Pesquisa publicada em outubro de 2026 investigou mortes registradas entre 2021 e 2022 em 11 fazendas catarinenses; animais apresentaram febre, perda de pelos e queda de até 90% na produção de leite.
Uma enfermidade pouco conhecida, capaz de provocar febre, perda acentuada de pelos, lesões em órgãos vitais e redução de até 90% na produção de leite, colocou pesquisadores brasileiros diante de um desafio sanitário ainda sem resposta definitiva. Um estudo científico publicado em 29 de outubro de 2026 investigou 19 casos fatais de doença granulomatosa sistêmica em bovinos, registrados em diferentes propriedades rurais do oeste de Santa Catarina.
A investigação revelou que os animais apresentavam inflamações graves em diversos tecidos, incluindo rins, coração, fígado e linfonodos. Apesar das análises laboratoriais e das avaliações epidemiológicas, os especialistas não conseguiram identificar o agente responsável pela enfermidade.
O trabalho, desenvolvido com participação do Instituto Federal Catarinense (IFC), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, trouxe uma descoberta importante: a utilização de suplementos nutricionais comerciais foi a única exposição comum identificada entre os rebanhos afetados.
A associação, entretanto, permanece como hipótese. Os pesquisadores ressaltam que não existem evidências suficientes para atribuir a doença aos produtos ou aos fabricantes.
Os casos analisados ocorreram entre novembro de 2021 e junho de 2022. Portanto, a publicação científica é recente, mas não representa a confirmação de um novo surto em 2026.
Doença atingiu 11 fazendas e provocou mortes em poucos dias
A investigação reuniu informações de 11 propriedades rurais distribuídas por seis municípios catarinenses, envolvendo sistemas de produção de leite e carne.
Dos 19 animais diagnosticados, 17 eram vacas leiteiras, sendo 16 da raça Holandesa e uma Jersey. Os outros dois eram bovinos Braford, criados exclusivamente para produção de carne.
Todas eram fêmeas adultas, com idades entre dois e seis anos.
O primeiro agrupamento de casos ocorreu entre novembro de 2021 e janeiro de 2022, quando foram diagnosticados 14 animais. Entre abril e junho de 2022, outros cinco casos foram identificados.
A concentração temporal chamou a atenção dos especialistas. Entre 1.769 necropsias bovinas realizadas pelo laboratório de 2013 a 2022, os pesquisadores não identificaram casos que atendessem à definição da doença fora dos períodos investigados.
Durante os primeiros 55 dias do surto, a enfermidade respondeu por 36,8% das 38 necropsias bovinas realizadas pelo laboratório naquele intervalo.
Esse percentual não significa que mais de um terço do rebanho regional tenha adoecido. Trata-se da proporção entre os animais submetidos à necropsia naquele serviço, uma distinção fundamental para interpretar corretamente a gravidade epidemiológica do episódio.
Nas propriedades, a ocorrência clínica foi relativamente baixa, geralmente envolvendo menos de 1% a 3% dos animais. Ainda assim, a evolução dos casos diagnosticados foi grave, com mortes após poucos dias ou semanas.
Queda de 90% no leite e lesões graves: quais foram os sintomas?
Um dos aspectos mais preocupantes foi a combinação de sinais clínicos relativamente comuns na pecuária com alterações internas de grande intensidade.
Entre os principais sintomas registrados estavam:
- Queda de até 90% na produção de leite em alguns animais;
- Febre, com temperaturas chegando a 40,5 °C;
- Perda de pelos, principalmente na cabeça, no pescoço, no tórax e nos membros;
- Coceira intensa, acompanhada de lesões cutâneas;
- Emagrecimento, apatia e redução do consumo alimentar;
- Aumento dos linfonodos e, em determinados casos, manifestações hemorrágicas.
A febre foi identificada em 15 dos 19 animais, aproximadamente 79% dos casos.
O quadro clínico teve duração entre três e 30 dias. Em uma das vacas, o prurido facial foi tão intenso que provocou comportamento de automutilação.
Os exames realizados após a morte demonstraram que a enfermidade não se limitava à pele. Os rins apresentavam inflamações granulomatosas em 84% dos casos, enquanto o coração estava comprometido em aproximadamente 79%.
Também foram identificadas alterações no fígado, no baço, nas glândulas adrenais e na medula óssea.
Essa distribuição ajuda a explicar a gravidade da doença: o processo inflamatório comprometia simultaneamente diferentes sistemas orgânicos, dificultando a recuperação.
Os tratamentos de suporte empregados pelos veterinários, incluindo antimicrobianos, medicamentos anti-inflamatórios e outras medidas clínicas, não impediram a evolução fatal dos casos estudados.
O que é a doença granulomatosa sistêmica em bovinos?
A doença granulomatosa sistêmica é caracterizada por uma reação inflamatória que atinge diferentes tecidos e órgãos. Nessa condição, células do sistema imunológico se acumulam e formam estruturas inflamatórias conhecidas como granulomas.
Na medicina veterinária, quadros semelhantes já foram relacionados ao consumo de determinadas plantas e substâncias presentes na alimentação.
Uma das associações mais conhecidas envolve a ervilhaca (Vicia villosa), planta utilizada como forrageira e cobertura vegetal em regiões de clima temperado.
Em determinadas circunstâncias, seu consumo pode desencadear uma reação de hipersensibilidade, com manifestações cutâneas e comprometimento de órgãos internos.
Também existem registros científicos de quadros semelhantes associados à polpa cítrica e a determinados compostos utilizados na alimentação animal.
Entretanto, nenhuma dessas causas tradicionais foi identificada como responsável pelos casos investigados em Santa Catarina.
As equipes avaliaram pastagens, alimentos armazenados e históricos de alimentação. A presença de ervilhaca e o fornecimento de polpa cítrica foram descartados com base nas informações e evidências disponíveis.
Exames complementares também não demonstraram os agentes bacterianos e fúngicos pesquisados. Os resultados virológicos e o padrão das lesões tornaram improvável uma origem viral, embora os autores reconheçam limitações nos testes realizados.
Suplementos nutricionais surgiram como possível ligação entre os casos
O principal avanço da investigação ocorreu quando os pesquisadores compararam os sistemas de alimentação das propriedades atingidas.
As fazendas apresentavam características distintas.
Parte das vacas leiteiras era mantida em confinamento, recebendo dietas formuladas com silagem, grãos e suplementos. Outros rebanhos utilizavam sistemas semi-intensivos, combinando pastejo e alimentação suplementar.
Já os dois bovinos Braford eram criados exclusivamente em pastagens, recebendo um suplemento proteico-mineral comercial.
Apesar dessas diferenças, havia um elemento compartilhado: todos os animais afetados consumiam produtos nutricionais industrializados destinados a bovinos, fornecidos por duas empresas.
A possibilidade de uma ligação com esses produtos ganhou força diante de outro detalhe epidemiológico.
Os primeiros casos desapareceram gradualmente enquanto os estoques de determinados lotes eram consumidos. Meses depois, novos diagnósticos ocorreram em propriedades que ainda utilizavam suplementos produzidos em novembro de 2021.
Os cinco casos registrados entre abril e junho de 2022 estavam associados à utilização de um lote dessa época, adquirido por meio de um mesmo estabelecimento comercial.
Posteriormente, não foram observados novos casos associados aos lotes de 2022 acompanhados pelos pesquisadores.
Essa sequência temporal é compatível com a possibilidade de exposição a algum fator transitório presente na alimentação. Mas não constitui prova de que o suplemento tenha causado a enfermidade.
O estudo não conseguiu identificar uma substância específica responsável pelo quadro. Também não foi possível determinar se os produtos de diferentes fabricantes compartilhavam matérias-primas ou processos industriais capazes de explicar a ocorrência da doença.
Por que a causa permanece desconhecida?
A principal dificuldade foi a impossibilidade de realizar uma investigação analítica completa dos suplementos e de seus componentes.
Segundo os autores, não foram disponibilizados elementos suficientes sobre a composição detalhada das formulações, a origem das matérias-primas e eventuais modificações realizadas nos processos produtivos.
Sem essas informações, os pesquisadores não puderam estabelecer uma relação direta entre determinado ingrediente e as lesões observadas nos animais.
Outra limitação foi a ausência de reprodução experimental da enfermidade, procedimento que poderia fornecer evidências adicionais sobre sua origem, mas que apresenta dificuldades técnicas, financeiras e éticas.
Os especialistas também consideram que a manifestação clínica em uma pequena proporção dos animais expostos pode estar relacionada a mecanismos individuais de resposta imunológica.
Isso ajuda a compreender por que bovinos submetidos a condições aparentemente semelhantes podem apresentar resultados diferentes.
O estudo, portanto, identifica uma possível via de investigação, mas não determina responsabilidade de fabricantes nem demonstra que a suplementação mineral convencional represente risco generalizado.
É uma diferença importante, especialmente em um país onde a suplementação nutricional é fundamental para corrigir deficiências das pastagens e melhorar o desempenho dos rebanhos.
Como já abordado pelo Compre Rural em reportagem sobre a importância da suplementação mineral correta e da dieta balanceada, o fornecimento adequado de minerais faz parte das estratégias essenciais para manter a produtividade e a saúde dos bovinos.
Casos semelhantes também foram investigados no Rio Grande do Sul
O episódio catarinense não foi o único a despertar a atenção de patologistas veterinários.
Em um trabalho apresentado em 2024, pesquisadores vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul descreveram outros sete bovinos com manifestações compatíveis com doença granulomatosa sistêmica, provenientes de propriedades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Os animais apresentavam alterações semelhantes, incluindo perda de pelos, coceira intensa, emagrecimento e inflamações em diferentes órgãos.
Assim como na investigação mais recente, as causas tradicionais da enfermidade não foram identificadas.
A existência de relatos em propriedades geograficamente separadas reforça a necessidade de compreender possíveis fatores compartilhados entre os sistemas produtivos.
Entretanto, os dois levantamentos não devem ser simplesmente somados para estabelecer um número total de animais afetados, pois não há confirmação suficiente de que todos os registros correspondam a indivíduos distintos.
Há ainda antecedentes internacionais. Enfermidades granulomatosas sem causa estabelecida já foram descritas em bovinos leiteiros na Nova Zelândia e na Argentina.
Esses registros demonstram que o desafio não é exclusivo da pecuária brasileira.
O que o episódio revela sobre a segurança da alimentação animal?
Para a pecuária nacional, a principal contribuição da pesquisa está na importância da rastreabilidade dos insumos utilizados na alimentação dos rebanhos.
Quando uma enfermidade aparece em diferentes propriedades e não possui uma causa imediatamente reconhecível, identificar todos os produtos consumidos pelos animais pode ser tão importante quanto investigar agentes infecciosos.
No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) é responsável pela regulamentação e fiscalização dos estabelecimentos que atuam na fabricação e comercialização de produtos destinados à alimentação animal.
O setor está submetido a exigências relacionadas à qualidade, à segurança dos produtos e à rastreabilidade das operações.
No cotidiano das fazendas, entretanto, existe uma dimensão adicional: a capacidade de relacionar mudanças sanitárias a informações precisas sobre a alimentação fornecida.
Registros de compra, identificação de lotes, datas de abertura das embalagens, fornecedores e alterações de formulação podem auxiliar uma investigação veterinária.
A pesquisa catarinense demonstra justamente como a ausência de determinadas informações pode limitar a identificação de uma possível causa.
Em um sistema produtivo que depende cada vez mais de dietas formuladas, aditivos e suplementos de maior complexidade, a rastreabilidade alimentar também precisa ser compreendida como instrumento de gestão sanitária.
Quais cuidados o produtor deve adotar?
Os sinais clínicos descritos no estudo não são exclusivos dessa enfermidade. Febre, queda na produção de leite e lesões cutâneas podem ocorrer em diversas doenças bovinas, incluindo condições infecciosas, parasitárias, alérgicas e tóxicas.
Por isso, o aparecimento de sintomas semelhantes não permite concluir que um rebanho esteja enfrentando a mesma síndrome.
A orientação mais adequada é buscar avaliação médico-veterinária e, diante de casos graves ou mortes sem explicação, considerar exames laboratoriais e necropsias.
Também é importante preservar informações sobre a dieta, identificar os lotes de alimentos utilizados e evitar alterações improvisadas no manejo sem avaliação técnica.
Em situações nas quais haja suspeita fundamentada de envolvimento de algum insumo, a investigação deve seguir procedimentos veterinários e sanitários apropriados, com comunicação aos órgãos competentes quando indicada.
O tema reforça a importância do diagnóstico precoce, aspecto também abordado pelo Compre Rural em conteúdos sobre as principais doenças que ameaçam os rebanhos leiteiros.
Uma investigação encerrada, mas uma pergunta ainda aberta
A publicação de 2026 contribui para compreender um episódio sanitário incomum, documentando suas características clínicas, sua distribuição geográfica e os possíveis fatores associados.
O trabalho confirma que 19 bovinos de diferentes sistemas produtivos apresentaram uma doença granulomatosa sistêmica grave, mas não identifica definitivamente o que desencadeou o processo inflamatório.
A hipótese de exposição alimentar continua relevante, sobretudo pela concentração temporal dos casos e pela associação observada com determinados lotes de suplementos. Sua confirmação, porém, dependeria de evidências que não estavam disponíveis aos pesquisadores.
Para a pecuária brasileira, a principal lição vai além da identificação de uma doença rara: mesmo em sistemas de produção tecnificados, a compreensão de problemas sanitários depende da integração entre diagnóstico veterinário, controle de qualidade, registros de alimentação e rastreabilidade.
É essa combinação que permite transformar episódios difíceis de explicar em conhecimento capaz de melhorar a segurança dos rebanhos.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.