OMM projeta aquecimento de 3,8°C acima da média no Pacífico entre novembro e janeiro; cenário exige atenção à safra brasileira e à segurança alimentar mundial
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada das Nações Unidas, alertou nesta quarta-feira, 21 de outubro, que o El Niño de 2026/2027 poderá alcançar intensidade sem precedentes. A nova previsão aponta temperatura da superfície do mar cerca de 3,8°C acima da média na região de monitoramento do Pacífico equatorial, no trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com pico previsto próximo de dezembro.
Para o agronegócio brasileiro, o alerta chega durante a implantação da safra de verão e reforça a necessidade de planejamento regional. O fenômeno altera a circulação atmosférica e pode favorecer situações opostas dentro do país: excesso de chuva em áreas do Sul e maior pressão de calor e falta de água em outras regiões produtoras. A intensidade no oceano, porém, não determina sozinha o tamanho das perdas no campo. A distribuição das chuvas, a fase das culturas e as condições de cada propriedade serão decisivas.
O que significa o aquecimento de 3,8°C
O número divulgado pela OMM representa uma anomalia na temperatura superficial do oceano, isto é, a diferença em relação à média de referência. Não significa que a temperatura do ar no Brasil subirá automaticamente 3,8°C.
Segundo a atualização climática sazonal da organização, a média das projeções para a região Niño 3.4 chega a aproximadamente esse patamar entre novembro e janeiro. Trata-se de uma previsão, sujeita a atualizações, e não de um recorde já consolidado por observações.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, ressaltou que as consequências podem continuar depois do período de maior intensidade. “O El Niño atingirá seu pico perto do fim de 2026, mas seus impactos serão sentidos por muito tempo depois”, afirmou, em tradução livre.
Como o cenário pode afetar a produção brasileira
No Brasil, a preocupação precisa ser traduzida em decisões por região. Conforme orientações da Embrapa já apresentadas pelo Compre Rural, o El Niño exige estratégias diferentes para a agropecuária nas cinco regiões do país.
No Sul, chuvas mais intensas e concentradas podem provocar encharcamento, erosão, perda de nutrientes e interrupções nas operações agrícolas. A umidade persistente também favorece doenças nas lavouras.
No Norte e em áreas do Nordeste, a atenção recai sobre a disponibilidade de água, o calor e a irregularidade das precipitações. Na Amazônia, níveis baixos dos rios também podem dificultar transporte e abastecimento.
No Centro-Oeste e no Sudeste, as diferenças locais ganham peso. Veranicos e temperaturas elevadas podem comprometer o desenvolvimento das plantas, enquanto outras áreas enfrentam excesso de água. Não há uma resposta única para estados inteiros.
Na prática, o risco econômico depende do momento em que a condição adversa aparece. Falta de umidade na semeadura pode prejudicar o estabelecimento da lavoura; durante fases reprodutivas, pode comprometer o potencial produtivo. Esse contexto reforça a importância do planejamento antecipado dos produtores de soja na safra 2026/27.
ONU alerta para aumento da fome
O alerta climático também tem uma dimensão humanitária. O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, afirmou que 50 milhões de pessoas poderão enfrentar agravamento da fome diante dos impactos associados ao fenômeno. A declaração aponta um risco e reforça o apelo por ações antecipadas.
Secas, enchentes e calor extremo podem comprometer a produção de alimentos e ampliar a pressão sobre abastecimento de água, saneamento, saúde e moradia. A OMM defende o uso das informações climáticas para preparar governos e organizações humanitárias antes que os eventos extremos se transformem em emergências.
O que merece atenção dentro da fazenda
As orientações técnicas reunidas pela Embrapa priorizam conservar solo e água, respeitar as janelas do Zoneamento Agrícola de Risco Climático e acompanhar as atualizações meteorológicas.
Nas lavouras, isso envolve manter cobertura do solo, avaliar a umidade antes da semeadura e planejar drenagem, colheita e armazenamento onde houver risco de excesso de chuva. Na pecuária, os pontos centrais são ajustar a lotação à oferta de pasto, preparar reservas de forragem e garantir água e sombra aos animais.
O alerta global deve orientar a preparação, enquanto as decisões de manejo precisam considerar a previsão local. Antecipar essas medidas pode reduzir a exposição da propriedade tanto à falta quanto ao excesso de água.
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