Endividamento agrícola atinge recorde nos Estados Unidos, enquanto avanço de crédito concedido por fornecedores, cooperativas e fabricantes levanta dúvidas sobre o tamanho real das obrigações financeiras no campo.
A agricultura dos Estados Unidos entrou em 2026 carregando uma conta sem precedentes. A dívida total do setor agrícola americano deve alcançar US$ 605,1 bilhões neste ano, o maior valor nominal já registrado, segundo a atualização de setembro do Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA. O montante representa avanço de 4,6% em apenas um ano, equivalente a aproximadamente US$ 26,4 bilhões adicionais em obrigações financeiras.
Mas o tamanho do problema pode não estar completamente refletido nessa cifra. Uma investigação publicada nesta quinta-feira, 8 de outubro, mostrou que autoridades e pesquisadores americanos estão tentando entender quanto dinheiro efetivamente está sendo emprestado aos produtores por fornecedores de insumos, cooperativas, fabricantes de máquinas, fintechs e outras instituições que não fazem parte do circuito tradicional de crédito rural. Parte dessas operações é difícil de rastrear e pode escapar das estatísticas utilizadas atualmente pelo governo.
A discussão acrescenta uma nova camada à deterioração financeira observada principalmente entre produtores de grãos. Não significa, ao menos até agora, que o campo americano esteja diante de uma repetição da grande crise agrícola dos anos 1980. Os indicadores agregados continuam mostrando patrimônio elevado, terras valorizadas e inadimplência relativamente controlada. O sinal amarelo vem de outro lugar: os produtores estão tomando mais crédito para manter a operação funcionando justamente em um período de margens apertadas e despesas elevadas.
US$ 605 bilhões podem contar apenas parte da história
Dentro da projeção oficial para 2026, aproximadamente US$ 399 bilhões correspondem a dívidas relacionadas a imóveis rurais, enquanto outros US$ 206,1 bilhões são obrigações não imobiliárias, categoria que inclui parte importante dos financiamentos necessários à atividade produtiva.
O crescimento ocorre mais rapidamente que o patrimônio do setor. Enquanto a dívida deve aumentar 4,6%, os ativos agrícolas são projetados pelo USDA em US$ 4,47 trilhões, avanço de 3%. Com isso, a relação entre dívida e ativos deve passar de 13,34% em 2025 para 13,54% em 2026.
Isoladamente, o percentual está distante de indicar insolvência generalizada. O problema é que números nacionais escondem diferenças profundas entre propriedades, atividades e regiões.
Produtores com terra própria valorizada apresentam uma estrutura patrimonial completamente diferente daquela enfrentada por agricultores que arrendam grande parte da área e precisam financiar sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, máquinas e outros custos antes de colher um único hectare.
É justamente nesse segundo grupo que a pressão financeira tende a aparecer primeiro.
O crescimento do chamado crédito invisível
Durante décadas, uma parcela relevante da dívida rural americana podia ser acompanhada por registros de bancos comerciais, instituições do Farm Credit System e programas governamentais.
Essa estrutura ficou mais complexa.
Com margens menores e alguns agentes financeiros ficando mais seletivos, produtores passaram a recorrer com maior frequência a outras fontes. Revendas de insumos, fabricantes de máquinas, cooperativas e fornecedores passaram também a funcionar como financiadores da produção.
Segundo informações obtidas pela Reuters junto a autoridades do USDA e especialistas em finanças agrícolas, aproximadamente metade das propriedades comerciais americanas teria utilizado alguma modalidade de financiamento de fornecedores ou credores não tradicionais para despesas operacionais na última temporada.
Em algumas fazendas, a multiplicação das fontes de recursos impressiona.
Entre mais de 50 produtores comerciais de grãos entrevistados em sete Estados americanos, a maioria possuía entre sete e dez linhas de crédito diferentes. Alguns ultrapassavam 30 operações simultâneas. Uma família de Iowa relatou possuir 42 linhas, muitas delas relacionadas individualmente à aquisição ou ao arrendamento de máquinas agrícolas.
Isso ajuda a explicar por que simplesmente acompanhar empréstimos bancários pode deixar de oferecer uma fotografia completa da saúde financeira das propriedades.
Pesquisa encontrou dívida de máquinas muito acima dos registros
Há evidências de que a diferença pode ser relevante.
Um estudo realizado por pesquisadores ligados à Kansas State University, USDA e National Credit Union Administration analisou mais de 4,4 milhões de registros de garantias sobre equipamentos agrícolas em 14 Estados, cobrindo operações realizadas entre 2001 e 2019.
A pesquisa encontrou situações nas quais o endividamento relacionado a equipamentos concedido por instituições não tradicionais chegava a quatro vezes o valor indicado pelas bases oficiais utilizadas como referência.
Outro ponto está chamando atenção do governo americano.
A categoria denominada pelo USDA como “individuals and others”, que reúne determinadas fontes privadas e alternativas de financiamento, alcançou cerca de US$ 45 bilhões em 2025. A professora de finanças agrícolas Jenny Ifft, da Kansas State University, estima que o estoque efetivo relacionado a esses agentes possa ser duas a três vezes maior que o contabilizado nessa categoria específica.
Isso não significa que toda a dívida agrícola dos Estados Unidos seja duas ou três vezes superior aos US$ 605 bilhões. A comparação se refere somente a uma parte específica das fontes de financiamento. Ainda assim, indica que o passivo total pode estar sendo subestimado em dezenas de bilhões de dólares.
Até fornecedores estão colocando bilhões no financiamento agrícola
O tamanho desse mercado alternativo aparece também nos balanços das empresas que atuam diretamente com os produtores.
A cooperativa americana Land O’Lakes, uma das maiores organizações agrícolas dos Estados Unidos, ampliou fortemente sua atuação financeira. Segundo sua presidente-executiva, Beth Ford, os compromissos de crédito de sua divisão financeira passaram de aproximadamente US$ 100 milhões no segundo semestre de 2025 para mais de US$ 1 bilhão destinado ao ciclo agrícola de 2027.
A lógica econômica é relativamente simples.
Quando um agricultor não dispõe de caixa suficiente para comprar fertilizante, sementes ou defensivos, a própria empresa interessada em vender o produto pode oferecer prazo ou financiamento.
Esse mecanismo mantém o sistema produtivo funcionando e pode ser essencial para propriedades economicamente viáveis que atravessam períodos de baixa liquidez.
O problema aparece quando diferentes compromissos se acumulam.
Uma dívida bancária pode estar garantida pela terra. Outra, pelo maquinário. O fertilizante pode ter sido adquirido a prazo. Uma máquina pode possuir financiamento próprio. A semente pode ter outra operação vinculada à compra.
Separadamente, cada compromisso pode parecer administrável. Somados, mudam completamente a exposição financeira da propriedade.
Margem apertada explica corrida por dinheiro
O avanço do crédito não acontece isoladamente.
O USDA calcula que as despesas de produção das fazendas americanas deverão chegar a US$ 492,8 bilhões em 2026, crescimento nominal de US$ 21,2 bilhões em relação ao ano anterior.
Alguns custos avançaram de forma particularmente intensa. A projeção oficial indica alta de 15,3% nas despesas com fertilizantes, corretivos e condicionadores de solo, enquanto combustíveis e óleos podem custar 28,8% mais ao setor durante o ano.
Ao mesmo tempo, o lucro agrícola não acompanha o movimento.
A renda líquida do setor deve ficar em US$ 158,4 bilhões em 2026. Em termos nominais, representa queda de 2,6%; descontada a inflação, a retração projetada alcança 5,5% frente a 2025.
É uma combinação clássica de pressão sobre capital de giro: custos elevados, rentabilidade comprimida e necessidade crescente de financiamento para iniciar cada novo ciclo produtivo.
Grãos concentram preocupação, enquanto pecuária funciona como contrapeso
A fotografia financeira americana também não é uniforme entre as cadeias.
Nos últimos anos, produtores de grandes culturas enfrentaram margens mais estreitas diante da combinação de preços agrícolas menos favoráveis e custos ainda elevados.
A pecuária, por outro lado, atravessou uma fase consideravelmente mais favorável, especialmente em função das cotações do gado. Essa diferença ajuda a explicar por que estatísticas agregadas da agricultura americana permanecem relativamente sólidas mesmo enquanto determinados agricultores enfrentam dificuldades maiores.
O Federal Reserve de Kansas City observa que as condições financeiras rurais vêm se deteriorando de forma gradual, principalmente no segmento agrícola, mas ressalta que o estresse agregado permanece limitado. Pagamentos governamentais, receitas elevadas na pecuária e valorização das terras têm funcionado como amortecedores.
Essa distinção é importante porque evita uma conclusão precipitada: dívida recorde não significa necessariamente crise agrícola generalizada.
Significa, porém, que uma parcela das propriedades está ficando progressivamente mais dependente de capital externo para continuar produzindo.
Inadimplência ainda não dispara
Outro dado impede comparações imediatas com grandes crises financeiras do passado.
No segundo trimestre de 2026, as taxas de atraso dos empréstimos agrícolas nos bancos comerciais continuavam relativamente baixas e praticamente estáveis em relação ao ano anterior.
Segundo o Federal Reserve de Kansas City, cerca de metade dos bancos especializados em agricultura apresentava níveis mínimos ou inexistentes de empréstimos rurais vencidos. Apenas um quarto registrava inadimplência superior a 1,4% de suas carteiras agrícolas.
Em outra pesquisa regional, menos de 10% do saldo das carteiras rurais apresentava problemas considerados grandes ou severos de pagamento, embora aproximadamente 15% mostrasse algum grau menor de dificuldade.
Ou seja: existe deterioração, mas não um colapso.
A questão é saber se os indicadores tradicionais conseguem detectar rapidamente uma deterioração financeira quando parcela crescente das obrigações está distribuída entre agentes que não aparecem com a mesma transparência nas bases bancárias.
USDA quer descobrir quanto realmente existe de dívida
É justamente esse problema que levou o governo americano a iniciar novas pesquisas.
O USDA pretende cruzar informações fornecidas por agricultores com registros da Farm Service Agency e financiar trabalhos específicos destinados a dimensionar o mercado de crédito agrícola não tradicional.
Há outro desafio: conseguir informações diretamente dos produtores.
A taxa de resposta ao principal levantamento usado pelo governo americano para mapear aspectos financeiros das propriedades caiu significativamente. Segundo dados citados pela Reuters, aproximadamente 68% dos produtores abordados respondiam à pesquisa em 2009; em 2025, o percentual estava próximo de 33%.
Menos respostas significam maior dificuldade para enxergar operações financeiras dispersas entre dezenas de credores.
Os primeiros resultados mais abrangentes das novas pesquisas sobre crédito não tradicional devem levar aproximadamente dois anos.
Por que o Brasil deveria acompanhar esse movimento
Para o agronegócio brasileiro, a situação americana merece atenção muito além de uma comparação entre níveis de dívida.
Estados Unidos e Brasil possuem sistemas de financiamento rural diferentes, mas enfrentam uma transformação semelhante: o custeio agrícola está deixando de depender exclusivamente do sistema bancário tradicional.
No Brasil, tradings, revendas de insumos, barter, cooperativas, CPRs, fundos de investimento, securitizadoras e estruturas ligadas ao mercado de capitais ganharam relevância crescente no financiamento da produção.
Essa diversificação é positiva porque aumenta a disponibilidade de recursos e reduz a dependência de uma única fonte de crédito. Ao mesmo tempo, torna mais difícil enxergar a exposição financeira total de determinadas empresas e produtores quando diferentes obrigações estão espalhadas pelo sistema.
A experiência americana reforça uma lição importante: não basta saber quanto o produtor deve ao banco. É preciso entender quanto da próxima safra, da terra, dos recebíveis, das máquinas e do fluxo de caixa já está comprometido.
Em períodos de preços elevados e boas margens, várias fontes de financiamento podem acelerar investimentos e expansão.
Quando a rentabilidade diminui, ocorre o inverso. O custo financeiro passa a disputar espaço diretamente com fertilizantes, sementes, defensivos, mão de obra e investimento em tecnologia.
Terra valorizada ainda protege o balanço americano
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre pressão de caixa e insolvência patrimonial.
As propriedades americanas continuam apoiadas por um enorme volume de ativos. O USDA projeta US$ 4,47 trilhões em ativos agrícolas em 2026, dos quais cerca de US$ 3,72 trilhões estão ligados às terras rurais e suas benfeitorias.
A valorização da terra funciona como uma espécie de colchão patrimonial.
Por isso, mesmo com dívida superior a US$ 605 bilhões, a relação entre passivos e ativos permanece relativamente baixa em termos históricos. Estudos recentes do Federal Reserve destacam que a alavancagem do setor continua distante dos níveis registrados durante a crise agrícola americana dos anos 1980.
Esse colchão, entretanto, não resolve necessariamente problemas de fluxo de caixa.
Uma fazenda pode possuir milhões de dólares em terra e ainda assim enfrentar dificuldades para pagar fertilizantes, parcelas de máquinas ou despesas operacionais ao longo do ano.
E é justamente nessa diferença entre patrimônio elevado e liquidez apertada que está uma das questões centrais do atual momento agrícola americano.
A dívida conhecida já é recorde. Agora falta descobrir a dívida que não aparece
Os Estados Unidos ainda não vivem uma crise generalizada de crédito agrícola. Os indicadores de inadimplência permanecem relativamente baixos, o patrimônio rural continua elevado e a valorização das terras oferece suporte aos balanços das propriedades.
Mas a trajetória merece atenção.
A dívida agrícola oficial cresceu para US$ 605,1 bilhões, as despesas operacionais continuam elevadas e produtores estão recorrendo a um número crescente de fontes de financiamento.
O risco, portanto, pode não estar apenas no tamanho conhecido da dívida, mas na dificuldade de enxergar sua totalidade.
Para uma agricultura cada vez mais intensiva em capital, tecnologia e financiamento, essa é uma mudança relevante: saber quanto o campo produz continua fundamental, mas saber exatamente quanto ele deve pode se tornar igualmente importante.
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