Enfezamento do milho, transmitido pela cigarrinha, provoca perdas em estados americanos e mobiliza pesquisas sobre uma das doenças mais prejudiciais à produção brasileira.
Uma das doenças mais preocupantes da produção brasileira de milho passou a receber atenção crescente dos pesquisadores nos Estados Unidos. O complexo de enfezamentos do milho, responsável por prejuízos bilionários nas lavouras nacionais, voltou a ser identificado em importantes regiões agrícolas americanas, levando universidades, órgãos de pesquisa e especialistas em fitossanidade a intensificarem o monitoramento da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), principal inseto transmissor dos agentes causadores da doença.
O problema ganhou relevância após surtos registrados a partir de 2024, especialmente no Texas, em Oklahoma e no Kansas, e continuou sendo acompanhado nas safras seguintes. Em agosto de 2026, a Universidade Estadual de Oklahoma confirmou novamente a ocorrência da doença em lavouras do estado. Embora o enfezamento já fosse conhecido nos Estados Unidos havia décadas, a ampliação de sua distribuição geográfica e os prejuízos recentes estão mudando a percepção sobre o risco fitossanitário para o milho americano.
Para o Brasil, a movimentação merece atenção por uma razão particular: o país já conhece os efeitos econômicos de uma doença que compromete a formação das espigas, reduz o peso dos grãos e pode inviabilizar lavouras em situações severas. Agora, com o interesse crescente da pesquisa americana, abre-se espaço para avanços no entendimento da movimentação da cigarrinha, na resistência genética dos híbridos e no desenvolvimento de estratégias mais eficientes de prevenção.
Doença já provocou perdas expressivas nos Estados Unidos
Um levantamento divulgado em agosto de 2026 pela Crop Protection Network, rede de especialistas de universidades americanas, dimensionou os efeitos recentes da doença sobre a produção de milho.
Somente em 2024, as perdas atribuídas ao enfezamento foram estimadas em 18,8 milhões de bushels no Texas, 4,5 milhões em Oklahoma e 800 mil no Kansas. Somados, esses volumes representam aproximadamente 612 mil toneladas de milho.
Em 2025, o problema persistiu. As estimativas apontaram perdas de 14,1 milhões de bushels no Texas e 6,9 milhões em Oklahoma, demonstrando que a ocorrência não ficou restrita a uma única safra.
Há, entretanto, uma distinção importante: o enfezamento não é uma doença nova nos Estados Unidos, nem existem evidências de que tenha sido levado diretamente do Brasil para aquele país. Seu primeiro registro americano remonta a 1945, no Vale do Rio Grande, no Texas. O que mudou foi sua maior presença em regiões onde anteriormente representava uma ameaça limitada.
Pesquisadores investigam o papel das condições climáticas, dos ventos que favorecem a migração das cigarrinhas e da sucessão de cultivos na disseminação dos insetos.
Como o enfezamento compromete a produtividade do milho
O complexo de enfezamentos envolve principalmente dois agentes bacterianos: o Spiroplasma kunkelii, associado ao enfezamento pálido, e um fitoplasma relacionado ao enfezamento vermelho. A cigarrinha-do-milho também transmite vírus que podem ocorrer simultaneamente nas plantas.
O inseto adquire os agentes ao se alimentar de plantas infectadas e, posteriormente, pode transmiti-los para plantas sadias.
O maior problema está na fase em que ocorre a infecção. Quando a transmissão acontece nos estádios iniciais de desenvolvimento, o potencial de prejuízo à produtividade é significativamente maior.
Entre os sintomas mais característicos estão o avermelhamento ou amarelecimento das folhas, a redução do crescimento, o encurtamento dos entrenós e a formação de espigas pequenas, com falhas na granação.
A manifestação dos sintomas pode demorar aproximadamente três a quatro semanas após a transmissão. Por isso, a lavoura pode apresentar infecções antes de revelar sinais evidentes do problema.
Outro ponto crítico é que não existe tratamento capaz de curar uma planta infectada pelos agentes causadores dos enfezamentos. Uma vez instalada a doença, as estratégias disponíveis concentram-se em reduzir novas transmissões e proteger as plantas ainda sadias.
Brasil acumula prejuízos bilionários com a doença
A experiência brasileira ajuda a compreender por que os pesquisadores americanos estão ampliando seus estudos.
Uma pesquisa publicada em abril de 2026 na revista científica Crop Protection, conduzida por Charles Martins Oliveira, Tiago dos Santos Pereira, Larissa Pereira Mouro e Maria Cristina Canale, avaliou as perdas associadas ao complexo de enfezamentos na produção nacional.
O trabalho estimou que, entre 2020 e 2024, a doença esteve associada a uma perda média de produção de 22,7%, equivalente a aproximadamente 31,8 milhões de toneladas por ano, considerando os critérios e a metodologia utilizados pelos pesquisadores.
Em valores econômicos, os prejuízos médios anuais foram estimados em aproximadamente US$ 6,5 bilhões. Trata-se de uma estimativa científica dos impactos da doença, e não de um balanço contábil oficial de perdas efetivamente registradas.
O levantamento também identificou crescimento de 19% nos custos de aplicação de inseticidas destinados ao controle da cigarrinha no período analisado.
Na prática, o impacto econômico vai além da quantidade de milho perdida. O produtor enfrenta maiores despesas com proteção fitossanitária e pode registrar menor eficiência dos investimentos em sementes, fertilizantes, operações mecanizadas e arrendamento.
Em regiões de segunda safra, o problema adquire uma dimensão adicional. A presença de lavouras em diferentes estádios, associada à manutenção de milho voluntário, pode permitir que a cigarrinha encontre alimento e plantas hospedeiras durante grande parte do ano.
Pesquisadores americanos intensificam estudos e buscam resistência genética
A mobilização científica nos Estados Unidos envolve desde o monitoramento do inseto até pesquisas de melhoramento genético.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mantém um projeto iniciado em agosto de 2026, com duração prevista até agosto de 2027, para estudar a epidemiologia do enfezamento no Texas.
A iniciativa prevê capturas de cigarrinhas, análises moleculares e identificação de plantas utilizadas pelos insetos para alimentação. O objetivo é compreender melhor sua movimentação e os fatores que favorecem a circulação dos patógenos.
Outro levantamento, conduzido pela Pioneer em parceria com instituições americanas, identificou a cigarrinha em 185 condados de 16 estados durante 2025. Entretanto, apenas 3,8% dos insetos analisados apresentaram resultado positivo para pelo menos um dos patógenos investigados.
Esse dado mostra por que a presença da cigarrinha não deve ser confundida automaticamente com a ocorrência de uma epidemia.
Há também avanços envolvendo pesquisadores brasileiros. Um estudo publicado em 13 de outubro de 2026 no International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, com participação da Epagri e da Universidade Estadual de Oklahoma, propôs reconhecer o fitoplasma associado ao enfezamento vermelho como uma espécie denominada Candidatus Phytoplasma zeae.
A proposta surgiu da análise comparativa de genomas de linhagens encontradas no Brasil e nos Estados Unidos.
Embora essa classificação não represente uma nova solução de controle, o conhecimento genético dos agentes infecciosos pode contribuir para aperfeiçoar diagnósticos, compreender sua evolução e orientar pesquisas de resistência.
O que o avanço da doença nos EUA significa para o produtor brasileiro
Do ponto de vista do mercado internacional, o enfezamento merece acompanhamento porque Brasil e Estados Unidos ocupam posições estratégicas no abastecimento mundial de milho.
Problemas fitossanitários capazes de reduzir a produtividade americana podem influenciar as expectativas sobre disponibilidade do cereal, estoques, exportações e preços internacionais.
Isso, entretanto, depende da escala efetiva das perdas. Os registros identificados até agora não permitem afirmar que o enfezamento comprometerá a produção nacional americana em 2026 ou provocará uma valorização automática do milho.
Para o produtor brasileiro, a consequência mais imediata é técnica.
A experiência americana reforça a necessidade de acompanhar a migração da cigarrinha, identificar corretamente os agentes causadores das doenças e selecionar híbridos que apresentem melhor comportamento sob pressão do complexo de enfezamentos.
Também evidencia a importância da pesquisa colaborativa. Como o inseto pode percorrer grandes distâncias e utilizar diferentes áreas de cultivo ao longo do ano, estratégias restritas a propriedades isoladas apresentam limitações.
Prevenção continua sendo a principal ferramenta no campo
No Brasil, a Embrapa e o Ministério da Agricultura recomendam o manejo integrado, com medidas que começam antes mesmo da semeadura.
Entre as práticas fundamentais estão a eliminação do milho tiguera, a escolha de híbridos com maior tolerância, a sincronização regional do plantio e o monitoramento da cigarrinha desde a emergência da cultura.
O tratamento de sementes e a utilização criteriosa de inseticidas registrados podem ajudar a reduzir as populações do vetor, especialmente nas fases iniciais de desenvolvimento. Nenhuma dessas medidas, porém, oferece proteção completa quando utilizada isoladamente.
A escolha do híbrido também precisa considerar resultados regionais de desempenho, uma vez que a tolerância aos enfezamentos pode variar conforme o material genético, a pressão da doença e as condições ambientais.
A principal lição é que controlar a cigarrinha não significa apenas combater um inseto presente na lavoura, mas reduzir a possibilidade de transmissão de agentes capazes de comprometer toda a formação produtiva do milho.
O interesse crescente das universidades americanas demonstra que o enfezamento passou a preocupar produtores também fora de suas áreas tradicionais de maior ocorrência.
Para o Brasil, onde os prejuízos já são conhecidos, a expansão das pesquisas internacionais representa tanto um alerta quanto uma oportunidade. O desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico, o avanço no melhoramento genético e a ampliação das informações sobre o comportamento da cigarrinha podem contribuir para sistemas de produção mais protegidos.
O desafio, nos dois países, permanece o mesmo: impedir que a presença do vetor se transforme em perdas econômicas antes que o produtor tenha condições de reagir.
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