Ela deixou a carreira jurídica, assumiu a fazenda da família e dobrou a produção de cana na mesma área

Lucille Papotti conciliou durante anos a atividade rural com o trabalho no Judiciário e adotou agricultura de precisão, GPS, piloto automático e mudanças no manejo da propriedade em Bariri

Uma mudança na administração da fazenda da família colocou Lucille Felipe Papotti diante de uma atividade bastante diferente da carreira que havia construído no Judiciário. Na propriedade localizada em Bariri, no interior de São Paulo, a produtora passou a buscar conhecimento técnico e incorporar novas ferramentas ao cultivo da cana-de-açúcar. O resultado divulgado para os canaviais foi a passagem de uma produtividade que estava na faixa de 80 toneladas por hectare para 102 t/ha na média dos seis primeiros cortes.

A transformação ocorreu ao longo dos anos, e não como uma mudança imediata de profissão. Uma publicação do Agro + Podcast informa que Lucille está à frente da propriedade desde 2015, enquanto registros do Tribunal de Justiça de São Paulo demonstram que ela continuou vinculada ao órgão posteriormente. Sua aposentadoria a pedido foi publicada apenas em março de 2024. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Da rotina no Judiciário para a gestão de um canavial

Lucille é formada em Direito e construiu parte de sua trajetória profissional no serviço público. Em relação publicada pelo próprio TJSP, ela aparece como escrevente técnico judiciário no Ofício Judicial da Comarca de Bariri, com ingresso registrado em abril de 1994.

Ao assumir responsabilidades na propriedade da família, precisou lidar com outra realidade: decisões sobre solo, máquinas, produtividade, operações agrícolas e planejamento da lavoura.

A Cana Online relata que o aprendizado inicial veio do pai e de um funcionário antigo da propriedade. A produtora também passou a frequentar encontros técnicos, dias de campo, workshops e seminários para ampliar o conhecimento sobre o cultivo da cana.

Esse processo se relaciona a um desafio comum em propriedades familiares. A sucessão familiar no campo não envolve apenas transferir patrimônio ou colocar outro integrante da família no comando. Quando acompanhada de mudanças na gestão, ela também pode modificar a maneira como os recursos, os dados e as tecnologias são utilizados.

Produtividade da cana chegou a 102 toneladas por hectare

O principal indicador disponível sobre a evolução da propriedade está no rendimento agrícola.

Segundo a Cana Online, os canaviais apresentavam produtividade próxima de 80 t/ha antes das mudanças de manejo. Posteriormente, a média dos seis primeiros cortes chegou a 102 t/ha. Isso representa acréscimo de 22 toneladas por hectare, ou aproximadamente 27,5% sobre o patamar anterior.

Entre as ferramentas implantadas na propriedade estão adubação em taxa variável, GPS e piloto automático, além de práticas descritas pela publicação como ligadas à agricultura regenerativa.

A taxa variável é uma das aplicações possíveis da agricultura de precisão. A técnica permite ajustar determinadas operações conforme diferenças identificadas dentro da própria área, evitando tratar todos os pontos de um talhão como se apresentassem exatamente as mesmas condições.

No cultivo da cana, experiências com agricultura de precisão e manejo da cana-planta mostram como informações de solo, planejamento das operações e aplicação direcionada de insumos podem entrar na estratégia para buscar maior eficiência produtiva.

Isso não significa que a tecnologia isoladamente explique o resultado de uma lavoura. Chuva, temperatura, fertilidade, variedade plantada, idade do canavial, qualidade das operações e histórico de manejo também interferem diretamente na quantidade de toneladas colhidas por hectare.

Resultado fica acima da média paulista

Os 102 t/ha divulgados para a propriedade de Lucille também permitem uma comparação com o desempenho médio da canavicultura paulista, desde que consideradas as diferenças metodológicas entre os indicadores.

No levantamento de junho de 2026, o Instituto de Economia Agrícola (IEA) estimou produtividade de 79,516 toneladas por hectare para a cana destinada à indústria no estado de São Paulo na safra 2025/26. A produção prevista era de aproximadamente 385,6 milhões de toneladas, em 4,849 milhões de hectares destinados ao corte.

A média de 102 t/ha relatada para a propriedade em Bariri fica cerca de 22,5 toneladas por hectare acima desse indicador estadual.

A comparação, porém, não equivale a um ranking. O número do IEA reúne milhares de áreas com diferentes variedades, condições de solo, regimes de chuva e idades de canavial. Já o indicador da propriedade corresponde especificamente à média informada para seus seis primeiros cortes.

Ainda assim, a diferença ajuda a dimensionar o nível produtivo alcançado.

Cana brasileira deve superar 700 milhões de toneladas

O desempenho ocorre dentro da principal cadeia produtiva agrícola paulista.

Em seu segundo levantamento da safra 2026/27, divulgado em agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou produção brasileira de 705,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, crescimento de 4,7% em relação ao ciclo anterior.

A produtividade média nacional foi projetada em 77,905 t/ha, enquanto o Sudeste aparece com estimativa de 80,872 t/ha. Somente São Paulo deverá colher aproximadamente 362,8 milhões de toneladas, segundo a companhia.

Os números reforçam o peso paulista na atividade e ajudam a explicar por que ganhos de produtividade são relevantes mesmo quando observados inicialmente dentro de uma única propriedade.

Em regiões onde a cana já ocupa extensas áreas e existe infraestrutura consolidada, aumentar o rendimento do hectare disponível pode ser uma alternativa à simples expansão territorial.

Tecnologia precisa vir acompanhada de manejo

A experiência de Bariri também chama atenção para um ponto que pode passar despercebido quando o assunto é modernização agrícola: comprar equipamentos não é o mesmo que melhorar a gestão.

GPS, piloto automático ou sistemas de aplicação variável são instrumentos. Para que tenham impacto sobre o resultado, precisam estar integrados a decisões sobre solo, nutrição, plantio, tratos culturais, máquinas e renovação dos canaviais.

O próprio Instituto Agronômico tem destacado a importância de estratégias voltadas tanto à produtividade inicial quanto à manutenção do desempenho durante os cortes seguintes. Em material publicado pelo Compre Rural, pesquisadores abordam estratégias de manejo da cana para aumentar a produtividade agroindustrial.

Esse cuidado é especialmente importante porque o produtor não avalia apenas quantas toneladas conseguiu colher em determinada safra. A longevidade do canavial interfere na necessidade de renovação e, consequentemente, nos custos acumulados ao longo dos ciclos.

Um canavial de alta produtividade, mas que perca rendimento rapidamente nos cortes seguintes, pode apresentar uma equação econômica diferente daquela observada apenas no primeiro resultado.

Gestão e sustentabilidade entraram na discussão

A atuação de Lucille também aparece relacionada à Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari). Documento público estadual atualizado em maio de 2024 relaciona Lucille da Silva Felipe Papotti entre os integrantes vinculados à entidade.

Em março daquele ano, durante a divulgação de um evento do setor, ela participou da discussão sobre certificação, tecnologia e gestão de propriedades rurais. O material registra sua avaliação sobre mudanças ocorridas após a adoção de processos de certificação entre produtores ligados à associação.

A participação reforça outro aspecto da transformação vivida pela propriedade: a administração rural passou a envolver questões que ultrapassam a execução das operações agrícolas e alcançam temas como organização do negócio, mensuração de resultados e sustentabilidade da produção.

O que o caso de Bariri mostra para outros produtores

Não seria correto transformar os números de uma fazenda em uma fórmula aplicável a qualquer canavial.

O resultado de 102 t/ha está ligado às condições específicas da propriedade e não permite afirmar que produtores que adotarem as mesmas ferramentas alcançarão rendimento semelhante.

O ponto mais útil da experiência está no processo.

Lucille assumiu uma atividade para a qual não tinha formação agronômica, buscou capacitação técnica e introduziu mudanças gradualmente. A propriedade passou a utilizar informações e equipamentos para orientar operações que anteriormente eram conduzidas de outra forma.

No mesmo período, a produtividade divulgada saiu da faixa de 80 toneladas para superar a marca de 100 toneladas por hectare.

Para o produtor, a história deixa uma referência mais concreta do que simplesmente associar modernização à compra de máquinas: a tecnologia tende a produzir melhores resultados quando faz parte de um sistema de gestão, acompanhamento e melhoria contínua do manejo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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