Edílson Capetinha perdeu dinheiro em esquema fraudulento da Boi Gordo; veja outros jogadores lesados

Pentacampeão afirma que ainda tem dinheiro a receber da empresa envolvida em uma das maiores fraudes financeiras do Brasil, com prejuízos estimados em R$ 6 bilhões

Fundada por Paulo Roberto de Andrade em 1988 e popularizada nos anos 1990, a Fazendas Reunidas Boi Gordo protagonizou um dos maiores golpes financeiros do Brasil. Sob a promessa de ganhos com a engorda de bovinos, a empresa atraiu milhares de investidores para um negócio que funcionava como uma pirâmide financeira. O esquema deixou cerca de 32 mil pessoas prejudicadas e perdas estimadas em R$ 6 bilhões. Entre elas está o ex-jogador Edílson Capetinha, que voltou a falar sobre o dinheiro perdido.

Campeão mundial com a Seleção Brasileira em 2002, Edílson revelou, em entrevista ao Abre Aspas, do ge, publicada em 24 de setembro, que os investimentos equivocados e a confiança depositada em determinadas pessoas comprometeram a tranquilidade financeira que poderia ter conquistado após encerrar a carreira.

“Perdi muita grana em fazer investimentos errados. Você tem que ter gestor financeiro dentro do projeto, pessoas de confiança para que não perca o seu dinheiro. Investi na época do Boi Gordo. Não só eu, outros jogadores também. Depois decretaram falência, a gente deixou muito dinheiro e até hoje não foi resolvido esse negócio. Tenho uma grana pesada lá para receber e até hoje não recebi” – disse o ex-jogador na entrevista.

O ex-atacante não informou quanto investiu nem o valor que espera recuperar. Seu relato, porém, mostra como as consequências da quebra continuam presentes na vida de quem entregou à empresa parte do patrimônio construído durante anos de trabalho.

Hoje, Edílson trabalha com assessoria para jogadores em atividade e ex-atletas, incluindo cuidados com imagem, marca e redes sociais. Ao recordar as perdas, defendeu a importância de contar com profissionais capazes de avaliar os investimentos e ajudar a proteger o dinheiro conquistado no futebol.

A promessa de riqueza que terminou em prejuízo

Como já mostrou o CompreRural ao relembrar a história da Boi Gordo, a empresa transformou a criação de bovinos em uma proposta de investimento que parecia acessível até para quem nunca havia pisado em uma fazenda. O cliente colocava dinheiro em contratos vinculados à engorda dos animais, enquanto a companhia ficaria responsável pela operação no campo.

A promessa era receber aproximadamente 42% de rendimento em 18 meses, um retorno muito atraente, apresentado como resultado da valorização dos animais durante a engorda. Para o investidor, a ideia era participar dos ganhos da pecuária sem precisar comprar terras, administrar pastagens ou cuidar diretamente do rebanho.

A publicidade ajudou a dar força ao negócio. Com anúncios nos intervalos da novela O Rei do Gado e campanhas protagonizadas por Antônio Fagundes, a Boi Gordo associava sua imagem ao universo de riqueza e prosperidade retratado na televisão. A presença de uma figura conhecida ampliava a visibilidade da empresa e contribuía para transmitir confiança ao público.

No futebol, as indicações entre colegas também favoreceram a adesão. Vampeta relatou que o investimento se tornou uma febre entre jogadores: um atleta conhecia a proposta, recomendava aos companheiros e outros acabavam aplicando seus recursos. Assim, a confiança pessoal ajudava a abrir caminho para decisões envolvendo valores elevados.

O problema estava na origem do dinheiro usado para pagar os rendimentos. Em vez de depender apenas dos resultados da atividade pecuária, a empresa utilizava recursos de novos investidores para quitar os contratos dos antigos. Essa circulação de dinheiro sustentava a pirâmide e criava uma aparência de normalidade enquanto havia novas aplicações entrando.

Nesse mecanismo, os primeiros pagamentos podem reforçar a confiança dos clientes: quem recebe acredita que o negócio funciona e pode reinvestir ou indicar a oportunidade. Mas a estrutura depende continuamente de novas entradas. Quando os recursos captados deixam de acompanhar os compromissos assumidos, os pagamentos se tornam insustentáveis.

Na Boi Gordo, a crise veio à tona em 2001, com dificuldades para honrar os compromissos e o pedido de concordata. A falência foi decretada em 2004. Para milhares de investidores, os contratos que representavam a expectativa de aumentar o patrimônio passaram a representar créditos a cobrar em uma longa disputa judicial.

Vampeta, Evair e artistas também foram atingidos

Edílson não foi o único nome conhecido do futebol a investir na Boi Gordo. Vampeta, também pentacampeão em 2002, contou à Folha de S.Paulo, em 2014, que recebeu de Edílson certificados ligados a bois como presente e depois colocou dinheiro no negócio.

Na mesma reportagem, Evair, ídolo do Palmeiras, relatou ter aplicado recursos da venda de um apartamento. Além do prejuízo financeiro, afirmou que enfrentou problemas com amigos aos quais havia indicado o investimento e teve despesas com advogado.

Reportagem da Exame também relacionou César Sampaio e o técnico Luiz Felipe Scolari entre os investidores atraídos pelo negócio.

No meio artístico, a Veja citou Marisa Orth, Hans Donner e Antônio Fagundes entre os prejudicados. Fagundes, além de interpretar o protagonista de O Rei do Gado, participou das campanhas publicitárias da empresa.

Décadas depois, a busca pelo ressarcimento continua

A recuperação do dinheiro envolve a localização de patrimônio, a venda de ativos e a distribuição dos recursos conforme as regras do processo falimentar. O site oficial da massa falida mantém informações sobre cadastramento, validação de credores, rateios e leilões de bens recuperados.

Um exemplo da trajetória dessas propriedades foi noticiado recentemente: uma fazenda da antiga Boi Gordo foi anunciada para leilão com lance inicial superior a R$ 88 milhões. Localizada em Apiacás, Mato Grosso, a área de aproximadamente 59,9 mil hectares tinha lance mínimo anunciado de R$ 88.956.471,97.

Mais de duas décadas após a quebra, o caso ainda exige medidas judiciais para recuperar patrimônio e ressarcir os lesados. Para Edílson e outros investidores que continuam esperando, a promessa de ganhos com o gado se transformou em uma disputa prolongada para reaver o próprio dinheiro.

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