Agências internacionais alertam para a escassez de combustíveis e a pressão sobre os fertilizantes, enquanto o Brasil avança com o plantio de uma safra estimada em 367,1 milhões de toneladas de grãos.
A combinação entre diesel caro, fertilizantes pressionados e instabilidade no abastecimento mundial acendeu um novo sinal de alerta para o agronegócio. O agravamento dos conflitos no Oriente Médio, somado às interrupções na produção e no transporte de derivados de petróleo, está criando um ambiente de custos elevados justamente quando os produtores brasileiros avançam com o plantio da safra 2026/27. O problema já preocupa organismos internacionais, que enxergam riscos não apenas para a rentabilidade agrícola, mas também para o abastecimento e os preços dos alimentos nos próximos meses.
O alerta ganhou força após manifestações da Agência Internacional de Energia (AIE) e de organismos das Nações Unidas. A AIE avalia que as restrições no mercado global de diesel podem se prolongar por boa parte de 2027, enquanto o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) adverte que a elevação dos custos de energia e fertilizantes ameaça a produção agrícola e a segurança alimentar. Para o Brasil, a preocupação é especialmente relevante: o país depende das importações para atender cerca de 85% de sua demanda por fertilizantes e utiliza intensivamente o transporte rodoviário e máquinas agrícolas movidas a diesel.
Diesel pode continuar sob pressão até 2027
O relatório de outubro da Agência Internacional de Energia revela um cenário de desequilíbrio no mercado de combustíveis. Em setembro, as exportações mundiais de diesel ficaram aproximadamente 700 mil barris por dia abaixo das registradas no mesmo mês de 2025. As perdas combinadas de fornecimento do Oriente Médio e da Rússia chegaram a 1,3 milhão de barris diários, parcialmente compensadas por outros fornecedores.
A situação é agravada pelos ataques a instalações energéticas, pelas dificuldades de funcionamento de refinarias e pela redução dos estoques internacionais. Segundo a AIE, mesmo com a expectativa de recuperação da atividade de refino, o abastecimento de diesel poderá continuar apertado ao longo de 2027.
Os preços internacionais refletem essa pressão. Em setembro, as cotações do diesel no atacado chegaram a aproximadamente US$ 220 por barril na Europa e nos Estados Unidos, enquanto a agência passou a recomendar medidas coordenadas de liberação de reservas estratégicas para aliviar o mercado.
No agronegócio brasileiro, a preocupação não se limita ao abastecimento das máquinas. O diesel participa de praticamente todas as etapas da atividade agrícola, desde o preparo do solo e a semeadura até as pulverizações, a colheita e o transporte da produção.
O efeito sobre os custos pode ocorrer em duas frentes: diretamente, pelo combustível utilizado na propriedade, e indiretamente, pelo aumento do frete de fertilizantes, sementes, defensivos e grãos. Nas regiões produtoras mais distantes dos portos, como partes de Mato Grosso e Goiás, essa exposição logística torna-se especialmente importante.
Fertilizantes enfrentam outro gargalo internacional
Se a preocupação com o diesel está relacionada ao transporte e à mecanização, a crise dos fertilizantes atinge diretamente a formação do potencial produtivo das lavouras.
Em setembro, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) advertiu que as dificuldades no Oriente Médio estavam comprometendo o comércio internacional de adubos. A região do Golfo responde por uma parcela expressiva do fornecimento de matérias-primas fundamentais para a indústria de fertilizantes.
Segundo os dados apresentados pela organização:
- 30% a 35% da ureia mundial tem origem na região do Golfo.
- 20% a 30% da amônia produzida globalmente é fornecida pela região.
- 26% foi a alta registrada nos preços do fosfato diamônico (DAP) no contexto analisado pela FAO.
- 1,5 milhão a 3 milhões de toneladas de fertilizantes tiveram seu comércio mensal atrasado pelas dificuldades logísticas.
O problema tem origem tanto na circulação das mercadorias quanto no custo da energia. O gás natural é uma das principais matérias-primas da produção de amônia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Portanto, uma crise energética pode provocar aumentos nos custos industriais mesmo quando existe capacidade instalada para produzir os insumos.
Para o produtor brasileiro, o resultado depende do tipo de fertilizante utilizado. Culturas como milho e trigo podem apresentar maior exposição aos nitrogenados, enquanto, na soja, fósforo e potássio têm grande importância para a adubação, considerando que a cultura normalmente obtém boa parte do nitrogênio pela fixação biológica.
Essa diferença é decisiva: o impacto da crise não será necessariamente igual para todas as culturas ou propriedades. O momento da compra, o estoque de insumos, a fertilidade do solo e a necessidade de adubação são fatores que podem ampliar ou reduzir a pressão sobre os custos.
Brasil prepara safra de 367 milhões de toneladas em cenário de incerteza
O alerta internacional chega em um momento particularmente sensível para a agricultura brasileira.
De acordo com o primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 15 de outubro, a produção nacional de grãos na safra 2026/27 está estimada em 367,1 milhões de toneladas, crescimento de 1,4% em relação ao ciclo anterior.
A área cultivada pode chegar a 85,4 milhões de hectares, expansão de 2,3%. Somente a soja deve ocupar aproximadamente 49,3 milhões de hectares, com produção projetada em 181,6 milhões de toneladas. Para o milho, a expectativa é de 148 milhões de toneladas, somadas as três safras.
Esse avanço da produção também exige uma estrutura cada vez maior de abastecimento e logística. Em termos práticos, mais área plantada significa necessidade de disponibilizar insumos no momento correto, mobilizar máquinas e transportar volumes elevados de produtos.
É justamente nesse ponto que o cenário mundial preocupa. Quando o custo dos fertilizantes aumenta simultaneamente ao do combustível, o produtor pode enfrentar uma elevação das despesas sem garantia de valorização equivalente da soja, do milho ou das demais commodities.
Produzir mais, portanto, não significa necessariamente ganhar mais. O resultado financeiro continuará dependendo da relação entre produtividade, custos operacionais, preços de venda e despesas logísticas.
Diesel já pesa no orçamento do produtor brasileiro
O reflexo das turbulências energéticas também pode ser acompanhado nos preços domésticos.
Segundo dados do levantamento semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o diesel S10 apresentou preço médio nacional de R$ 7,34 por litro entre 11 e 17 de outubro de 2026, ante R$ 7,36 na semana anterior.
A pequena redução semanal mostra que a pressão internacional não se transforma automaticamente em reajustes nas bombas. A transmissão dos preços depende de fatores como câmbio, política comercial dos fornecedores, tributos e margens de distribuição. Ainda assim, o patamar do combustível representa um custo relevante para as operações agrícolas.
Para dimensionar a exposição, uma propriedade que consome 50 mil litros de diesel ao longo de suas operações teria R$ 50 mil de despesa adicional caso o combustível aumentasse R$ 1 por litro. Trata-se de uma simulação, não de uma previsão de reajuste.
Esse custo pode se somar ao encarecimento de fretes contratados, especialmente durante a colheita, quando a movimentação de grandes volumes amplia a demanda por transporte.
Na pecuária, os efeitos também merecem atenção. A elevação das despesas com o transporte de grãos e fertilizantes pode atingir a produção de volumosos, a alimentação animal e a movimentação de bovinos, influenciando os custos de sistemas intensivos de produção.
Agência da ONU alerta para efeitos sobre os alimentos
A preocupação ultrapassa as fronteiras das propriedades rurais.
Em entrevista divulgada em 16 de outubro pela agência AFP, o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), Álvaro Lario, alertou que o encarecimento da energia e dos fertilizantes poderá agravar a inflação alimentar nos próximos meses.
De acordo com o organismo, os preços agrícolas mundiais subiram 13% no terceiro trimestre de 2026. Lario avalia que os efeitos acumulados dos custos energéticos poderão continuar pressionando os alimentos pelos próximos seis a nove meses, com consequências especialmente graves para populações de baixa renda.
A preocupação das Nações Unidas é que agricultores com menos acesso a crédito, tecnologias e insumos reduzam investimentos nas lavouras para conseguir atravessar o período de custos elevados.
Esse movimento pode comprometer a produtividade e, consequentemente, a disponibilidade futura de alimentos em países mais vulneráveis.
No Brasil, porém, é necessário distinguir esse alerta global da realidade das propriedades. Não há, nos dados apresentados pelas agências, comprovação de uma escassez generalizada de diesel ou fertilizantes nas fazendas brasileiras. O risco mais imediato está na volatilidade dos preços, na disponibilidade regional dos produtos e na dificuldade de planejamento das despesas.
O que o produtor deve observar antes de fechar novas compras
Diante do cenário, o planejamento financeiro e agronômico ganha ainda mais importância. A decisão de antecipar compras ou contratar insumos precisa considerar as condições particulares de cada propriedade.
Para reduzir a exposição às oscilações, algumas medidas merecem atenção:
- Fertilizantes: conferir estoques, disponibilidade de entrega, preços e condições de pagamento, sempre respeitando as recomendações técnicas de adubação.
- Diesel: acompanhar o consumo das máquinas e avaliar oportunidades de contratação sem comprometer o fluxo de caixa.
- Fretes: negociar prazos e condições de transporte, especialmente para propriedades distantes dos centros fornecedores e compradores.
- Custos por hectare: atualizar os orçamentos considerando diferentes cenários de preços de combustíveis e insumos.
- Comercialização: analisar oportunidades de proteção das margens, relacionando preços futuros da produção aos custos efetivamente contratados.
Reduzir fertilizantes indiscriminadamente para economizar pode gerar perdas de produtividade superiores ao valor poupado. O caminho mais consistente é utilizar análises de solo, histórico produtivo e recomendações agronômicas para melhorar a eficiência dos recursos aplicados.
Margens agrícolas entram no centro das preocupações
O principal desafio para a safra 2026/27 não é apenas o custo individual de cada insumo, mas a possibilidade de vários componentes das despesas aumentarem simultaneamente.
O Brasil mantém potencial para colher uma produção expressiva de grãos, conforme as estimativas da Conab. Entretanto, a rentabilidade dependerá também da capacidade dos produtores de administrar um ambiente internacional mais instável.
A evolução dos conflitos no Oriente Médio, a recuperação das refinarias, o fornecimento de fertilizantes e o comportamento do câmbio brasileiro serão fatores importantes para os próximos meses.
A crise internacional ainda não determina uma quebra da safra brasileira, mas representa um risco concreto para os custos de produção e para as margens dos produtores. Em um setor que trabalha com investimentos elevados e resultados dependentes de clima e mercado, a capacidade de planejar despesas pode fazer tanta diferença quanto alcançar uma boa produtividade.
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