Eles são Nelore, mas fogem do branco tradicional: gado colorido vira atração em feira

Manchas pretas ou vermelhas são resultado da genética e de décadas de seleção; variedade ganha espaço na Expofeira e desperta curiosidade entre os visitantes

O Nelore Pintado parece ter recebido pinceladas sobre o pelo branco, mas as manchas começam a ser definidas muito antes do nascimento. O desenho é determinado geneticamente durante o desenvolvimento do bezerro e pode produzir animais malhados de preto ou de vermelho, com padrões que variam de um exemplar para outro.

Esses bovinos estão entre as atrações da 47ª Expofeira, realizada de 6 a 13 de setembro de 2026, no Parque de Exposição João Martins da Silva, em Feira de Santana (BA). A organização informou que eles aparecem em maior número nesta edição, embora não tenha divulgado a quantidade apresentada. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Apesar da aparência diferente, não se trata de uma raça criada artificialmente nem de animais pintados pelo criador. Eles pertencem ao próprio Nelore e carregam variações naturais de pelagem que foram preservadas e multiplicadas por meio de acasalamentos selecionados.

Como surgem as pintas do Nelore Pintado?

A cor dos bovinos depende principalmente da produção e da distribuição de pigmentos nos pelos. Entre eles estão a eumelanina, associada aos tons pretos e escuros, e a feomelanina, relacionada às tonalidades vermelhas e amarronzadas.

Durante a formação do embrião, células conhecidas como melanócitos se distribuem pela pele e produzem pigmentação. A genética influencia onde essas células atuarão, qual pigmento será produzido e com qual intensidade.

Nas regiões pigmentadas, o pelo pode nascer preto ou vermelho. Nas áreas em que o pigmento não é depositado da mesma maneira, aparecem os espaços claros. O resultado visual é o contraste responsável pelo aspecto malhado.

Isso significa que as manchas não aparecem porque o animal tomou mais sol, recebeu alimentação específica ou passou por algum procedimento. O padrão nasce com o bezerro e é herdável, embora a expressão exata possa variar entre os descendentes.

A literatura científica sobre pelagens bovinas mostra que vários genes podem participar desse processo. O MC1R, por exemplo, ajuda a regular a produção dos pigmentos vermelho e preto. Outros genes interferem na intensidade da cor e na distribuição das áreas pigmentadas.

Um estudo publicado em 2021 na revista Genetics Selection Evolution identificou associação entre variações próximas ao gene ASIP e o escurecimento da pelagem em bovinos Nelore. A pesquisa, contudo, investigou principalmente a gradação de cor em animais da raça, não especificamente o desenho das manchas do Nelore Pelagens.

Por que alguns são pintados de preto e outros de vermelho?

A diferença está na pigmentação produzida e expressada pelo animal. Nos pintados de preto, as regiões escuras concentram pigmentação negra. Nos pintados de vermelho, essas áreas assumem tons que podem variar do avermelhado mais claro a uma coloração intensa.

Em bovinos, variantes do gene MC1R participam da definição entre pigmentação preta e vermelha. Duas cópias de determinadas variantes recessivas podem resultar na expressão da cor vermelha. No entanto, a cor de fundo não explica sozinha onde cada mancha aparecerá.

Em termos simples, a genética precisa responder a duas perguntas diferentes:

  • qual será a cor das áreas pigmentadas;
  • como essas áreas serão distribuídas sobre o corpo.

Por isso, não é correto imaginar que exista necessariamente um único “gene da pinta” capaz de determinar sozinho cor, tamanho, formato e localização das manchas.

A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) reconhece que a pelagem do Nelore ocorre predominantemente do branco ao cinza, mas também registra variantes pintadas ou malhadas de preto ou vermelho, consideradas menos frequentes.

Dois animais pintados geram sempre um bezerro pintado?

Não necessariamente. O resultado depende das variantes genéticas carregadas pelo touro e pela vaca, inclusive daquelas que não são visíveis na aparência dos pais.

Uma característica recessiva pode ficar escondida durante gerações. Um Nelore aparentemente branco pode carregar uma variante relacionada à pelagem diferenciada sem manifestá-la. Quando é acasalado com outro portador compatível, existe a possibilidade de a característica aparecer nos descendentes.

Criadores interessados no Nelore Pintado selecionam reprodutores e matrizes que já manifestam a pelagem ou possuem histórico familiar conhecido. Com várias gerações de acasalamentos dirigidos, aumenta-se a frequência das combinações genéticas desejadas dentro do rebanho.

Isso não significa que o criador consiga desenhar previamente cada mancha. Mesmo entre irmãos completos — filhos do mesmo touro e da mesma vaca — podem ocorrer diferenças no formato, na quantidade e na distribuição das áreas coloridas.

A história curiosa de uma bezerra vermelha

Uma das versões mais difundidas sobre o desenvolvimento dessa linhagem no Brasil começa em 1906, com a importação da Índia de uma novilha branca chamada Iraci. Segundo relato atribuído ao pesquisador José Aníbal Comastri, da Embrapa, o animal teria chegado ao país prenhe e dado origem a uma bezerra vermelha chamada Itabira.

Os cruzamentos posteriores teriam mostrado que a coloração poderia permanecer até a idade adulta e reaparecer em novas gerações, inclusive quando os acasalamentos envolviam exemplares brancos.

A narrativa é reproduzida por criadores e publicações do setor, mas os registros históricos disponíveis apresentam versões e cronologias diferentes. Por isso, ela deve ser compreendida como uma das explicações tradicionais para o início da seleção do Nelore de pelagem diferenciada no país, e não como uma história inteiramente comprovada por documentação pública acessível.

O ponto central é que os criadores passaram a identificar animais portadores dessas características e a direcionar os acasalamentos. Ao longo das décadas, a seleção transformou ocorrências menos comuns em linhagens capazes de produzir descendentes pintados com maior regularidade.

Nelore Pintado é uma raça diferente?

Tecnicamente, o nome utilizado por entidades do setor é Nelore Pelagens, embora Nelore Pintado seja a denominação popular mais conhecida. Os animais continuam pertencendo à raça Nelore e podem apresentar as mesmas características zootécnicas procuradas no gado tradicional.

A pelagem, sozinha, não comprova pureza racial ou superioridade genética. Para receber registro, o animal precisa atender às exigências genealógicas e ao padrão estabelecido pelas entidades responsáveis.

Exposições como a Expoinel e a ExpoZebu já realizam julgamentos próprios para Nelore Pelagens. A variedade também passou a contar com ranking nacional, sinal de que deixou de ser apenas uma curiosidade visual para ocupar espaço organizado nas pistas.

Na ExpoZebu 2026, o Nelore Pintado conquistou campeonatos e movimentou leilões de genética. A competição avalia atributos raciais e funcionais, não simplesmente o desenho mais bonito.

Cada animal carrega uma estampa exclusiva?

O formato das manchas pode funcionar como uma espécie de assinatura visual. Mesmo quando dois bovinos apresentam as mesmas cores, a distribuição sobre cabeça, pescoço, tronco e membros dificilmente será idêntica.

Esse caráter singular ajuda a explicar a popularidade dos animais nas redes sociais e nas exposições. Algumas manchas formam desenhos irregulares; outras aparecem em grandes áreas contínuas ou em pequenas ilhas de pigmentação.

A variedade também pode apresentar animais predominantemente claros, com poucas regiões coloridas, ou exemplares nos quais preto ou vermelho ocupam grande parte do corpo. A expressão “pintado” reúne, portanto, fenótipos bastante diversos.

A genética por trás dessa aparência continua sendo transmitida aos descendentes, mas cada nova combinação pode reorganizar visualmente o padrão. É por isso que o nascimento de um bezerro se torna um momento aguardado até mesmo em criatórios com várias gerações selecionadas.

Beleza não substitui produtividade

A pelagem diferenciada pode aumentar o interesse comercial, sobretudo no mercado de genética, em exposições e leilões. Porém, a cor não garante fertilidade, ganho de peso, qualidade de carcaça ou precocidade.

Criatórios especializados procuram combinar o padrão visual com estrutura corporal, aprumos corretos, habilidade reprodutiva e desempenho dos descendentes. Esse cuidado é necessário para evitar que a seleção por aparência enfraqueça outras características importantes.

A trajetória da matriz ANAID e de seus descendentes campeões mostra como o valor de um exemplar pode estar ligado à capacidade de transmitir qualidades ao rebanho, e não somente às manchas.

Na Expofeira, o público provavelmente observará primeiro o contraste das pelagens. Por trás das fotografias, contudo, está uma história de herança genética, características recessivas e acasalamentos planejados que transformou uma variação pouco frequente em um segmento reconhecido da seleção brasileira de Nelore.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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