Dono do Arsenal se torna o maior proprietário privado de terras dos EUA, com 1,09 milhão de hectares

Stan Kroenke construiu um império que vai do futebol às fazendas e assumiu a liderança entre os maiores donos privados de terras do país; avanço dos bilionários sobre áreas produtivas também preocupa agricultores

Conhecido mundialmente por ser proprietário do Arsenal e de algumas das franquias esportivas mais valiosas do planeta, o bilionário americano Stan Kroenke construiu longe dos estádios um patrimônio de proporções ainda mais impressionantes: cerca de 1,09 milhão de hectares de terras nos Estados Unidos.

A dimensão desse patrimônio rural colocou Kroenke no topo do ranking dos maiores proprietários privados de terras do país. Segundo levantamento citado pela Fortune, ele controla aproximadamente 2,7 milhões de acres (cerca de 1,09 milhão de hectares), distribuídos principalmente entre grandes fazendas, ranchos e propriedades produtivas.

A história chama atenção não apenas pelo tamanho das propriedades. Ela revela um movimento cada vez mais relevante no mercado americano: bilionários estão aumentando sua exposição à terra agrícola, considerada um ativo capaz de gerar renda, preservar patrimônio e se beneficiar da valorização de um recurso cuja oferta é naturalmente limitada.

Do Arsenal a 1,09 milhão de hectares

Kroenke é dono de um dos portfólios esportivos mais valiosos do mundo. Além do Arsenal, controla ou possui participação em equipes como Los Angeles Rams, Denver Nuggets e Colorado Avalanche. Mais recentemente, anunciou a aquisição do time de beisebol Los Angeles Angels.

Mas a origem de boa parte de sua fortuna está ligada ao mercado imobiliário.

Antes de se tornar uma potência nos esportes, o empresário desenvolveu centros comerciais nos Estados Unidos. Kroenke também é casado com Ann Walton Kroenke, herdeira da família fundadora do Walmart.

Paralelamente aos negócios imobiliários e esportivos, ele avançou sobre propriedades rurais em uma escala incomum.

O movimento que o levou ao primeiro lugar entre os proprietários privados de terras dos EUA ganhou força com a aquisição de aproximadamente 379 mil hectares de fazendas pertencentes à família Singleton, operação apontada como a maior compra de terras realizada no país em mais de uma década.

Com isso, Kroenke ultrapassou grandes proprietários tradicionais, como o empresário de mídia John Malone e Ted Turner.

Para efeito de comparação, o material cita Bill Gates com aproximadamente 111 mil hectares, ocupando apenas a 44ª posição nesse ranking.

Terra agrícola virou ativo de trilhões de dólares

O caso de Kroenke ajuda a explicar por que as fazendas passaram a disputar espaço nas carteiras dos grandes investidores.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apresentados no material, o valor médio das terras agrícolas americanas chegou a US$ 10,7 mil por hectare em 2025, avanço de 4,3% sobre o ano anterior.

Steve Bruere, presidente da consultoria agrícola Peoples Company, estima que o setor tenha se transformado em uma classe de ativos avaliada em aproximadamente US$ 4,3 trilhões.

Não se trata, portanto, apenas de comprar uma fazenda.

A terra passou a desempenhar simultaneamente diferentes funções dentro de grandes patrimônios: pode preservar capital diante da inflação, produzir alimentos e matérias-primas, gerar receita por meio de arrendamentos e ainda capturar valorização imobiliária ao longo do tempo.

Por que os super-ricos estão comprando fazendas?

O interesse aumentou especialmente depois da crise financeira de 2008, quando investidores passaram a buscar alternativas aos ativos financeiros tradicionais.

A lógica é relativamente simples: terra é um recurso limitado, enquanto a demanda mundial por alimentos continua relacionada ao crescimento populacional, à renda e ao consumo.

Há ainda outra característica importante.

Grandes investidores não precisam necessariamente administrar diretamente a produção agrícola. As propriedades podem ser arrendadas para produtores, criando um fluxo recorrente de receita enquanto o proprietário permanece exposto à eventual valorização da terra.

Essa combinação ajuda a transformar fazendas em ativos atraentes para investidores interessados em horizontes de décadas, e não apenas nos resultados de uma safra.

O outro lado da corrida bilionária pelas terras

O avanço do capital sobre áreas produtivas, entretanto, tem provocado preocupação entre agricultores americanos.

Quanto maior a capacidade financeira dos compradores, maior pode ser a pressão sobre os preços das propriedades em determinadas regiões. Para produtores que dependem da própria atividade para financiar uma aquisição, competir com investidores bilionários torna-se particularmente difícil.

Erin Foster West, diretora de campanhas da National Young Farmers Coalition, destacou à Fortune que agricultores, especialmente os mais jovens, enfrentam dificuldades para competir com grandes compradores.

O problema aparece justamente no momento da entrada ou expansão no setor: comprar a primeira propriedade ou ampliar uma operação existente exige cada vez mais capital.

Embora os valores dos arrendamentos não tenham avançado no mesmo ritmo do preço de aquisição das terras, a presença de investidores com enorme capacidade financeira pode elevar a barreira de entrada para quem pretende ser proprietário da área onde produz.

Uma discussão que também interessa ao agronegócio brasileiro

Embora o fenômeno retratado ocorra nos Estados Unidos, a transformação da terra em ativo financeiro e reserva patrimonial merece atenção de qualquer grande potência agrícola — inclusive o Brasil.

O valor de uma propriedade rural deixou há muito tempo de depender exclusivamente do que ela produz em uma safra. Localização, disponibilidade hídrica, infraestrutura, logística, aptidão agrícola, segurança jurídica e potencial de valorização passaram a fazer parte de uma equação cada vez mais sofisticada.

Existe, porém, uma diferença fundamental entre enxergar terra como investimento e enxergá-la como instrumento de produção.

Para o agricultor ou pecuarista, o preço da terra precisa guardar relação com a capacidade econômica da atividade desenvolvida sobre ela. Quando a valorização patrimonial avança muito acima da renda potencial da produção, comprar novas áreas pode se tornar inviável mesmo para operações tecnicamente eficientes.

É justamente aí que o caso americano se torna especialmente interessante.

Um império construído também sobre terra

Stan Kroenke pode ser mais conhecido pelas arquibancadas do Arsenal ou pelas grandes franquias esportivas americanas, mas uma parcela extraordinária de seu patrimônio está literalmente sobre o chão.

Seus aproximadamente 1,09 milhão de hectares mostram até onde chegou a transformação das terras agrícolas em uma classe de investimento disputada pelos maiores patrimônios privados do mundo.

E talvez o dado mais importante não seja quem ocupa o primeiro lugar do ranking.

É o que existe por trás dele: fazendas e ranchos estão deixando de interessar apenas a quem produz para também ocupar posição estratégica nas carteiras dos ultra-ricos. Ao mesmo tempo em que essa entrada de capital reforça o valor econômico da terra, ela cria uma questão cada vez mais importante para o setor rural: até onde o produtor conseguirá competir pelo ativo fundamental de sua própria atividade?

Com informações da Fortune

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