Captação por Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) despencou 57,5% no ano até julho; juros ainda elevados, avanço das recuperações judiciais e restrição de crédito acendem um alerta especialmente grave para produtores e empresas rurais
O efeito de anos de dinheiro caro começa a aparecer com mais intensidade na economia brasileira — e o agronegócio pode estar entre os setores mais expostos caso o quadro evolua para uma crise de crédito. Mesmo depois de quatro cortes na taxa básica, que reduziram a Selic de 15% para 14% desde março, economistas do mercado financeiro já admitem que uma recessão em 2027 não pode ser descartada.
O alerta foi levantado em reportagem publicada nesta sexta-feira (21) pelo InfoMoney, assinada pelo repórter Angelo Pavini, a partir de avaliações de economistas de instituições financeiras. O diagnóstico é de que o longo período de política monetária restritiva finalmente chegou com força às empresas e às famílias, justamente quando a economia apresenta sinais de desaceleração.
Para o campo, o cenário merece atenção redobrada. O agronegócio chega a esse momento depois de sucessivas safras marcadas por margens mais apertadas, problemas climáticos em algumas regiões, aumento do endividamento e uma explosão das recuperações judiciais. Ao mesmo tempo, uma importante fonte privada de financiamento da cadeia rural está encolhendo: a captação por Certificados de Recebíveis do Agronegócio, os CRA, caiu 57,5% no acumulado do ano até julho.
É uma combinação perigosa: produtores mais endividados, credores mais seletivos e menos dinheiro circulando.
“O impacto do juro demorou, mas chegou”
A avaliação que resume o atual momento foi feita ao InfoMoney por Adauto Lima, economista para o Brasil da Franklin Templeton: “O impacto do juro demorou, mas chegou”.
Segundo o economista, empresas, famílias e o próprio governo brasileiro estão altamente alavancados. Com o custo financeiro permanecendo elevado em 2026 e possivelmente ainda restritivo em 2027, cresce o risco de uma deterioração mais séria do crédito, capaz de atingir a atividade econômica.
Lima estima em aproximadamente 20% a possibilidade de recessão em 2027, embora seu cenário central ainda seja de crescimento de 1,5% do PIB. Mesmo nessa hipótese mais favorável, entretanto, ele considera possível que o Brasil atravesse meses de contração econômica.
Não significa que uma recessão esteja contratada. Outros economistas trabalham predominantemente com um cenário de forte desaceleração. Mas o simples fato de essa possibilidade ter entrado no radar das instituições financeiras revela como o ambiente mudou rapidamente.
E o agronegócio já apresenta sinais concretos desse estresse.
Recuperações judiciais explodem no campo
Antes mesmo de uma eventual recessão, a deterioração financeira já pode ser observada nas fazendas e empresas ligadas ao agro.
Dados divulgados recentemente pela Serasa Experian mostram que o agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial apenas no primeiro trimestre de 2026, avanço de 21,9% diante dos 389 pedidos registrados no mesmo período de 2025. Entre produtores que atuam como pessoa jurídica, foram 196 solicitações, alta de impressionantes 73,5%. A soja liderou esse grupo, com 137 pedidos, seguida pela criação de bovinos, com 42.
O quadro vem de um ano que já havia sido histórico. Em 2025, o agro acumulou 1.990 solicitações de recuperação judicial, maior volume registrado desde o início da série da Serasa, em 2021, e crescimento de 56,4% sobre 2024.
Outro indicador, o Monitor RGF-Bizdoc, que utiliza metodologia diferente e acompanha o estoque de CNPJs em recuperação judicial, apontou 1.263 produtores rurais nessa situação ao final do primeiro semestre de 2026. O número representou crescimento de 66% em um ano e de 21,4% frente ao encerramento de 2025. O levantamento passou a incorporar também microprodutores, o que ajuda a explicar parte da expansão observada.
Quando são acrescentadas empresas de insumos, agroindústrias e companhias de comercialização, o Monitor aponta 1.575 CNPJs ligados à cadeia agropecuária em recuperação judicial, cerca de 20% do estoque nacional acompanhado pelo levantamento.
- O custo do dinheiro está quebrando o agro: recuperações judiciais disparam e acendem alerta no campo
Ou seja: o problema não está apenas nos grandes grupos endividados. A crise financeira começa a atravessar diferentes elos da cadeia.
A inadimplência também confirma a pressão. Segundo a Serasa Experian, o índice entre a população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, avanço de 1,2 ponto percentual em um ano.
CRA cai quase 60%: o que isso significa para o agronegócio?
Talvez um dos dados mais preocupantes para o campo apresentados na reportagem de Angelo Pavini esteja justamente no mercado de capitais.
Até julho, a emissão de debêntures havia recuado 28,7%, enquanto a captação através de Certificados de Recebíveis Imobiliários caiu 23,5%. Nos Certificados de Recebíveis do Agronegócio, a retração chegou a 57,5%.
O CRA funciona, de forma simplificada, como uma ponte entre investidores e empresas do agronegócio. Recebíveis originados em operações da cadeia rural — vendas, fornecimento, financiamento e outros créditos — podem servir de lastro para títulos colocados no mercado. O dinheiro captado retorna à cadeia como fonte de financiamento.
Portanto, uma queda tão forte nas emissões não significa que 57,5% do crédito rural desapareceu — seria incorreto fazer essa equivalência. Mas indica uma retração importante de uma das fontes alternativas de capital que ganharam enorme relevância justamente enquanto o crédito bancário tradicional ficava mais caro e seletivo.
E isso pode ter efeito em cascata.
Com investidores exigindo maior prêmio para assumir riscos, estruturas de crédito ficam mais caras. Empresas que dependem do mercado de capitais podem reduzir a oferta de financiamento. Revendas podem endurecer condições. Tradings podem selecionar mais seus clientes. Fundos podem exigir garantias adicionais.
No fim da cadeia, o produtor pode encontrar menos crédito, taxas maiores, prazos menores e exigência crescente de garantias.
É exatamente o oposto do que necessita um setor que trabalha com ciclos longos de produção e depende de capital antecipadamente para plantar, comprar insumos, adquirir animais, reformar pastagens e financiar máquinas.
O custo do dinheiro já está quebrando empresas do agro
O Compre Rural já havia chamado atenção para esse fenômeno ao mostrar que a atual crise enfrentada por muitos produtores não decorre necessariamente de incapacidade produtiva.
O Brasil continua colhendo grandes safras e mantendo posição de destaque nas exportações mundiais de alimentos. O problema passou a ocorrer, muitas vezes, depois da porteira: na estrutura financeira das propriedades.
Juros elevados, margens comprimidas, sucessivas renegociações e a necessidade de contratar recursos novos para quitar compromissos antigos criaram um círculo perigoso de endividamento. Em alguns casos, propriedades produtivas e tecnicamente eficientes passaram a gerar caixa insuficiente para carregar seu passivo financeiro.
É o paradoxo desta crise: uma fazenda pode produzir bem e, ainda assim, enfrentar insolvência.
Quando o custo do capital cresce acima da capacidade de geração de resultado da atividade, uma parcela cada vez maior da receita deixa de financiar produção, tecnologia e expansão para ser consumida pelo serviço da dívida.
Uma recessão pode atingir o agro de várias maneiras
Uma eventual recessão brasileira em 2027 não significaria necessariamente queda automática da produção agrícola. O agronegócio possui características diferentes de setores mais dependentes exclusivamente do consumo doméstico, e culturas fortemente exportadoras continuam ligadas ao comportamento da economia mundial, ao câmbio e aos preços internacionais.
Mas o canal financeiro pode atingir o campo em cheio.
Uma economia mais fraca normalmente reduz o apetite dos bancos e investidores por risco. Em um ambiente em que as recuperações judiciais rurais já cresceram, a tendência pode ser de critérios ainda mais rigorosos para novos financiamentos.
Produtores considerados mais arriscados poderão enfrentar spreads maiores ou simplesmente não encontrar crédito.
O segundo impacto ocorre sobre os investimentos. Projetos de irrigação, armazenagem, abertura ou recuperação de áreas, confinamentos, compra de máquinas e aquisição de propriedades dependem de financiamento de longo prazo. Com capital caro e maior aversão ao risco, muitos projetos acabam adiados.
Há ainda efeito sobre cadeias dependentes do mercado interno. Uma retração do emprego e da renda pode atingir consumo de proteínas, lácteos, alimentos de maior valor agregado e biocombustíveis de maneira diferente conforme cada mercado.
E existe um quarto risco: o câmbio.
Caso uma deterioração fiscal provoque perda de confiança e valorização do dólar, exportadores podem receber algum benefício em reais. Em contrapartida, fertilizantes, defensivos, máquinas, peças e outros insumos ligados à moeda americana podem ficar mais caros.
Economia já começa a perder velocidade
Na avaliação de Adauto Lima, a economia brasileira já demonstra perda de força neste terceiro trimestre, e o segundo semestre tende a apresentar desempenho inferior ao primeiro.
Para o economista, reduções graduais de apenas 0,25 ponto percentual da Selic por reunião não seriam suficientes para modificar rapidamente o ambiente de crédito. A combinação de alavancagem elevada, retração dos instrumentos de financiamento e pouca liberdade para o Banco Central acelerar os cortes poderia produzir uma ruptura capaz de provocar meses de contração do PIB.
A XP Investimentos também vê enfraquecimento relevante da economia, embora recessão não seja seu cenário central.
O economista Rodolfo Margato considera possível que alguns trimestres apresentem crescimento negativo, mas a casa trabalha atualmente com expansão de 2% do PIB em 2026 e apenas 1% em 2027. A projeção da XP é de Selic a 14% no fechamento deste ano e 11,5% ao término de 2027.
Ou seja: mesmo sem recessão técnica ou queda do PIB no acumulado do ano, o cenário considerado provável por importantes instituições já é de desaceleração forte.
Agro poderá entrar em 2027 fragilizado
Esse talvez seja o ponto que mais preocupa o setor rural.
Uma eventual desaceleração não encontraria o agronegócio começando do zero. Parte das empresas e produtores chegaria a 2027 carregando os efeitos financeiros de 2024, 2025 e 2026.
São contratos renegociados, parcelas prorrogadas, dívidas de curto prazo transformadas em passivos maiores, margens comprimidas e patrimônio comprometido em garantias.
Se o crédito continuar diminuindo enquanto as obrigações contratadas anteriormente permanecem, surge aquilo que o mercado financeiro chama de desalavancagem forçada: empresas precisam reduzir investimentos, vender ativos ou cortar operações para diminuir sua dívida.
No campo, isso pode significar adiar compra de máquinas, diminuir investimento em tecnologia, reduzir confinamentos, vender animais, negociar terras, enxugar estruturas administrativas ou buscar reestruturação dos passivos.
É nesse ponto que uma crise financeira começa a chegar efetivamente dentro da porteira.
El Niño adiciona mais um componente de risco
O cenário para 2027 ainda possui outra variável importante para o agronegócio: o clima.
Na reportagem do InfoMoney, Rodolfo Margato inclui os efeitos do El Niño sobre o agronegócio entre os fatores capazes de limitar o crescimento brasileiro, ao lado do elevado endividamento das famílias, da reforma tributária e de possíveis mudanças nas relações de trabalho.
Para o produtor rural, a coincidência entre risco climático e crédito restrito é especialmente delicada.
Em condições normais, uma quebra de safra já reduz a capacidade de pagamento. Se ocorrer justamente quando instituições financeiras estão mais avessas ao risco, aumenta a dificuldade de obter recursos para atravessar a perda e financiar a safra seguinte.
É justamente assim que problemas conjunturais podem se transformar em crises de liquidez.
Fiscal pode definir o tamanho do problema
Os economistas consultados por Angelo Pavini convergem em outro ponto: a situação das contas públicas será decisiva para a trajetória dos juros e, consequentemente, para o crédito.
Rodolfo Margato alerta que uma deterioração da confiança na condução fiscal poderia elevar o prêmio de risco do Brasil, afetar investimentos e pressionar o dólar e a inflação. Numa situação extrema, o país poderia enfrentar uma combinação de atividade fraca com inflação elevada — a chamada estagflação. Esse, contudo, não é o cenário-base da XP.
Adauto Lima também considera que um ajuste fiscal crível poderia abrir espaço para uma queda mais rápida dos juros, reduzindo posteriormente o custo financeiro das empresas.
Para o agronegócio, essa discussão está longe de ser abstrata.
Uma Selic persistentemente elevada se espalha por praticamente todas as estruturas privadas de financiamento. Ela influencia o custo das CPRs, dos CRA, dos FIDCs, dos financiamentos bancários, das operações com fornecedores e de inúmeras modalidades de capital utilizadas por empresas rurais.
O alerta está aceso no campo
Não há hoje consenso de que o Brasil entrará em recessão em 2027. Há, porém, um movimento claro de economistas e instituições financeiras reconhecendo que o risco deixou de ser desprezível.
E para o agronegócio, talvez a pergunta mais importante nem seja se o PIB brasileiro terminará 2027 positivo ou negativo.
O problema está no caminho até lá.
A queda de 57,5% na captação dos CRA, o avanço da inadimplência rural e a escalada histórica das recuperações judiciais mostram que parte do mecanismo de financiamento que mantém as engrenagens do campo funcionando já está sob pressão.
O produtor brasileiro já atravessou secas, enchentes, quedas de preços, aumento de insumos e sucessivas crises internacionais. O desafio que começa a ganhar força agora é diferente: produzir continua sendo possível; financiar a produção é que está ficando cada vez mais difícil.
E se 2027 trouxer uma desaceleração ainda mais forte da economia acompanhada de retração do crédito, o agronegócio poderá descobrir que o maior risco da próxima safra não estará apenas no clima ou no preço das commodities, mas no preço e na disponibilidade do dinheiro necessário para continuar produzindo.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.