Mesmo com o Pacífico Equatorial cada vez mais quente e tendência de temperaturas acima da média, frentes frias continuam avançando pelo país e mantêm riscos para trigo, canola, milho, café e rebanhos
El Niño não impede o frio no Brasil. Embora o fenômeno esteja se fortalecendo rapidamente e favoreça temperaturas médias mais elevadas em grande parte do país, ele não funciona como uma barreira contra frentes frias ou massas de ar de origem polar. A explicação está na diferença de escala: o El Niño altera probabilidades e padrões climáticos ao longo de meses, enquanto as ondas de frio dependem da circulação atmosférica dos dias seguintes.
Essa distinção ganha importância em setembro. O prognóstico mensal do INMET aponta temperaturas acima da média em boa parte do território, enquanto no Sul os valores devem permanecer mais próximos da climatologia. Ao mesmo tempo, o Painel El Niño 2026-2027 ressalta que quedas bruscas de temperatura associadas a massas de ar frio continuam possíveis, principalmente durante a transição entre inverno e primavera. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Por que o El Niño não impede o frio?
O El Niño nasce do aquecimento anormal do Pacífico Equatorial associado a mudanças na circulação da atmosfera. Sua influência pode alterar a distribuição das chuvas, a posição de corredores de umidade e a probabilidade de períodos mais quentes ou mais secos em determinadas regiões. Isso não significa, porém, que todos os dias durante um El Niño serão quentes.
A atualização do INMET publicada em 10 de setembro mostra bem essa diferença. Em agosto, a anomalia mensal da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a +1,8 °C, enquanto no leste do Pacífico Equatorial as anomalias ultrapassaram +3 °C. Mesmo com esse aquecimento expressivo, o órgão afirma explicitamente que ainda podem ocorrer episódios pontuais de queda de temperatura durante a passagem de massas de ar frio.
A Organização Meteorológica Mundial também considera o El Niño firmemente estabelecido e, em atualização divulgada em 3 de setembro, estimou probabilidade próxima de 100% de sua permanência até o trimestre dezembro de 2026-fevereiro de 2027. A entidade ressalta, porém, que a intensidade do fenômeno não se traduz automaticamente na mesma intensidade de impactos em todas as regiões.
É justamente aí que surge uma interpretação equivocada comum: uma previsão de “temperatura acima da média” não elimina noites muito frias. Uma média mensal pode terminar elevada mesmo depois de alguns dias com temperaturas excepcionalmente baixas, desde que o restante do período seja suficientemente quente.
O comportamento já vinha sendo discutido no contexto da safra 2026/27 diante do fortalecimento do El Niño, mas setembro acrescenta uma preocupação específica: a convivência entre um pano de fundo climático mais quente e episódios curtos de frio capazes de atingir culturas em fases sensíveis.
Frente fria, massa polar e El Niño atuam em escalas diferentes
As frentes frias estão ligadas ao encontro entre massas de ar com características distintas. Após a passagem de determinados sistemas, áreas de alta pressão com ar mais frio podem avançar do sul do continente em direção ao Brasil. A intensidade e o alcance desse ar dependem da configuração atmosférica daquele momento.
Esses processos continuam existindo independentemente da fase do El Niño-Oscilação Sul. O El Niño pode modificar sua frequência, trajetória ou interação com outros sistemas, mas não desliga a circulação de latitudes médias nem impede que o ar frio avance para norte.
Na primeira semana de setembro, por exemplo, o próprio INMET registrou uma frente fria no Centro-Sul seguida de frio intenso e condições para geada na Região Sul. Já para 10 e 11 de setembro, o risco predominante mudou: o órgão colocou áreas de Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sob alertas para tempestades, rajadas fortes, granizo e tempo severo.
Isso mostra por que o produtor precisa separar previsão climática de previsão do tempo. O El Niño serve como referência para planejamento sazonal; para decisões operacionais — proteção de animais, colheita, aplicações ou acompanhamento do risco de geada —, os avisos emitidos nos dias imediatamente anteriores são muito mais importantes.
A ocorrência de ondas de frio com risco para lavouras brasileiras ao longo de 2026 também evidencia como episódios de curta duração podem produzir impactos agrícolas mesmo dentro de períodos cuja média térmica não seja excepcionalmente baixa.
Geada tardia coloca trigo e canola entre as culturas mais sensíveis
Para o campo, não basta saber se fará frio. O estádio da cultura no momento da queda da temperatura é determinante para o tamanho do prejuízo.
No trigo, informações técnicas da Embrapa mostram que a sensibilidade à geada aumenta após o início do emborrachamento e atinge um dos pontos mais críticos durante espigamento e floração. Nessas fases, temperaturas suficientemente baixas podem prejudicar estruturas reprodutivas e comprometer a formação dos grãos.
Essa vulnerabilidade torna relevante qualquer incursão tardia de frio em áreas tritícolas do Sul. Casos anteriores de geadas atingindo lavouras de trigo no Paraná ajudam a dimensionar o motivo da preocupação quando baixas temperaturas coincidem com fases reprodutivas.
A canola apresenta uma dinâmica semelhante, mas sua resposta depende também da aclimatação prévia. Experimentos conduzidos com participação da Embrapa Trigo mostraram que plantas previamente expostas gradualmente ao frio sofreram menos danos. Nos ensaios, geadas a partir de -4 °C durante a floração reduziram componentes produtivos, enquanto no início do desenvolvimento os prejuízos mais expressivos ocorreram a partir de aproximadamente -6 °C, sobretudo em plantas não aclimatadas.
Esses valores não devem ser interpretados como um limite universal para todas as lavouras. Umidade, duração do frio, variedade, topografia, estágio fenológico e condições anteriores ao episódio interferem no dano efetivo.
Milho e café também exigem atenção em áreas mais frias
No milho, o risco de setembro tende a ser mais localizado. Áreas com lavouras tardias da segunda safra ou cultivos implantados cedo para a temporada seguinte podem ficar expostas às quedas bruscas de temperatura no Centro-Sul. O frio reduz a atividade fisiológica e, em caso de geada, tecidos vegetais podem sofrer danos, principalmente em plantas jovens ou lavouras ainda não totalmente maduras.
Essa preocupação já apareceu durante 2026 quando a queda das temperaturas aumentou a vulnerabilidade das lavouras de segunda safra, especialmente em situações de plantio ou desenvolvimento atrasado.
No café, a atenção se volta principalmente às zonas historicamente sujeitas a geadas no Paraná, São Paulo e em áreas de Minas Gerais. O cafeeiro é sensível ao congelamento dos tecidos, e a gravidade depende da temperatura atingida junto à planta, do relevo, da idade da lavoura e da duração do episódio.
Publicação técnica do Instituto Agronômico de Campinas destaca que o acúmulo de ar frio próximo ao solo pode atingir cafeeiros jovens e provocar lesões no caule. O material também reforça que os efeitos das temperaturas baixas variam conforme a intensidade e a posição das plantas no terreno.
Por isso, uma temperatura registrada na estação meteorológica mais próxima não representa necessariamente o que ocorre dentro de todas as lavouras. Baixadas e pontos de acúmulo de ar frio podem registrar condições diferentes das áreas mais elevadas da mesma propriedade.
No rebanho, o principal risco é o estresse por frio
Na pecuária, a expressão “choque térmico” é frequentemente usada para descrever mudanças repentinas, mas o problema tecnicamente mais relevante é o estresse por frio.
Bovinos adultos em boas condições corporais normalmente toleram temperaturas baixas melhor do que animais jovens, debilitados ou mal nutridos. O risco cresce quando o frio vem acompanhado de vento e chuva, porque a pelagem molhada perde parte de sua capacidade de isolamento e o vento acelera a perda de calor.
Orientações da Universidade de Nebraska mostram que a temperatura crítica inferior dos bovinos varia de acordo com condição corporal, pelagem, vento e umidade. Abaixo desse limite, o animal precisa direcionar mais energia para manter a temperatura corporal, aumentando as necessidades nutricionais.
Na propriedade, isso significa atenção redobrada a bezerros, animais magros, vacas em fases de maior exigência fisiológica e lotes expostos ao vento ou à chuva. Abrigos, quebra-ventos, áreas secas, acesso contínuo à água e planejamento nutricional tornam-se especialmente relevantes durante quedas acentuadas de temperatura.
O produtor deve acompanhar duas previsões, não apenas uma
O cenário para os próximos meses continua dominado pelo fortalecimento do El Niño. O INMET projeta chuvas acima da média em setores do Sul e maior probabilidade de déficit de precipitação em áreas do Centro-Norte, enquanto as temperaturas tendem a permanecer acima da climatologia em grande parte do Brasil.
Isso, porém, descreve a estação como um todo. Para saber se haverá geada em uma propriedade na próxima semana, é necessário acompanhar previsões de curto prazo, temperaturas mínimas, trajetória das frentes, vento, nebulosidade e alertas emitidos pelo INMET e pelos serviços meteorológicos estaduais.
A própria evolução de setembro reforça essa necessidade. Entre 8 e 15 de setembro, a previsão semanal do INMET indica volumes de chuva superiores a 100 mm em partes do Sul e Sudeste, enquanto a previsão de curtíssimo prazo para os dias 10 e 11 concentra os maiores riscos em tempestades e vento forte.
Portanto, a presença de um El Niño potencialmente excepcional não encerra a temporada de frio. Para a agricultura e a pecuária, o ponto central é outro: uma média sazonal quente pode conviver com poucos dias suficientemente frios para provocar perdas importantes. É essa variabilidade que deve permanecer no radar do produtor durante o restante de setembro e a transição para a primavera.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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