Mesmo com o petróleo em torno de US$ 72 por barril, o diesel já se comporta como se o barril custasse US$ 140. A escalada do combustível, impulsionada por guerras e problemas no refino global, ameaça elevar os custos da produção agrícola e da logística no Brasil.
O diesel, combustível que move praticamente toda a produção agrícola brasileira, entrou em uma zona de forte pressão no mercado internacional e pode desencadear uma nova onda de aumento dos custos no campo. Embora o barril de petróleo seja negociado próximo de US$ 72, o comportamento do diesel já equivale ao de um cenário em que o petróleo custasse cerca de US$ 140 por barril, reflexo da disparada das margens de refino e da restrição na oferta global.
Para o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, a situação acende um sinal de alerta. Do preparo do solo à colheita, passando pela pulverização, irrigação e transporte da safra, praticamente toda a atividade agrícola depende de máquinas e equipamentos movidos a diesel. Qualquer alta significativa no combustível eleva diretamente os custos de produção e reduz a margem do produtor.
Além das operações dentro das propriedades, o impacto se estende à logística. Como mais de 60% das cargas brasileiras são transportadas por rodovias, o aumento do diesel encarece o frete de fertilizantes, defensivos, sementes, grãos, carnes e outros produtos agropecuários, pressionando toda a cadeia produtiva.
Diesel já sobe muito mais que o petróleo
O que chama a atenção do mercado é que o diesel deixou de acompanhar o preço do petróleo. A margem de refino, conhecida como crack spread, ultrapassou US$ 77 por barril, um dos maiores níveis já registrados. Na prática, isso significa que há muito mais demanda pelo combustível do que capacidade mundial para produzi-lo.
Segundo o analista financeiro Lukas Ekwueme, especializado em macroeconomia global e commodities, o diesel é hoje o verdadeiro termômetro da economia real. Em publicação na rede social X, ele afirmou que “as margens de refino do diesel agora superam o preço do próprio petróleo bruto” e alertou: “Vamos sentir a pressão inflacionária de um diesel a US$ 140.”
Guerras e refinarias paradas pressionam o mercado
A escalada dos preços ganhou força após novos ataques da Ucrânia contra refinarias e navios-tanque russos. Com a redução da produção, a Rússia suspendeu parte das exportações de diesel, retirando do mercado um importante fornecedor global.
Ao mesmo tempo, conflitos entre Estados Unidos e Irã danificaram refinarias no Golfo Pérsico, enquanto incêndios e explosões em unidades na Austrália e nos Estados Unidos agravaram ainda mais a escassez de capacidade de refino.
O resultado foi uma corrida mundial pelo diesel disponível, elevando as margens das refinarias e pressionando os preços internacionais, mesmo sem uma disparada equivalente no petróleo.
Agro pode sentir os efeitos rapidamente
Para o agronegócio brasileiro, o momento inspira cautela. Culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e atividades como pecuária e mineração dependem intensamente do diesel durante praticamente todo o ciclo produtivo. Em períodos de plantio e colheita, máquinas trabalham por longas jornadas, tornando o combustível um dos principais componentes do custo operacional.
Além disso, o diesel influencia diretamente o valor do frete, fator decisivo para um país de dimensões continentais como o Brasil. Caso a pressão internacional persista, produtores podem enfrentar aumento nas despesas justamente em um cenário de crédito ainda caro e margens mais apertadas.
Petrobras tenta segurar repasses
Apesar da disparada no mercado internacional, a Petrobras tem mantido a estratégia de evitar o repasse automático da volatilidade externa aos preços internos. A estatal afirma que considera fatores como competitividade, participação de mercado e rentabilidade antes de promover reajustes, buscando amortecer oscilações do petróleo e do câmbio.
Ainda assim, especialistas alertam que, se a crise global no mercado de diesel continuar, ficará cada vez mais difícil impedir que parte dessa pressão chegue ao mercado brasileiro. Para um país cuja produção agrícola é fortemente mecanizada e dependente do transporte rodoviário, a evolução dos preços do diesel pode se tornar um dos principais fatores de aumento dos custos da safra 2026/27.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.