Micronagem da fibra influencia diretamente a classificação comercial da lã e pode criar diferenças expressivas de preço entre lotes
Uma diferença medida em milionésimos de metro pode representar centenas de dólares a mais na comercialização de um lote de lã. A espessura da fibra, conhecida tecnicamente como micronagem, tornou-se um dos principais fatores na formação do valor pago ao produtor, especialmente quando a produção atende aos padrões exigidos pela indústria têxtil.
Referências apresentadas pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (ARCO) ajudam a dimensionar essa diferença. Enquanto uma lã de 31 micra foi cotada em torno de US$ 2,40 por quilo, fibras de 18 micra chegaram à referência de US$ 10 por quilo. Isso significa que, dependendo da qualidade do produto, o preço por quilo pode superar em mais de quatro vezes aquele obtido por fibras de maior espessura.
O que faz uma lã valer mais?
A qualidade comercial da lã não depende apenas da quantidade retirada durante a tosquia.
O diâmetro das fibras exerce papel decisivo porque determina características como maciez, conforto e possibilidades de utilização industrial. Quanto menor a micronagem, mais fina tende a ser a lã e maior sua aptidão para peças têxteis sofisticadas e produtos de maior valor agregado.
A classificação técnica, portanto, permite separar materiais com características distintas antes da comercialização.
Para o criador, essa identificação pode evitar que uma lã de padrão superior seja negociada juntamente com fibras de menor valorização.
Classificação pode melhorar a remuneração da propriedade
A busca por maior precisão na avaliação dos lotes vem estimulando programas de certificação dentro da ovinocultura.
A iniciativa conduzida pela ARCO já passou por quatro safras e contabilizou perto de 600 mil quilos de lã acondicionada e identificada.
Os resultados econômicos divulgados pela associação indicam que propriedades acompanhadas pelo programa registraram, em 2024, crescimento de até 65,1% na receita por ovelha em comparação com o ano anterior.
O desempenho não significa que todo criador obterá o mesmo resultado. Entretanto, demonstra como análise laboratorial, separação adequada e apresentação das características da lã podem fortalecer a posição do produtor durante a negociação.
Rio Grande do Sul concentra produção de lã com finalidade têxtil
A discussão tem importância especial no Rio Grande do Sul, principal polo brasileiro da atividade.
Levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o estado responde pela ampla maioria da lã produzida no país. Na Pesquisa da Pecuária Municipal de 2023, 95,6% da produção nacional estava concentrada em território gaúcho.
Essa presença histórica sustenta uma cadeia que envolve criadores, associações, empresas de beneficiamento, indústria têxtil e programas de melhoramento genético.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta o desafio de tornar a lã economicamente mais atrativa dentro de propriedades que também obtêm receita com carne e genética.
Expointer coloca qualidade da fibra em debate
A 49ª Expointer, realizada entre 29 de agosto e 6 de setembro de 2026, em Esteio (RS), abriu espaço para esse debate ao reunir criadores, especialistas e representantes da cadeia ovina.
Entre as atividades programadas está o Concurso de Velos, promovido com participação da ARCO e de entidades ligadas à criação de ovinos.
A avaliação dos velos considera atributos responsáveis por diferenciar produtos dentro do mercado e ajuda a demonstrar, na prática, que duas lãs visualmente semelhantes podem apresentar valores comerciais bastante diferentes.
A programação também inclui encontros voltados à integração entre produtores, técnicos e empresas, com foco em oportunidades de negócios e projetos capazes de fortalecer a atividade após a feira.
Menos foco em volume e mais atenção à qualidade
A valorização da micronagem aponta para uma mudança importante na lógica econômica da produção.
Em vez de depender exclusivamente do crescimento do rebanho ou do aumento do volume obtido por animal, o produtor pode buscar maior retorno trabalhando características que elevem a qualidade do produto final.
Genética, alimentação, manejo, momento da tosquia, acondicionamento e classificação interferem na construção desse resultado.
Nesse cenário, saber exatamente qual lã está sendo produzida passa a ser tão importante quanto saber quantos quilos saem da propriedade.
Quando o mercado consegue diferenciar essas características, uma medida praticamente invisível pode se transformar em um dos componentes mais importantes da renda gerada pela atividade.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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