal e manejo cuidadoso do solo, mas o caso exige cautela.
Nenhuma técnica impede indefinidamente os efeitos da falta de chuva.
O desempenho depende de fatores como profundidade e textura do solo, quantidade de matéria orgânica, histórico de degradação da área, espécies escolhidas, intensidade do pastejo e duração dos períodos de descanso.
O principal aprendizado da experiência inglesa está justamente na preparação antecipada.
Em vez de reagir à seca somente quando a água já está escassa, a propriedade passou anos construindo um sistema capaz de infiltrar melhor a chuva, proteger o solo e explorar diferentes profundidades com as raízes das plantas.
Em um cenário de maior instabilidade climática, essa capacidade de atravessar períodos críticos pode se tornar tão relevante quanto buscar produtividade máxima em anos favoráveis.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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