Doença silenciosa no confinamento pode derrubar o ganho de peso dos bovinos; veja como prevenir

Infecções respiratórias podem comprometer o desempenho do gado confinado antes mesmo de os sinais mais graves aparecerem; manejo preventivo ajuda a reduzir o risco

A pneumonia bovina pode avançar dentro do confinamento enquanto o prejuízo começa a aparecer primeiro na balança. Além de comprometer a saúde pulmonar, os quadros respiratórios estão associados à queda de desempenho, aumento dos tratamentos e maior risco de perdas durante a fase de terminação. No Brasil, pesquisas com bovinos confinados mostram que o impacto pode representar vários quilos a menos por animal.

Um estudo publicado em 2025 analisou 699.526 bovinos distribuídos em dez confinamentos brasileiros, entre 2019 e 2020. Os pesquisadores verificaram que os animais sem Doença Respiratória Bovina (DRB) terminaram o período com 14,9 quilos a mais de peso corporal, em média, quando comparados aos bovinos acometidos. A DRB respondeu ainda por 57,9% dos registros de animais doentes encontrados no levantamento.

A DRB reúne diferentes enfermidades e agentes que atingem o sistema respiratório, incluindo quadros de broncopneumonia. Por isso, seus números ajudam a dimensionar o tamanho do risco respiratório dentro dos sistemas intensivos, embora não devam ser interpretados como estatísticas exclusivas de pneumonia bovina.

Pneumonia bovina pode avançar antes de chamar atenção

Um dos desafios está em reconhecer rapidamente os animais afetados. Alterações pulmonares nem sempre são acompanhadas, no início, por sinais suficientemente evidentes para facilitar a identificação apenas pela observação do lote.

Em uma pesquisa com bovinos jovens após a chegada, 34% desenvolveram consolidação pulmonar durante os primeiros 28 dias. Os animais com essas alterações apresentaram ganho médio diário aproximadamente 90 gramas menor ao longo do período avaliado do que aqueles sem consolidação. O estudo também mostrou limitações dos métodos clínicos convencionais para identificar todos os bovinos com lesões pulmonares.

Na prática, isso reforça a importância de observar mudanças como apatia, redução do interesse pelo alimento, secreção nasal, tosse, febre e dificuldade respiratória, principalmente durante as primeiras semanas após a entrada no confinamento.

Estresse abre caminho para problemas respiratórios

A ocorrência da doença depende da interação entre o animal, o ambiente e diferentes agentes infecciosos. Vírus podem comprometer os mecanismos de defesa das vias respiratórias e favorecer infecções bacterianas secundárias, criando condições para o desenvolvimento da pneumonia.

Entre os agentes encontrados em bovinos com doença respiratória estão bactérias como Mannheimia haemolytica e Histophilus somni, além de vírus respiratórios.

No Brasil, pesquisadores investigaram um surto em um confinamento no Paraná e encontraram H. somni, vírus sincicial respiratório bovino, coronavírus bovino e M. haemolytica entre os animais analisados. Houve também casos com mais de um agente presente simultaneamente.

O manejo pode aumentar ou diminuir essa vulnerabilidade. Estudos relacionam transporte prolongado, mistura de bovinos de diferentes origens e concentração de fatores estressantes a maior risco de problemas respiratórios depois da chegada ao confinamento.

O prejuízo aparece no desempenho

Para o pecuarista, o impacto vai além do custo do medicamento. Um bovino com comprometimento respiratório pode consumir menos, utilizar nutrientes para sustentar a resposta inflamatória e deixar de expressar o ganho de peso esperado para aquele período.

No estudo realizado nos confinamentos brasileiros, a incidência de DRB foi de 2,1%, mas o efeito econômico foi relevante justamente pela combinação entre morbidade, mortalidade e redução do peso dos animais afetados. Os autores estimaram custos médios de US$ 51,40 por animal doente e US$ 777,98 por morte relacionada à DRB, dentro das condições econômicas consideradas na pesquisa.

Em operações com grande número de cabeças, portanto, uma diferença individual aparentemente pequena pode ganhar escala rapidamente.

Como prevenir a pneumonia bovina no confinamento

A prevenção não depende de uma única medida. O caminho mais consistente é reduzir os fatores que favorecem a infecção antes e depois da entrada dos animais.

Um dos pontos é evitar que desmama, transporte, mudança de ambiente, mistura de lotes e procedimentos sanitários sejam concentrados de maneira desnecessária em um curto intervalo. A origem dos bovinos e o histórico de manejo também ajudam a identificar lotes que chegam com maior risco.

A vacinação deve integrar um protocolo sanitário planejado com o médico-veterinário, considerando os agentes de interesse, procedência dos animais e momento adequado para imunização. Em experimento com bovinos de corte, animais que receberam as duas doses do protocolo respiratório antes da entrada no confinamento apresentaram menor incidência de DRB do que grupos submetidos a outros momentos de vacinação.

Também são importantes água disponível, adaptação alimentar, redução da poeira, condições adequadas dos currais e acompanhamento frequente dos lotes. Quanto mais cedo um comportamento anormal é percebido, maior a possibilidade de avaliar o animal antes que o comprometimento pulmonar avance.

Prevenção começa antes da chegada ao cocho

Controlar a pneumonia bovina exige olhar para toda a trajetória do animal, e não apenas para o momento em que ele apresenta tosse ou dificuldade para respirar.

Conhecer a origem do lote, reduzir estressores, estabelecer protocolos sanitários e acompanhar de perto os primeiros dias de confinamento permite agir sobre os principais pontos de risco.

Com margens cada vez mais dependentes de eficiência, proteger a saúde respiratória também significa proteger os quilos produzidos ao final da terminação.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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