Criação de suínos em prédios de até 26 andares na China impressiona e modelo chega a outros países; vídeo

Granjas verticais concentram milhares de animais em edifícios automatizados, prometem economizar terra e elevar a biossegurança; modelo ganhou força após a peste suína africana e agora começa a ultrapassar as fronteiras chinesas

Imagine uma granja capaz de produzir suínos em uma área onde, em vez de construir galpões lado a lado, os animais são distribuídos por diferentes andares de um prédio. Ração, água, ventilação, temperatura, movimentação dos animais e tratamento de resíduos são controlados por sistemas automatizados. Até a circulação entre os pavimentos pode envolver elevadores próprios para os suínos.

O que parece uma visão futurista da pecuária já funciona em escala industrial na China. E o exemplo mais impressionante está em Ezhou, na província de Hubei: duas estruturas de 26 andares projetadas para alcançar, juntas, produção anual de até 1,2 milhão de suínos.

Mas a história ganhou um capítulo importante em 2026. Depois de transformar a produção chinesa, o conceito das chamadas granjas verticais começou a atravessar fronteiras, colocando em discussão se parte da suinocultura mundial poderá, no futuro, crescer para cima em vez de simplesmente ocupar novas áreas.

O “arranha-céu de porcos” de 26 andares

O complexo de Ezhou tornou-se a expressão mais radical desse sistema.

As duas torres possuem 26 pavimentos cada, e os andares destinados à criação funcionam como unidades produtivas controladas. Sistemas automatizados administram alimentação, água, ventilação, temperatura e outros parâmetros ambientais.

Os animais entram e deixam determinadas áreas por elevadores de grande capacidade. Segundo informações oficiais divulgadas em Hubei, há elevadores específicos capazes de transportar até 10 toneladas.

Em vez de depender de uma grande quantidade de funcionários transitando constantemente entre diferentes instalações, boa parte da rotina é centralizada e automatizada.

A ração, por exemplo, pode percorrer sistemas fechados até chegar aos pontos de alimentação.

O objetivo é transformar uma atividade tradicionalmente espalhada horizontalmente em uma espécie de linha vertical de produção animal.

Por que a China começou a colocar porcos em prédios?

Há três fatores centrais: terra, mão de obra e biossegurança.

Em regiões chinesas densamente povoadas ou com terrenos caros e limitados, construir verticalmente permite concentrar uma grande capacidade produtiva em uma área relativamente pequena.

A Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo em vendas, afirma que a utilização de estruturas de vários pavimentos reduziu em milhares de acres sua necessidade de terra.

Outro componente é a automação.

Sensores, alimentação automática, controle ambiental, monitoramento dos animais e sistemas de alerta diminuem a necessidade de mão de obra dentro das instalações.

Mas existe uma razão histórica ainda mais importante para entender essa transformação.

Peste suína africana mudou a suinocultura chinesa

A expansão das granjas altamente tecnificadas ganhou força principalmente depois da peste suína africana (PSA), que atingiu duramente a China a partir de 2018.

A crise provocou enormes perdas no rebanho e acelerou uma reorganização estrutural da produção de carne suína no país.

Em 2019, autoridades chinesas passaram a permitir formalmente a utilização de construções de múltiplos pavimentos para a criação animal.

Grandes companhias aproveitaram a mudança.

O resultado foi uma migração gradual para operações maiores, automatizadas e integradas.

Estudo publicado em 2026 sobre a transformação da cadeia chinesa de carne suína mostra que a peste suína africana acelerou a modernização, a concentração da produção e a integração vertical do setor.

Ou seja: os prédios de suínos não surgiram apenas como uma extravagância arquitetônica. Eles fazem parte de uma transformação muito maior da pecuária chinesa.

Cada andar funciona quase como uma granja

Um dos princípios do sistema é reduzir a circulação desnecessária entre os diferentes núcleos produtivos.

Pessoas, animais, materiais e ração podem utilizar rotas específicas. A intenção é diminuir o contato entre setores e criar barreiras sanitárias.

Ventilação e climatização também precisam ser cuidadosamente planejadas para evitar que o ar potencialmente contaminado de determinada área seja levado para outra.

No complexo de Ezhou, autoridades locais afirmam que tecnologias de alimentação de precisão, controle ambiental, prevenção de doenças e inteligência artificial fazem parte da operação.

Há ainda sistemas destinados ao tratamento dos dejetos, com possibilidade de aproveitamento para produção de biogás e fertilizantes.

Só que existe um paradoxo sanitário

É justamente aqui que aparece um dos pontos mais controversos das granjas verticais.

Concentrar milhares de animais permite elevar drasticamente o controle sobre quem e o que entra na granja. Mas, caso um patógeno consiga romper essas barreiras, a elevada concentração de animais pode favorecer sua disseminação.

Especialistas em saúde animal vêm chamando atenção para esse equilíbrio.

Estudo publicado em 2026 sobre a suinocultura asiática observa que a industrialização trouxe avanços em manejo e biossegurança, mas também criou novas vulnerabilidades relacionadas à elevada densidade animal e à concentração regional das propriedades.

Por isso, prédios de suínos dependem de protocolos sanitários extremamente rigorosos.

A lógica não é que colocar os animais em edifícios elimine doenças. O sistema tenta, na verdade, reduzir ao máximo as oportunidades de entrada dos agentes infecciosos.

E há também a discussão sobre bem-estar animal

O modelo desperta críticas fora e dentro do setor produtivo.

Organizações de proteção animal questionam a concentração de grandes populações de suínos em ambientes fechados e altamente artificiais. Especialistas também discutem os desafios de ventilação, evacuação, manejo e controle de doenças em estruturas desse tamanho.

Existem ainda impactos ambientais locais.

Moradores próximos de algumas instalações chinesas já relataram preocupação com odores e com a concentração de resíduos.

Portanto, embora as empresas apresentem eficiência, economia de terra e biossegurança como vantagens, o desempenho dessas instalações depende diretamente da qualidade do manejo, do projeto, da ventilação, do tratamento de resíduos e dos protocolos sanitários empregados.

Agora a China quer levar o modelo para outros países

Essa talvez seja a principal novidade de 2026.

A Muyuan Foods passou a trabalhar com a empresa vietnamita BAF para desenvolver granjas de suínos de múltiplos andares no Vietnã.

A expectativa é utilizar no país tecnologias semelhantes às desenvolvidas nas operações chinesas, incluindo automação e estruturas verticalizadas.

O movimento transforma a discussão.

Até pouco tempo atrás, os enormes edifícios chineses eram tratados principalmente como uma peculiaridade da industrialização do país. Agora, a China começa a transformar o conhecimento adquirido nessas granjas em tecnologia exportável.

E isso pode fazer com que os “prédios de porcos” deixem de ser uma particularidade chinesa.

A maior produtora de suínos do mundo também olhou para o Brasil

Existe ainda uma conexão interessante com a suinocultura brasileira.

Em fevereiro de 2026, executivos da Muyuan Foods estiveram no Brasil em uma agenda com a Topigs Norsvin para conhecer mais profundamente a cadeia produtiva nacional, incluindo disponibilidade de grãos, custos, produtividade, logística e questões sanitárias.

Segundo a Topigs Norsvin, a companhia chinesa possui aproximadamente 3,3 milhões de matrizes suínas.

Durante uma visita realizada anteriormente à China, representantes brasileiros conheceram justamente instalações verticalizadas da Muyuan, incluindo prédios de seis andares que reúnem diferentes etapas da produção.

A visita dos chineses ao Brasil, porém, não significa que existam planos anunciados para construir arranha-céus de suínos no país. Até o momento, o que foi divulgado oficialmente é o interesse em compreender melhor a competitividade e a estrutura da cadeia brasileira.

Essa diferença é importante.

O Brasil precisaria criar suínos em prédios?

Provavelmente essa é a pergunta mais interessante para o produtor brasileiro.

O Brasil possui uma realidade bastante diferente daquela encontrada em determinadas regiões da China.

Aqui, disponibilidade territorial, preço da terra, legislação ambiental, custos de construção, mão de obra, logística de grãos e estrutura das integrações precisam entrar na conta.

Construir verticalmente também significa assumir projetos de engenharia mais complexos e investimentos elevados em ventilação, automação, transporte interno, tratamento de resíduos e contingência sanitária.

Por isso, o fato de o modelo funcionar em determinadas regiões chinesas não significa que seja automaticamente mais competitivo no Brasil.

O aprendizado mais relevante talvez esteja menos na altura dos prédios e mais nas tecnologias instaladas dentro deles.

Automação da alimentação, sensores ambientais, inteligência artificial, rastreamento individual, controle de acesso, redução do contato entre lotes e protocolos avançados de biossegurança são tecnologias que podem influenciar a suinocultura mundial independentemente de os animais estarem no primeiro ou no vigésimo sexto andar.

Youtube video

De curiosidade chinesa a possível tendência mundial

A transformação está apenas começando.

A China continua sendo responsável por aproximadamente metade da produção mundial de carne suína e possui escala suficiente para testar tecnologias que dificilmente seriam experimentadas dessa maneira em outros mercados.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta atualmente outro desafio: controlar sua própria capacidade produtiva. Em 2026, Pequim voltou a pressionar grandes produtores para conter a oferta diante do excesso de produção e da fraqueza dos preços.

É um contraste revelador.

Depois de investir pesadamente para reconstruir e modernizar sua suinocultura após a peste suína africana, a China agora possui gigantes capazes de produzir dezenas de milhões de animais e começa a exportar parte dessa tecnologia.

Os edifícios de 26 andares de Ezhou são a face mais impressionante dessa transformação.

Mas a história que realmente importa para o restante do mundo talvez não seja simplesmente a de porcos vivendo em arranha-céus.

É a transformação da produção animal em uma atividade cada vez mais automatizada, concentrada, monitorada e tecnologicamente controlada — e uma tecnologia que a China já começou a levar para além de suas fronteiras.

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