Produtores transferem rebanhos para terrenos mais altos diante da cheia; falta de embarcações e de pastagens disponíveis dificulta operação no norte de Santa Fe.
A elevação do rio Paraná colocou pecuaristas argentinos em uma corrida para retirar rebanhos das ilhas e evitar que os animais fiquem cercados pela água. No norte da província de Santa Fe, os trabalhos se concentram nos departamentos de General Obligado e San Javier, onde reportagens da imprensa argentina apontam que entre 150 mil e 230 mil bovinos podem precisar de transferência para áreas mais altas. A estimativa representa o contingente potencialmente envolvido na operação, e não o total já resgatado.
O problema vai além de embarcar o gado. É necessário encontrar propriedades para receber os lotes, coordenar transporte fluvial e rodoviário e manter os cuidados sanitários durante o deslocamento. Em diferentes trechos do Paraná, produtores já antecipam a saída dos animais diante das chuvas associadas ao El Niño e do avanço da cheia, embora a situação varie entre as localidades.
Falta de barcos e de campos dificulta retirada
Segundo informações publicadas pelo Filo News, o vice-presidente da Sociedade Rural de Reconquista, Augusto Gastaldo, alertou que a velocidade de subida do rio encurtou o prazo disponível para os trabalhos. Na região citada pelo dirigente, a operação enfrenta disponibilidade limitada de barco para transporte de bovinos e escassez de campos para aluguel, já afetados por alagamentos.
Nas ilhas mais distantes, a retirada depende de embarcações adaptadas. Em pontos próximos às margens, há relatos de deslocamento dos animais a nado. A presença de rebanhos nas proximidades das rodovias também motivou pedidos de atenção aos motoristas.
Mais ao sul, no Delta, a estrutura é diferente. Em reportagem de 19 de outubro, o portal argentino El Rural informou que sete barcos de transporte de gado trabalhavam na região de San Nicolás e Ramallo. A pecuarista e capitã Analía Esperón relatou uma viagem com 210 novilhos, destinados à terminação em confinamento.
“Temos oito horas de navegação para chegar ao porto de San Nicolás”, afirmou a produtora, em tradução livre. O relato mostra que cada carregamento exige horas de deslocamento antes mesmo da transferência dos animais aos caminhões.
Retirar o rebanho pode exigir confinamento ou venda
Para quem depende das pastagens insulares, a cheia interrompe a base alimentar do sistema. Sem outra área disponível, a saída pode envolver contratação de pasto, entrada em confinamento ou comercialização antecipada.
Ao Infocampo, Leonardo Scarparo, presidente da Comunidad Islera Asociación Civil, apontou cerca de 30 mil bovinos potencialmente comprometidos nas ilhas do departamento de Victoria, diante de Rosario. Esse número se refere a outro recorte regional e não deve ser somado automaticamente às estimativas divulgadas para Santa Fe.
“É preciso recorrer obrigatoriamente ao confinamento ou vender o gado”, afirmou Scarparo, em tradução livre, ao explicar as alternativas de produtores sem condições de manter os animais em outro local. Na avaliação do dirigente, as vendas forçadas podem pressionar preços e comprometer o resultado das propriedades.
Vacas em parição aumentam preocupação
A retirada também coincide com uma fase sensível para parte dos rebanhos de cria. Em entrevista ao jornal argentino La Nación, o produtor Fabio Terleski, da região das ilhas San Martín e Apipé Chico, relatou dificuldades para transportar animais durante a parição.
Segundo ele, o estresse do deslocamento tem provocado perda de peso e complicações reprodutivas. O pecuarista descreveu uma operação familiar para retirar um conjunto de aproximadamente 400 animais, entre bovinos, equinos e pequenos ruminantes, com uso de embarcações de menor porte diante da falta de balsas disponíveis.
Cheia exige decisões antes de a água alcançar o pasto
Apesar dos relatos de urgência, o cenário não é igual em toda a extensão do rio Paraná. O diretor de Pecuária de Entre Ríos, Martín Sieber, diferenciou a preparação preventiva de uma emergência imediata em todos os pontos da província.
Conforme informações reproduzidas pelo Semanario de Junín, o governo provincial articula ações com a autoridade naval argentina, a polícia, o Senasa e a Fundação de Luta contra a Febre Aftosa. O objetivo é organizar embarques e desembarques e reduzir o número de animais que possam ficar isolados.
Para a pecuária brasileira, os relatos reforçam a importância de planejar o destino do rebanho antes de perder o acesso às áreas baixas. Como mostrou o Compre Rural, o El Niño exige estratégias diferentes para a agropecuária nas cinco regiões do País, com medidas adaptadas à localização e ao sistema produtivo. Nas propriedades expostas a enchentes, acompanhar os alertas locais e definir antecipadamente rotas, transporte e áreas de acolhimento são decisões que ajudam a preservar os animais e a continuidade da produção.
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