Custo alimentar cai para menos de 48% da arroba produzida e Relação de Troca bate recorde no confinamento

ICAP/Ponta Agro aponta menor custo alimentar em 23 meses no Sudeste, enquanto lucro da arroba produzida supera R$ 1,1 mil por cabeça nas duas principais regiões produtoras

O custo alimentar passou a representar menos da metade das arrobas produzidas no confinamento no Sudeste em julho. Segundo o Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP), apenas 47,9% das 7,59 arrobas produzidas por animal foram necessárias para pagar toda a alimentação do ciclo. O resultado levou a Relação de Troca ICAP/Boi Gordo ao maior nível da série histórica: uma arroba passou a pagar 29,97 dias de alimentação, praticamente um mês de cocho. O indicador é calculado a partir de dados reais coletados pela tecnologia de gestão de confinamento (TGC) que gerencia 62% das cabeças confinadas do país (Beef Report Abiec/2025).

A melhora foi resultado da combinação entre custo alimentar em queda e recuperação da receita. O ICAP do Sudeste recuou 2,63%, para R$ 11,48 por cabeça/dia, menor patamar desde agosto de 2024, enquanto a arroba do boi gordo avançou 3,77%, para R$ 344. Com isso, são necessárias apenas 3,64 arrobas das 7,59 produzidas para pagar toda a alimentação do ciclo médio de 109 dias. As 3,95 arrobas restantes, equivalentes a 52,1% da produção, ficam disponíveis para cobrir os demais custos e formar margem.

No Centro-Oeste, o ICAP avançou 1,63%, para R$ 13,12 por cabeça/dia, mas a alta não veio do encarecimento da dieta. O custo da dieta de terminação caiu 1,05%, no quarto alívio consecutivo, enquanto o milho recuou outros 9,1%. A elevação do índice foi puxada principalmente pelo maior consumo de matéria seca (+2,11%) e pelos custos das fases de adaptação (+3,30%) e crescimento (+1,19%).

A lucratividade da arroba produzida também avançou nas duas regiões e atingiu os maiores valores desde março. No Sudeste, chegou a R$ 1.145,71 por cabeça (+13,73%), enquanto o Centro-Oeste alcançou R$ 1.138,30 (+8,08%) — diferença de apenas R$ 7,41, configurando empate técnico. O indicador é calculado com base nos dados médios dos animais abatidos no mês de referência e considera exclusivamente o resultado das arrobas produzidas durante o período de confinamento, sem incorporar o ágio de compra do boi magro.

Visão trimestral dos insumos por Região

Centro-Oeste

No Centro-Oeste, o custo da dieta de terminação encerrou julho 3,13% abaixo da média do trimestre maio-julho, com o alívio concentrado principalmente nos volumosos e energéticos. O avanço da safrinha contribuiu para reduzir o custo dos principais ingredientes energéticos, enquanto os proteicos permaneceram próximos da estabilidade.

  • Energéticos: -7,44%
  • Proteicos: -0,76%
  • Volumosos: -9,88%
  • Outros: +7,26%

Entre os energéticos, o principal destaque foi o milho grão seco, 17,3% abaixo da média trimestral, acompanhado pela casca de soja (-6,4%) e silagem de milho grão úmido (-4,9%). Nos proteicos, a estabilidade da categoria contrapõe quedas da ureia (-12,7%) e torta de algodão (-7,0%) à pressão do DDG (+27,1%) e farelo de amendoim (+15,8%).

Nos volumosos, a silagem de milho ficou 24,3% abaixo da média trimestral e a casca de algodão, 23,6% abaixo, contribuindo para que a categoria registrasse a maior queda entre os tipos de alimentos. O feno foi a principal pressão no sentido contrário, operando 14,9% acima da média do período.

Sudeste

No Sudeste, o custo da dieta de terminação encerrou julho 4,91% abaixo da média do trimestre maio-julho, puxado principalmente pela redução dos volumosos. Energéticos e proteicos permaneceram próximos da média trimestral, enquanto a maior participação do bagaço de cana no mix das dietas contribuiu para o alívio do custo.

  • Energéticos: +1,32%
  • Proteicos: +0,41%
  • Volumosos: -8,71%
  • Outros: -28,64%

Nos energéticos, o milho grão seco ainda opera 2,5% acima da média trimestral, embora a queda observada em julho indique redução dessa pressão com o avanço da safrinha. Polpa cítrica (-5,2%) e casca de soja (-3,3%) ajudaram a equilibrar a categoria. Nos proteicos, o caroço de algodão (-20,3%) foi o principal alívio, enquanto farelo de amendoim (+22,0%) e ureia (+10,3%) pressionaram os custos.

Nos volumosos, a queda de 8,71% reflete principalmente a maior participação do bagaço de cana, alimento de menor custo, no mix das dietas com o avanço da safra canavieira. Casca de amendoim (-10,3%) e silagem de milheto (-6,8%) também contribuíram para o alívio, enquanto silagem de milho (+21,3%) e silagem de cana (+16,4%) pressionaram a categoria.

Porteira pra Fora x Porteira pra Dentro

Julho combinou melhora da receita com maior eficiência da produção, elevando o lucro da arroba produzida para mais de R$ 1,1 mil por cabeça nas duas regiões. No Sudeste, a recuperação da cotação da arroba se somou ao menor custo alimentar em 23 meses. No Centro-Oeste, mesmo com a arroba praticamente estável, o aumento das arrobas produzidas reduziu o custo da arroba produzida ao menor nível da série recente.

Centro-Oeste

  • Custo da arroba produzida: R$ 180,62 (-3,08%)
  • Arroba (boi físico): R$ 321,50 (-0,62%)
  • Lucro da arroba produzida: R$ 1.138,30/cabeça (+8,08%)

Sudeste

  • Custo da arroba produzida: R$ 193,05 (-3,13%)
  • Arroba (boi físico): R$ 344,00 (+3,77%)
  • Lucro da arroba produzida: R$ 1.145,71/cabeça (+13,73%)

O Sudeste retomou a liderança da lucratividade da arroba produzida no mercado físico, mas por apenas R$ 7,41 por cabeça, mantendo as duas regiões em praticamente um empate técnico. No mercado de exportação (boi China), a vantagem se inverteu: o lucro da arroba produzida foi de R$ 1.206,98 por cabeça no Centro-Oeste, contra R$ 1.191,25 no Sudeste.

Destaque do mês do ICAP: menos da metade da produção paga todo o custo alimentar

O principal destaque de julho está na combinação entre gestão do custo alimentar e recuperação da receita. No Sudeste, a Relação de Troca ICAP/Boi Gordo atingiu 29,97 dias, superando o recorde anterior de 29,18 dias registrado em abril. Na prática, uma única arroba vendida passou a pagar praticamente um mês de alimentação.

O efeito sobre a produção é ainda mais relevante. Em um ciclo médio de 109 dias, com produção de 7,59 arrobas por animal, apenas 3,64 arrobas são necessárias para pagar toda a alimentação. Isso significa que o custo alimentar consome 47,9% das arrobas produzidas, menor percentual da série recalculada.

No Centro-Oeste, a Relação de Troca recuou ligeiramente, de 25,06 para 24,50 dias, influenciada pelo ICAP mais alto e pela estabilidade da arroba. Ainda assim, apenas 4,04 das 8,08 arrobas produzidas são necessárias para pagar a alimentação — exatamente 50% da produção.

Os números ajudam a explicar por que a lucratividade por arroba produzida voltou a superar R$ 1,1 mil por cabeça nas duas regiões, mesmo em cenários distintos de preço da arroba. Quanto menor a parcela da produção destinada a pagar o cocho, maior é o espaço econômico disponível para absorver os demais custos da operação e formar margem.

Julho reforça, portanto, uma tendência observada pelo ICAP ao longo de 2026: a gestão eficiente dos custos alimentares, combinada à eficiência da produção, amplia a capacidade do confinamento de proteger suas margens diante das oscilações de mercado.

Dados referentes ao consumo diário dos animais e outros indicadores são apresentados no Boletim ICAP disponível aqui.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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