Plano federal prevê estoques de arroz e milho, assistência a comunidades vulneráveis, apoio ao campo, monitoramento dos rios e combate aos incêndios florestais
O El Niño acende alerta no Brasil e levou o governo federal a reunir R$ 1,335 bilhão em ações preventivas para proteger o abastecimento de alimentos, a produção rural e as populações mais expostas aos eventos climáticos extremos. O planejamento também contempla saúde pública, acompanhamento dos rios e reforço das operações ambientais.
As medidas foram apresentadas nesta quarta-feira (29), durante reunião ministerial no Palácio do Planalto. O encontro marcou a criação de uma sala de situação formada por 24 ministérios, que acompanhará a evolução do fenômeno e coordenará as respostas do poder público.
Também serão organizados grupos especializados em agricultura, estiagem, incêndios, saúde, energia, combustíveis, segurança alimentar, assistência social e resposta a desastres. A intenção é integrar informações de diferentes órgãos para antecipar problemas antes que os impactos alcancem maior proporção.
El Niño acende alerta para o abastecimento de alimentos
A maior parte do pacote será destinada à formação de estoques públicos. Dos R$ 998 milhões reservados para abastecimento, segurança alimentar, saúde e acompanhamento hidrológico, aproximadamente R$ 850 milhões financiarão a compra de grãos.
A previsão é adquirir 180 mil toneladas de milho e 310 mil toneladas de arroz. Esses produtos poderão ser utilizados para reforçar a oferta nacional caso problemas climáticos prejudiquem colheitas, transporte ou distribuição.
O milho possui importância estratégica para a alimentação de aves, suínos e bovinos. Uma redução da oferta pode encarecer a ração e aumentar os custos principalmente para pequenos criadores. O arroz, por sua vez, integra a base alimentar da população e tem grande parte da produção concentrada na Região Sul, onde o El Niño costuma favorecer chuvas mais volumosas.
Os estoques funcionam, portanto, como uma reserva para situações de dificuldade logística ou escassez temporária. A eficiência da medida dependerá das condições de armazenamento, da velocidade das compras e dos critérios utilizados para a liberação dos produtos.
Comunidades vulneráveis receberão cestas de alimentos
O plano separa R$ 65 milhões para a compra e distribuição de 350 mil cestas de alimentos. A iniciativa atenderá povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares.
Na Região Norte, uma estiagem intensa pode reduzir a profundidade dos rios e limitar a circulação de embarcações. Como diversas comunidades dependem do transporte fluvial, o problema pode interromper a chegada de alimentos, medicamentos e combustíveis.
A experiência recente demonstrou esse risco. Em outubro de 2023, o Rio Negro atingiu 12,70 metros em Manaus, então o menor nível registrado desde o início das medições, em 1902. A situação afetou o deslocamento de moradores e o abastecimento de localidades isoladas.
Para ampliar a capacidade de acompanhamento, o pacote ainda prevê R$ 25 milhões para monitorar rios e reservatórios. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico já reforçou a vigilância hidrológica diante do desenvolvimento do El Niño.
Agricultores familiares terão apoio para comercialização
O Programa de Aquisição de Alimentos receberá R$ 13 milhões, com previsão de alcançar cerca de 21,6 mil produtores da Região Norte.
Por meio do programa, alimentos cultivados pela agricultura familiar são comprados pelo poder público e destinados a instituições, equipamentos sociais e pessoas em situação de vulnerabilidade. A operação gera mercado para os produtores e, ao mesmo tempo, fortalece a segurança alimentar.
O apoio pode ser especialmente relevante em áreas onde o El Niño provocar perdas de produtividade, dificuldades de transporte ou elevação dos custos de produção. Pequenos agricultores geralmente possuem menor capacidade financeira para absorver prejuízos causados por estiagem prolongada, calor excessivo ou interrupções logísticas.
El Niño acende alerta para incêndios florestais
Outros R$ 337,48 milhões foram autorizados por meio da Medida Provisória nº 1.367, publicada em junho de 2026. O crédito extraordinário será aplicado em fiscalização ambiental e em operações de prevenção e combate ao fogo.
A preocupação aumenta com a combinação entre temperaturas elevadas, pouca chuva e vegetação seca. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o período entre agosto e outubro deverá exigir maior atenção, principalmente na Amazônia, no Cerrado e em áreas do Centro-Oeste.
Além de destruir vegetação e comprometer propriedades rurais, os incêndios podem causar perda de pastagens, morte de animais, danos a cercas e interrupção de atividades produtivas. A fumaça também piora a qualidade do ar e amplia a procura por atendimento médico.
Por essa razão, R$ 45 milhões do pacote serão destinados aos Centros de Informação em Saúde e Clima e à Força Nacional do SUS. Os recursos deverão apoiar a preparação da rede pública diante de problemas respiratórios, desidratação e outras consequências associadas ao calor, à seca e aos incêndios.
Impactos serão diferentes em cada região
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento persistente das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e interfere na distribuição das chuvas em diferentes partes do mundo.
No Brasil, o fenômeno foi confirmado em junho de 2026. O primeiro boletim do Painel El Niño 2026–2027 apontou probabilidade superior a 90% de permanência até pelo menos o início de 2027, com possibilidade de intensidade muito forte entre a primavera e o verão.
As projeções indicam tendência de chuvas acima da média em áreas do Sul, enquanto grande parte do centro-norte do país poderá registrar precipitações abaixo do padrão histórico. As temperaturas também devem permanecer elevadas em boa parte do território nacional.
No Norte, o principal risco envolve a redução do nível dos rios, a escassez de água e o isolamento de comunidades. No Nordeste, a irregularidade das chuvas pode comprometer lavouras e reservas destinadas aos rebanhos.
Centro-Oeste e Sudeste devem permanecer atentos à estiagem, às ondas de calor e aos incêndios. Já os produtores do Sul podem enfrentar excesso de chuva, alagamentos, erosão, doenças nas lavouras e dificuldades para entrar com máquinas no campo.
Prevenção precisará chegar rapidamente ao campo
O volume anunciado amplia a estrutura disponível para enfrentar o fenômeno, mas o resultado dependerá da execução das medidas. Estoques públicos precisam ser formados no momento adequado, equipes ambientais devem estar posicionadas nas áreas críticas e os recursos destinados às comunidades precisam chegar antes de eventuais interrupções no transporte.
Para os produtores rurais, o cenário reforça a importância de acompanhar previsões regionais, preservar reservas de água, revisar aceiros, proteger áreas de armazenamento e planejar o calendário agrícola conforme as condições locais.
O El Niño acende alerta, mas seus prejuízos não são determinados apenas pela intensidade do fenômeno. A capacidade de antecipar riscos, compartilhar informações e executar as ações previstas será decisiva para proteger a produção agropecuária, o abastecimento e as populações vulneráveis.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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