Depois da soja: RS mira carne Angus, máquinas e capital chinês para ampliar negócios com a China

Soja respondeu por 69% do valor vendido pelo Estado ao mercado chinês em 2025; estratégia agora tenta abrir espaço para proteínas, equipamentos, varejo, logística, tecnologia e novos investimentos

A China já ocupa uma posição difícil de substituir no comércio exterior do Rio Grande do Sul. Em 2025, as exportações gaúchas ao país asiático alcançaram cerca de US$ 5,1 bilhões, e a soja sozinha respondeu por 69% desse valor. O desafio agora não é diminuir a importância do grão, mas aproveitar uma relação comercial consolidada para ampliar a presença de produtos de maior valor agregado.

A estratégia ganhou força depois da abertura, em agosto, da primeira representação permanente da Invest RS em Xangai, criada para aproximar empresas gaúchas de compradores chineses e, no sentido inverso, atrair companhias e capital do país asiático para o Estado.

Em entrevista exclusiva ao Compre Rural, a Invest RS detalhou as frentes abertas após a missão à China, os setores que despertaram interesse e o estágio atual das negociações. A agência não trabalha com uma meta percentual para reduzir a participação da soja, mas pretende diversificar a pauta principalmente por meio de carnes, máquinas agrícolas, alimentos, logística, tecnologia e projetos ligados à transição energética.

Carne Angus aparece entre as oportunidades identificadas

Uma das frentes abertas durante a aproximação com empresas chinesas envolve a proteína bovina.

Segundo a Invest RS, a Seashine Minsheng Trade demonstrou interesse na importação de carne bovina Angus produzida no Rio Grande do Sul e na avaliação de possíveis parcerias comerciais.

Neste momento, porém, não há volume de compra, valor contratado ou operação fechada informados pela agência. O dado representa interesse comercial identificado durante as tratativas, e não uma venda concluída.

A carne suína também esteve na agenda da missão. A comitiva visitou uma unidade industrial de uma grande companhia do setor de alimentos na China, mas a Invest RS informou que não possui autorização para detalhar o conteúdo das conversas sobre uma eventual compra de proteína gaúcha, parceria industrial, transferência de tecnologia ou investimento no Estado.

Varejo chinês pode abrir um caminho diferente para produtos gaúchos

Outra possibilidade estudada é aproximar produtos do Rio Grande do Sul diretamente das grandes plataformas de consumo chinesas.

A agência relatou tratativas com a Meituan sobre possíveis operações de abastecimento direto de produtos agrícolas gaúchos para canais ligados à empresa, incluindo Xiaoxiang e Meituan Select.

A reunião com a Meituan também aparece no balanço oficial da missão. A empresa recebeu a delegação em Pequim para discutir possibilidades de conexão comercial com o Rio Grande do Sul.

Até agora, entretanto, não foi anunciado contrato de fornecimento já assinado.

É justamente essa distinção que define a próxima etapa da estratégia: transformar uma porta aberta no mercado chinês em pedidos de compra recorrentes.

Máquinas agrícolas entram na estratégia de diversificação

A indústria gaúcha também tenta ganhar espaço.

Nas agendas realizadas em Xangai, o Rio Grande do Sul apresentou sua estrutura metalmecânica e o peso da produção de máquinas e equipamentos agrícolas. A Invest RS considera o segmento uma das frentes com possibilidade de ampliação da presença comercial na China.

O movimento ocorre em um momento em que as exportações desse setor enfrentam dificuldades.

No segundo trimestre de 2026, as vendas externas gaúchas de máquinas e implementos agrícolas caíram 9,9% em comparação com igual período de 2025. Houve retração de 12,1% nos tratores agrícolas e de 26,6% nos pulverizadores, segundo dados oficiais do Rio Grande do Sul.

Ao mesmo tempo, as exportações totais do agronegócio gaúcho chegaram a US$ 3,8 bilhões no trimestre, com a China respondendo por 26,5% do valor exportado pelo setor.

A abertura de novos canais para máquinas, portanto, também funciona como tentativa de recuperar espaço para uma indústria tradicional do Estado e diminuir sua dependência de mercados já consolidados.

Missão teve resultados formais além das reuniões

Embora boa parte das conversas ainda esteja em fase de prospecção, a missão deixou pelo menos um avanço institucional formal.

Em 25 de agosto, a Invest RS e a China Semiconductor Industry Association assinaram um memorando de entendimento para aproximar empresas e instituições dos dois mercados.

O acordo abre caminho para cooperação em áreas ligadas ao design, pesquisa, desenvolvimento e cadeia de semicondutores.

A missão também incluiu reuniões com o Bank of Ningbo, a Envision Energy, o Shanghai Universal Software Park, representantes do distrito de Jing’an e outras instituições empresariais.

Em Pequim, a comitiva esteve ainda no Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB) para discutir possibilidades de colaboração relacionadas a infraestrutura, logística, transição energética e outros projetos de interesse do Estado.

Grupo chinês avalia investimentos de até US$ 1,5 bilhão

Entre os maiores valores apresentados pela Invest RS está um possível investimento do Lingtai Group.

A companhia avalia investimentos de até US$ 1,5 bilhão no Brasil em projetos de energia eólica, solar e sistemas de armazenamento de energia.

O número exige cautela: não representa um investimento aprovado ou confirmado no Rio Grande do Sul. Trata-se de uma possibilidade em avaliação dentro da carteira de prospecção da agência.

Na área de transição energética, a Invest RS trabalha ainda com uma carteira de 31 projetos, que somam aproximadamente R$ 18 bilhões em investimentos previstos.

Entre as iniciativas prospectadas estão projetos relacionados a hidrogênio verde, amônia, ureia, energia eólica, solar e armazenamento de energia.

Um dos projetos citados é o da Infravix/Fontes Verdes, no Porto do Rio Grande, envolvendo hidrogênio verde, amônia e ureia verde.

Para o agronegócio, a discussão é relevante principalmente pela relação da amônia e da ureia com a produção de fertilizantes nitrogenados.

Logística é uma das barreiras para ampliar os negócios

Encontrar compradores não resolve sozinho o desafio de colocar mais produtos gaúchos na China.

A agência aponta frete, logística internacional, estrutura financeira e acesso aos canais de distribuição entre os obstáculos que precisam ser enfrentados.

Durante a missão, houve contatos com empresas de logística, entre elas a Best Services International Freight, além de tratativas relacionadas à cadeia de transporte de insumos agrícolas.

A intenção é melhorar as conexões entre os dois mercados e diminuir barreiras que podem tornar determinadas operações menos competitivas.

No caso de alimentos e proteínas, logística, prazo de entrega, habilitações e acesso aos compradores tornam-se especialmente relevantes diante da distância entre o Sul do Brasil e os grandes centros consumidores chineses.

Banco chinês entra nas conversas sobre financiamento e câmbio

O custo financeiro do comércio exterior também apareceu nas reuniões.

Em 26 de agosto, a Invest RS se reuniu com representantes do Bank of Ningbo, durante a etapa realizada em Xangai.

Foram apresentadas alternativas envolvendo financiamento pré e pós-embarque, liquidação de operações comerciais, suporte tributário e jurídico e conexão entre compradores chineses e exportadores brasileiros.

Entre as soluções discutidas está uma plataforma de conexão comercial e financeira capaz de mapear compradores chineses e aproximá-los de exportadores brasileiros, oferecendo também suporte às operações cambiais.

As ferramentas ainda estão em fase de relacionamento e avaliação. Até agora, não foi anunciado um programa específico de crédito destinado às empresas gaúchas.

Empresas chinesas avaliam aproximação industrial com o Estado

A presença permanente em Xangai também procura estimular o caminho inverso: levar empresas chinesas ao Rio Grande do Sul.

Um dos contatos mencionados pela agência é a Shanghai Silin Special Equipment, ligada à produção de fios e cabos de alta tecnologia.

A companhia informou já possuir acordos iniciais de cooperação com associações e fabricantes brasileiros e solicitou uma agenda técnica para avaliar parcerias industriais ou eventual instalação de operações no Rio Grande do Sul.

A Shanghai Silin também aparece entre as empresas presentes nas agendas realizadas pela comitiva em Xangai.

Neste momento, entretanto, não existe anúncio de uma nova unidade industrial no Estado ou valor de investimento confirmado.

Soja continuará sendo a base da relação

Apesar do esforço de diversificação, os números mostram por que a soja dificilmente perderá sua posição central no curto prazo.

Em 2025, o Rio Grande do Sul exportou aproximadamente US$ 5,1 bilhões para a China, quase três vezes o volume destinado aos Estados Unidos, segundo maior mercado naquele ano. A soja respondeu por 69% do valor embarcado ao mercado chinês.

Já no segundo trimestre de 2026, o complexo soja movimentou US$ 1,5 bilhão em exportações do agronegócio gaúcho, mantendo-se como o principal segmento exportador do campo no Estado.

A China continua absorvendo parcela expressiva dessa produção.

A estratégia, portanto, não passa por substituir a commodity, mas por usar uma relação comercial construída sobre o grão para introduzir mais carnes, alimentos processados, máquinas, tecnologias e serviços.

Próxima etapa será transformar prospecção em negócio

Nos próximos dois ou três anos, a Invest RS pretende acompanhar resultados relacionados à atração de investimento estrangeiro direto, novos contratos, instalação de empresas, ampliação das exportações e entrada de produtos gaúchos de maior valor agregado no mercado chinês.

Também estão sendo articuladas missões de compradores e investidores chineses ao Rio Grande do Sul em 2027, envolvendo diferentes organizações empresariais e tecnológicas.

A representação aberta em Xangai cria uma estrutura permanente justamente para acompanhar essas conversas depois do encerramento das missões oficiais.

O resultado da estratégia, no entanto, não será determinado pelo número de reuniões realizadas.

Será medido pela capacidade de fazer interesse virar compra, visita virar investimento e aproximação empresarial virar contrato. Para um Estado cuja relação com seu principal mercado externo ainda depende fortemente da soja, esse é o desafio da próxima etapa.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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