Dono de haras é preso em operação que investiga R$ 144 milhões e uso de cavalos para lavar dinheiro

Apontado pela polícia como o “número dois” de organização criminosa, Francisco Yago foi capturado nesta quinta-feira (17); investigação afirma que grupo utilizava cavalos de raça, vaquejadas, leilões e criptomoedas em esquema de lavagem de recursos provenientes do tráfico de drogas

O mercado de cavalos de raça e o circuito de vaquejadas aparecem no centro de uma investigação milionária conduzida pela Polícia Civil da Paraíba. Francisco Yago, de 33 anos, apontado pelos investigadores como o segundo nome de uma organização criminosa que teria movimentado aproximadamente R$ 144 milhões, foi preso nesta quinta-feira (17), em Itapororoca (PB).

Segundo a Polícia Civil, o investigado era proprietário de um haras e de cavalos de raça e teria participação direta na estrutura financeira atribuída ao grupo. A investigação sustenta que negócios envolvendo animais, participação em leilões, vaquejadas e operações com criptomoedas teriam sido utilizados para movimentar e dar aparência regular a recursos supostamente provenientes de atividades criminosas.

A prisão representa um novo desdobramento da Operação Bon Vivant, deflagrada na terça-feira (15) após mais de um ano de investigação. O grupo é investigado por suspeitas de tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro, com atuação identificada na Paraíba e no Rio Grande do Norte.

Dono de haras era apontado como braço direito

Francisco Yago havia deixado a Paraíba e seguido para Fortaleza, no Ceará, segundo as investigações. A polícia conseguiu chegar até ele após identificar e acompanhar o veículo utilizado para buscá-lo.

O suspeito teria trocado de automóvel durante o deslocamento antes de retornar à Paraíba. Ele acabou localizado em Itapororoca, no Litoral Norte paraibano.

Na ação, os policiais encontraram cerca de 20 aparelhos celulares — aproximadamente 15 na residência e outros cinco no veículo. Segundo o delegado Lucas Rothardan, a troca frequente de aparelhos e chips estaria entre as estratégias empregadas para dificultar o rastreamento.

A Polícia Civil afirma ainda que Francisco Yago era proprietário do haras e dos cavalos de raça associados à investigação e atuava como intermediador junto a empresas de criptomoedas que, segundo a apuração, teriam sido utilizadas no esquema de lavagem de dinheiro.

Cavalos, vaquejadas e leilões entram na investigação

É justamente a utilização do mercado equestre que chama atenção no caso.

Segundo a investigação, integrantes da organização compravam animais, participavam de leilões e mantinham negócios ligados às vaquejadas. A suspeita policial é de que parte dessas operações tenha sido utilizada para inserir recursos de origem criminosa na economia formal.

Isso não significa, evidentemente, que os eventos, criadores, compradores ou vendedores que eventualmente negociaram com os investigados tenham participado de qualquer irregularidade. A apuração é direcionada às pessoas e operações financeiras específicas investigadas pela polícia.

As autoridades também identificaram um haras relacionado aos investigados no Rio Grande do Norte. No imóvel foram apreendidos veículos, caminhões e um quadriciclo.

R$ 144 milhões no radar da polícia

A dimensão financeira é um dos principais pontos da Operação Bon Vivant. Segundo a Polícia Civil, a organização investigada teria movimentado aproximadamente R$ 144 milhões em dois anos.

Na primeira grande ofensiva da operação, foram expedidos 28 mandados de prisão. A ação resultou ainda em bloqueio de aproximadamente R$ 144 milhões em bens e ativos financeiros, além da apreensão de veículos de luxo e outros patrimônios ligados aos investigados.

As investigações começaram a avançar após a análise do telefone celular de um dos envolvidos. De acordo com a apuração policial, as informações encontradas no aparelho permitiram identificar uma estrutura dividida entre pessoas responsáveis pelos crimes investigados e outras encarregadas da movimentação financeira.

Criptomoedas também aparecem no caminho do dinheiro

Os cavalos não seriam a única ferramenta financeira utilizada.

A Polícia Civil afirma ter identificado operações envolvendo criptomoedas, além de empresas e pessoas que supostamente atuavam como intermediárias ou “laranjas”. Valores mantidos em plataformas de criptoativos também foram alcançados pelas medidas judiciais.

Francisco Yago teria papel particularmente importante nesse braço da estrutura: além de manter o haras e os animais, a polícia afirma que ele atuava como intermediador junto às empresas de criptomoedas utilizadas pelo grupo.

A investigação identificou ainda três academias ligadas aos investigados e apura o uso de terceiros para movimentar dinheiro e registrar patrimônio.

Até carreira de cantor entrou no radar

Outro braço incomum da investigação envolve o mercado artístico.

Segundo a Polícia Civil, integrantes do grupo planejavam financiar a carreira de um cantor e, posteriormente, utilizar a expansão dos contratos e apresentações para ampliar a movimentação financeira.

A investigação também identificou uma tentativa de aproximação com o cantor Wesley Safadão por meio do universo equestre. Reportagens sobre a operação informam que integrantes do grupo teriam arrematado um cavalo em um leilão promovido pelo artista como parte dessa aproximação.

Wesley Safadão não é investigado e não é apontado pela polícia como participante do esquema.

Da mesma forma, a polícia informou que o cantor cuja carreira teria recebido investimentos do grupo não é apontado como integrante da organização e provavelmente desconhecia a estratégia atribuída aos investigados.

Operação segue em andamento

A prisão desta quinta-feira amplia o alcance da Operação Bon Vivant. Francisco Yago foi conduzido à unidade policial e permanece à disposição da Justiça.

Agora, parte importante da investigação deverá avançar sobre o material apreendido, principalmente os cerca de 20 celulares encontrados com o investigado, além das movimentações financeiras, operações com criptomoedas e negócios relacionados aos animais.

O caso também coloca sob investigação uma estratégia de lavagem que vai além de empresas convencionais: a polícia apura se cavalos de raça, leilões, vaquejadas, criptomoedas e outros negócios foram utilizados conjuntamente para movimentar e ocultar recursos atribuídos ao crime organizado.

As acusações permanecem sob investigação, e a eventual responsabilidade criminal de cada envolvido dependerá da apuração e das decisões da Justiça.

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