Tereza Cristina rebateu declaração do presidente, enquanto entidade do setor contestou discurso sobre recursos ao campo; episódio amplia debate sobre crédito rural e relação do governo com produtores
A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que integrantes do agronegócio deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele começou a provocar reações de nomes ligados ao setor. A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) criticou publicamente a fala, enquanto representantes do agro passaram a contestar o argumento de que o volume de recursos anunciado pelo governo traduz, por si só, a situação enfrentada pelos produtores.
A manifestação de Tereza Cristina ocorreu depois do discurso de Lula em um ato de campanha realizado no sábado (19), em Florianópolis (SC). Na ocasião, o presidente questionou por que parte do agronegócio mantém resistência política ao seu governo e relacionou essa posição ao volume de crédito disponibilizado para a agricultura.
Tereza Cristina reage
Ex-ministra da Agricultura e uma das principais lideranças políticas ligadas ao setor, Tereza Cristina respondeu ao presidente no domingo (20).
Em publicação nas redes sociais, a senadora afirmou:
“Isso não se faz com bravatas.”
Tereza Cristina também declarou que “os brasileiros de fé se ajoelham sim, mas diante de Deus” e afirmou que homens e mulheres do agro continuarão trabalhando na produção de alimentos.
A reação ocorre poucos dias depois de a própria senadora ter feito uma avaliação crítica sobre a situação financeira de parte do setor. Em entrevista publicada em 15 de setembro, Tereza Cristina afirmou que o agro atravessa uma “tempestade perfeita”, citando secas, enchentes, juros elevados, redução dos preços de commodities, oscilações cambiais e baixa cobertura do seguro rural. Trata-se da avaliação da senadora sobre o cenário econômico enfrentado pelos produtores.
Ela também vinha discutindo no Congresso medidas relacionadas às dívidas rurais e defendendo maior cobertura do seguro rural.
Entidade do agro também reage
A repercussão não ficou restrita ao ambiente político. A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) também divulgou manifestação contra a declaração.
A entidade classificou a fala como “descabida” e contrapôs ao discurso presidencial questões enfrentadas pelos produtores, como juros, crédito, seguro rural e renegociação de dívidas.
A posição da federação acrescenta um elemento importante à discussão: enquanto Lula utiliza o volume disponibilizado pelo Plano Safra como demonstração do apoio de seu governo ao setor, representantes do agro argumentam que o tamanho nominal do programa não é suficiente para retratar as condições efetivas de financiamento encontradas pelo produtor.
São interpretações diferentes sobre a atual política agrícola e devem ser tratadas como tal.
O que Lula disse
A controvérsia começou quando Lula sugeriu ao candidato ao governo catarinense Gelson Merísio (PSB) que conversasse com representantes do agronegócio para entender por que parte do setor não apoiava politicamente seu grupo.
Durante o discurso, Lula questionou:
“Por que eles não gostam de nós? Por que eles não votam em nós?”
O presidente afirmou acreditar que essa resistência poderia estar relacionada à sua origem nordestina e pobre e, na sequência, fez a declaração que desencadeou a repercussão:
“Porque, se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar pra mim.”
Lula acrescentou que “nunca houve tanto dinheiro para a agricultura como agora” e afirmou que os três maiores volumes de crédito destinados ao setor ocorreram durante seus mandatos.
Plano Safra entra no centro da discussão
O argumento financeiro utilizado pelo presidente levou o Plano Safra para o centro da repercussão.
O Plano Safra 2026/27 destinou R$ 525,1 bilhões em financiamento para a agricultura empresarial, contra R$ 516 bilhões anunciados no ciclo anterior.
Há, entretanto, uma diferença importante entre crédito disponibilizado e dinheiro entregue diretamente ao produtor.
O montante do Plano Safra envolve linhas de financiamento para custeio, comercialização e investimentos. O produtor que contrata uma operação assume uma dívida e posteriormente precisa quitá-la nas condições estabelecidas.
Por isso, o tamanho total anunciado pelo programa não deve ser interpretado simplesmente como uma transferência equivalente de recursos públicos ao agronegócio.
Lula também cita abertura de mercados
Além do crédito, Lula utilizou a abertura de mercados internacionais como argumento para defender a atuação de seu governo junto ao setor.
Em Santa Catarina, o presidente destacou a importância das cadeias de aves e suínos e afirmou que seu governo abriu novos destinos para esses produtos. Lula citou 34 mercados para aves e derivados e 25 para carne suína.
O presidente também destacou a força das cooperativas e do sistema de integração entre produtores e agroindústrias catarinenses.
Nesse caso, também cabe uma diferenciação: abertura de mercado significa a obtenção de autorização para que determinado produto brasileiro possa acessar um novo destino. O crescimento efetivo das vendas posteriormente depende de demanda, preços, competitividade e negociações comerciais.
Debate deixa de ser apenas sobre uma frase
A repercussão começa, portanto, a avançar para além da expressão “se ajoelhar”.
De um lado, Lula argumenta que os volumes de crédito rural e a abertura de mercados demonstram a atuação de seu governo em benefício da agropecuária. De outro, Tereza Cristina e representantes do setor apresentam críticas às condições econômicas enfrentadas por produtores, particularmente em relação a juros, endividamento, acesso ao financiamento e seguro rural.
A discussão envolve ainda um componente eleitoral importante: a declaração original ocorreu durante um ato de campanha, e Lula é candidato à reeleição.
Com as novas manifestações, o episódio passa a reunir dois debates distintos: a forma escolhida pelo presidente para se referir à relação com o agronegócio e a discussão concreta sobre quanto crédito está disponível ao campo, em quais condições esse dinheiro chega ao produtor e quanto custa financiar a próxima safra.
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