Cristiano Ronaldo investe R$ 112 milhões em aldeia de Portugal para produzir água mineral

Projeto já está em construção em Gostei, no norte português, terá três linhas de engarrafamento e capacidade projetada para chegar a 600 milhões de litros por ano, com produção direcionada principalmente ao mercado internacional.

Cristiano Ronaldo está levando para o interior de Portugal uma de suas apostas empresariais mais ambiciosas fora do futebol. Na pequena aldeia de Gostei, no município de Bragança, avança a construção de uma fábrica de água mineral natural que deverá receber investimento próximo de 20 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 112 milhões, e poderá alcançar capacidade de 500 milhões a 600 milhões de litros por ano.

Mais do que uma associação da imagem de uma das maiores estrelas do esporte mundial a uma nova marca, o projeto envolve exploração de um recurso natural específico, estrutura industrial, logística de exportação e agregação de valor em uma região do interior português. As obras já deixaram a fase dos anúncios: máquinas estão no terreno, a terraplanagem foi iniciada e as fundações começaram a ser executadas.

O empreendimento pertence à Maravilha Decimal, sociedade dividida igualmente entre Cristiano Ronaldo e o Grupo Outeirinho, empresa portuguesa com experiência no mercado de águas engarrafadas. A estratégia é colocar a unidade em operação no início de 2028, após a conclusão da construção e instalação dos equipamentos prevista para o fim de 2027.

O ativo mais importante está debaixo da terra

A escolha de Gostei não ocorreu apenas pelo custo de instalação ou pela possibilidade de construir uma indústria distante dos grandes centros. O ponto central do investimento é a nascente localizada na região, cuja água mineral natural será captada e conduzida para o engarrafamento.

O interesse empresarial na fonte é antigo. Documentos oficiais mostram que a Maravilha Decimal solicitou formalmente a concessão de exploração da denominada “Água Gostei” ainda em 2019. O contrato de concessão foi celebrado com o Estado português em 22 de junho de 2020, segundo registros da Direção-Geral de Energia e Geologia de Portugal.

Isso ajuda a dimensionar uma característica importante do negócio: o empreendimento não nasceu agora. Foram necessários anos de estudos, licenciamento, definições sobre a exploração da nascente e preparação do projeto industrial até que a fábrica efetivamente começasse a sair do papel.

A própria Câmara Municipal de Bragança já havia analisado, em 2018, o interesse público relacionado à implantação de uma unidade fabril destinada ao engarrafamento da água mineral natural proveniente da freguesia de Gostei.

Fábrica poderá engarrafar até 600 milhões de litros por ano

Quando atingir sua capacidade projetada, o volume industrial será expressivo. A expectativa divulgada pelos responsáveis é que a fábrica consiga trabalhar com algo entre 500 milhões e 600 milhões de litros de água por ano.

A estrutura deverá ter aproximadamente 7,2 mil metros quadrados de área coberta e contará com três linhas de engarrafamento, incluindo produção em embalagens plásticas e em vidro. Em um estágio mais avançado, existe a possibilidade de funcionamento durante 24 horas, dividido em três turnos.

O desenho industrial mostra que o projeto não está sendo estruturado apenas como uma pequena marca premium associada à imagem do jogador. A capacidade anunciada indica uma operação voltada para escala, distribuição internacional e crescimento de longo prazo.

A embalagem também faz parte da estratégia. Segundo os responsáveis pelo empreendimento, o produto terá design próprio, desenvolvido com participação de uma empresa italiana, numa tentativa de construir uma identidade distinta para a água originária de Gostei.

Exportação está no centro do negócio

A maior parte da produção deverá ser direcionada ao mercado externo.

O Grupo Outeirinho já trabalha com exportação de águas engarrafadas e mantém presença em mercados como Espanha e China. Para a nova unidade, o objetivo declarado é ampliar a presença internacional da água produzida em Bragança, aproveitando tanto as características da fonte quanto a força comercial associada ao nome de Cristiano Ronaldo.

É justamente nesse ponto que o projeto ganha uma dimensão diferente.

No mercado de commodities, escala e custo normalmente dominam a disputa. No segmento de águas minerais de maior valor agregado, entretanto, entram na equação elementos como origem, composição mineral, embalagem, posicionamento de marca e percepção de exclusividade.

Uma nascente localizada em uma pequena aldeia de Trás-os-Montes pode, portanto, ser transformada em produto comercializado a milhares de quilômetros de distância.

Para territórios rurais, trata-se de uma lógica conhecida em outras cadeias: o recurso local ganha valor quando deixa de ser comercializado apenas como matéria-prima e passa a incorporar processamento, marca, logística e acesso aos mercados consumidores.

Água alcalina será um dos diferenciais comerciais

Entre as características destacadas pelos investidores está o pH alcalino da água de Gostei.

Esse atributo tende a ocupar espaço importante na estratégia de posicionamento da futura marca, acompanhando uma tendência observada em determinadas categorias de águas premium.

É importante, entretanto, separar característica físico-química de alegações de saúde. Embora águas alcalinas sejam frequentemente associadas comercialmente a diferentes benefícios, instituições como Harvard Health e Mayo Clinic ressaltam que não existem evidências robustas de que, para a maioria das pessoas, a água alcalina ofereça benefícios gerais superiores aos proporcionados por água potável comum de boa qualidade.

O valor mercadológico, portanto, pode estar muito mais ligado à composição mineral, à origem natural, ao posicionamento e à percepção do consumidor do que a promessas extraordinárias relacionadas à saúde.

Projeto pode mudar a dinâmica econômica de uma pequena localidade

O número inicial de empregos parece modesto quando comparado ao investimento: a previsão é de aproximadamente 30 a 35 postos de trabalho diretos na primeira fase.

Mas os responsáveis afirmam que o quadro poderá crescer à medida que a produção aumentar. Também existem efeitos indiretos associados à movimentação industrial, transportes, manutenção, embalagens, serviços e atividades logísticas.

Para uma pequena localidade do interior, o peso relativo de um investimento próximo de 20 milhões de euros é diferente daquele observado caso o mesmo capital fosse aplicado em Lisboa, Porto ou outra grande região industrial.

Há ainda uma dimensão territorial importante. Projetos desse porte podem ajudar a manter atividade econômica em áreas afastadas dos principais centros, criando oportunidades de emprego e adicionando valor a recursos naturais que, de outra forma, teriam impacto econômico muito menor sobre a própria região.

Proteção da nascente também entra na equação

Explorar comercialmente água mineral natural exige mais do que perfurar, captar e engarrafar.

O projeto passou por análises relacionadas à qualidade da água e por processos de autorização junto às autoridades portuguesas. Há ainda a necessidade de estabelecer um perímetro de proteção da nascente, justamente para reduzir o risco de atividades capazes de comprometer o recurso hídrico explorado comercialmente.

Esse é um aspecto especialmente relevante em projetos instalados em ambientes rurais.

A presença de uma fonte mineral protegida pode impor limitações específicas ao uso do território no entorno, uma vez que preservar a qualidade da água passa a ser diretamente relacionado à sustentabilidade econômica da própria indústria.

Ou seja: quanto maior for o valor comercial atribuído à água, maior tende a ser também a necessidade de controle sobre aquilo que acontece na área responsável por alimentar o aquífero e a nascente.

Cristiano Ronaldo já havia entrado no mercado de águas

Apesar de o projeto em Portugal ganhar atenção agora, a ligação do jogador com o segmento não começou em Gostei.

Em 2023, Cristiano Ronaldo participou do lançamento da URSU9, água mineral natural de origem espanhola, também desenvolvida em parceria com Francisco Ferreira, ligado ao Grupo Outeirinho. A água é proveniente de El Oso, na província espanhola de Ávila.

A nova fábrica portuguesa, portanto, representa uma continuidade de uma estratégia empresarial já iniciada no setor, mas agora em uma escala industrial potencialmente muito maior e com um ativo localizado no próprio país natal do jogador.

Também evidencia uma característica da diversificação patrimonial de grandes atletas: a imagem pessoal ajuda a abrir mercados, mas os projetos mais estruturados tendem a combinar a marca do esportista com parceiros que possuem conhecimento operacional específico.

No caso da água mineral, o conhecimento industrial vem justamente do Grupo Outeirinho.

De uma nascente do interior para o mercado mundial

A história da fábrica de Gostei chama atenção pelos números — quase 20 milhões de euros de investimento e até 600 milhões de litros de capacidade anual —, mas talvez o elemento mais relevante esteja no modelo de negócio.

O empreendimento transforma uma característica natural extremamente localizada em um produto projetado para circular internacionalmente.

Há uma nascente, uma concessão de exploração, uma fábrica, capacidade de processamento, embalagem própria, estratégia de exportação e uma das marcas pessoais mais conhecidas do planeta ajudando na exposição comercial.

Se o cronograma for cumprido, a pequena aldeia de Gostei deverá começar a assistir, em 2028, à saída das primeiras garrafas de uma operação pensada desde sua origem para ultrapassar as fronteiras portuguesas.

Para Cristiano Ronaldo, será mais um negócio no processo de diversificação fora dos gramados. Para Bragança, entretanto, o projeto representa algo diferente: a possibilidade de transformar água que nasce no interior português em um produto de alcance global.

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