Nova previsão aponta intensificação até o fim do ano e possibilidade de um episódio forte a muito forte até março de 2027; no Brasil, impactos incluem chuva excessiva no Sul e condições mais secas em parte do centro-norte
O El Niño de 2026 continua se intensificando e passou a reunir condições para um episódio de dimensão histórica. No boletim divulgado em 8 de outubro, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, apontou 83% de probabilidade de o fenômeno superar a intensidade dos eventos registrados desde 1950, considerando seu indicador relativo de temperatura do Pacífico no trimestre outubro–dezembro.
Esse cenário ajuda a explicar a circulação de expressões como “Super El Niño” e “El Niño Godzilla”. Para o produtor brasileiro, porém, a informação mais relevante está nas consequências possíveis: mudanças na distribuição das chuvas, temperaturas elevadas e maior dificuldade para planejar operações agrícolas. A previsão brasileira indica riscos distintos entre regiões, justamente quando o país atravessa etapas importantes da implantação da safra de verão.
O que significa El Niño Godzilla
“El Niño Godzilla” é um apelido informal, utilizado para chamar atenção para episódios excepcionalmente intensos. A expressão ganhou destaque no evento de 2015–2016, enquanto “Super El Niño” também é usado informalmente para descrever fenômenos muito fortes, conforme explica o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS.
Na classificação apresentada pela NOAA, os eventos são divididos em intensidade fraca, moderada, forte e muito forte. “Godzilla” não representa uma categoria adicional, acima dessas classificações.
A agência também ressalta que a intensidade medida no oceano não corresponde automaticamente à intensidade dos impactos em cada localidade. Um episódio mais forte aumenta a confiança em determinados padrões climáticos, mas não garante chuva excessiva ou seca em todos os lugares associados a esses padrões.
O que mudou na previsão de outubro
A atualização da NOAA indica que o El Niño deve continuar ganhando força até o encerramento de 2026. A probabilidade de um episódio histórico é de 83% para outubro–dezembro e de 70% para novembro–janeiro.
Para essa comparação, a agência utiliza um valor de pelo menos +2,5 °C na média trimestral do Índice Oceânico Niño Relativo, o RONI. Portanto, trata-se de um critério específico de monitoramento, que não deve ser confundido com a temperatura de um ponto isolado do oceano.
O boletim também aponta probabilidade superior a 83% de condições fortes a muito fortes até o trimestre janeiro–março de 2027. Isso amplia o horizonte de atenção para além do plantio, alcançando fases posteriores do desenvolvimento das lavouras.
Como o Brasil pode ser afetado
O quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027, produzido por instituições federais, apresenta as seguintes tendências para outubro, novembro e dezembro:
Região Tendência climática Sul Maior probabilidade de chuva acima da média Sudeste Chuva acima da média em parte da região Centro-Oeste Possibilidade de chuva abaixo da média em algumas áreas Norte Predomínio de tendência mais seca em grande parte da região Nordeste Chuva abaixo da média em algumas áreas, com sinal de chuva acima da média no leste
As temperaturas devem permanecer acima do normal em grande parte do Brasil. Essas projeções representam tendências trimestrais, com diferenças dentro de cada região, e não uma previsão diária para todos os municípios.
Safra e pecuária enfrentam riscos diferentes
No centro-norte do país, o Painel El Niño destaca que a combinação de menos chuva e calor pode comprometer a germinação e o estabelecimento da soja, além de afetar pastagens e a disponibilidade de água para os rebanhos.
No Sul, a disponibilidade hídrica pode favorecer o milho de primeira safra. Entretanto, o excesso de umidade aumenta o risco de doenças no trigo e pode dificultar a semeadura de soja e arroz irrigado. Mais chuva, portanto, não significa necessariamente melhores condições para todas as culturas.
A leitura prática desse cenário é que o planejamento da propriedade precisa considerar tanto a falta quanto o excesso de água. A mesma condição climática que beneficia uma lavoura pode reduzir a janela de trabalho em outra, dependendo do solo, da cultura e da fase de desenvolvimento.
A força do fenômeno não define o volume de chuva na fazenda
Uma previsão de El Niño muito forte não permite determinar quantos milímetros vão cair em um município, nem confirmar uma enchente específica. Para isso, é necessário acompanhar previsões meteorológicas de curto prazo, condições dos rios e alertas locais.
As instituições responsáveis pelo Painel El Niño recomendam justamente esse acompanhamento contínuo. Para o campo, o ponto central é transformar a previsão sazonal em preparação e ajustar as decisões conforme as condições observadas — sem tratar o apelido “Godzilla” como uma previsão de desastre para todo o Brasil.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.