Da roça à sala de aula: estudo resgata o valor da terra e da cultura caipira

Pesquisa de Getúlio de Souza Lima, professor da UNIFEF, destaca como o trabalho rural, as modas de viola e a memória das comunidades do interior podem enriquecer o ensino e combater preconceitos.

A relação com a terra, o trabalho na roça, as histórias transmitidas entre gerações e as modas de viola ajudam a contar uma parte fundamental da história brasileira. Esse patrimônio cultural é o centro de um estudo do historiador e professor Getúlio de Souza Lima, que discute como as tradições caipiras podem contribuir para a educação e para a valorização das comunidades do interior.

Intitulado “Cultura Caipira: rupturas e permanências e suas potencialidades educacionais no Ensino Básico”, o artigo foi aprovado em 27 de outubro de 2026 para integrar o volume 23 da Revista Educação e Cultura Contemporânea, periódico de classificação Qualis A2.

Docente dos cursos de História e Pedagogia do Centro Universitário de Fernandópolis (UNIFEF), Getúlio parte de uma experiência em escola pública do Extremo Noroeste Paulista para discutir uma questão que ultrapassa os muros escolares: como preservar e compreender as raízes rurais em uma sociedade cada vez mais marcada pela cultura digital?

A terra ajuda a explicar a história do caipira

Um dos pontos centrais do estudo é a ligação entre a formação da cultura caipira e as condições de vida no campo. O pesquisador apresenta esse universo por meio do trabalho rural, das relações familiares, da solidariedade comunitária, da religiosidade e das formas de garantir a subsistência.

Nessa trajetória, o acesso à terra ocupa posição decisiva. Ao recorrer aos estudos de Antonio Candido, especialmente à obra Os parceiros do Rio Bonito, o artigo mostra como a precariedade dos direitos sobre a propriedade e as dificuldades de permanência em uma área influenciaram os deslocamentos e os sucessivos recomeços de famílias rurais.

A disponibilidade de novas terras podia permitir a reconstrução da vida, mas não significava segurança sobre sua posse. Conforme a análise apresentada, essa instabilidade limitava as possibilidades de melhorar as condições materiais de existência.

O estudo questiona, assim, a ideia de que as dificuldades do caipira seriam resultado de uma suposta falta de disposição para o trabalho. Sua condição precisava ser compreendida também a partir das desigualdades, das limitações econômicas e das relações estabelecidas em torno da terra.

O manejo das roças, a caça e a pesca aparecem nesse contexto como atividades relacionadas à sobrevivência. Práticas frequentemente interpretadas de maneira depreciativa faziam parte das estratégias utilizadas por essas populações para obter alimento e sustento.

Além do estereótipo: trabalho, fé e viola

Outro destaque é a crítica às representações que associaram o morador do campo ao atraso, à ignorância e à preguiça. O artigo examina como esses estigmas circularam na literatura e chegaram às concepções educacionais do início do século XX.

O personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, aparece nessa discussão como uma representação que contribuiu para consolidar uma imagem depreciativa do caipira, embora o escritor posteriormente tenha revisto aspectos de sua interpretação.

Em contraponto, a pesquisa destaca a riqueza das relações comunitárias construídas no interior. Trabalho, respeito mútuo, fé, honra e solidariedade integram esse patrimônio, que também se manifesta nas festas e nas narrativas musicais.

As modas de viola ganham relevância porque carregam referências à vida rural e às experiências das comunidades. O repertório caipira permite observar mudanças nos modos de viver e reconhecer elementos que atravessaram gerações.

O artigo também discute as transformações da música sertaneja diante da indústria cultural. A reflexão procura compreender o que permanece das referências rurais e o que é modificado quando essas manifestações passam a atender a novas dinâmicas de mercado.

A memória do campo como fonte de aprendizado

A aplicação prática dessas reflexões aparece no projeto “Cantadores e Contadores de História – Memória Local e Regional”, apresentado no estudo. A proposta aproximou estudantes das tradições da comunidade, com atenção à musicalidade, à religiosidade e aos testemunhos de moradores dos meios rural e urbano.

O trabalho incluiu a produção de material audiovisual sobre as atividades desenvolvidas e uma apresentação da Orquestra de Violeiros local. Letras de canções e relatos de outras gerações passaram a funcionar como fontes para compreender a história.

A tecnologia, nesse processo, também pode ajudar a preservar o patrimônio cultural. O pesquisador defende seu uso acompanhado de reflexão crítica, para que o acesso às informações resulte em conhecimento sobre a própria comunidade.

Mestre e doutor em Educação Escolar pela Unesp, Getúlio também coordena o Centro de Documentação e Pesquisa da UNIFEF. Seu estudo aponta a necessidade de ampliar o investimento em pesquisas sobre memória local e regional.

Para quem vive no campo ou tem suas origens nele, a discussão toca em uma herança próxima: a história da terra também está nas lembranças das famílias, nas formas de trabalhar e nas tradições que continuam dando identidade ao interior brasileiro.

Confira o estudo completo aqui.

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