Juros elevados, maior rigor na análise de risco e pressão sobre as margens aceleram busca por novas formas de financiamento da safra; para Ivan Moreno, CEO da Orbia, produtor precisa comparar taxas, prazos e garantias antes de fechar a operação
O acesso ao crédito continua sendo uma das principais engrenagens da produção agropecuária brasileira, mas a forma de financiar uma safra começa a mudar. Com juros mais altos, maior volatilidade das commodities, problemas climáticos e aumento da inadimplência, instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos para liberar recursos ao campo.
Na prática, o produtor enfrenta um ambiente em que não basta apenas encontrar crédito disponível. O desafio passa a ser estruturar a operação de forma que o custo financeiro não consuma uma parcela excessiva da margem da atividade.
Para Ivan Moreno, CEO da Orbia, esse movimento exige uma mudança na maneira como o produtor compara e contrata financiamento.
“A pergunta central deixou de ser apenas ‘onde conseguir recursos?’ e passou a ser ‘como financiar a safra com um custo estrutural que não estrangule a margem da operação?’”, afirma.
Segundo Moreno, a tendência é que produtores passem a depender menos de uma única instituição ou modalidade de financiamento e utilizem diferentes alternativas para compor o custeio da produção.
Crédito mais caro aumenta importância da comparação
Durante muitos anos, boa parte das operações de financiamento rural esteve concentrada em poucos agentes, muitas vezes vinculados à própria compra de insumos.
Esse modelo começa a dividir espaço com estruturas mais abertas, nas quais o agricultor pode comparar diferentes fontes de recursos antes de tomar uma decisão.
“A resposta para essa equação não está em uma única linha de financiamento, mas na capacidade de comparar, combinar e customizar opções”, diz Moreno.
O princípio é semelhante ao utilizado na compra de fertilizantes, sementes ou defensivos: comparar condições antes de fechar o negócio.
No crédito, porém, entram outras variáveis, como taxa de juros, prazo, garantias exigidas, carência e impacto da dívida sobre o fluxo de caixa da propriedade.
Em um ambiente de margens mais apertadas, diferenças aparentemente pequenas podem representar valores relevantes ao final da safra.
Perfil do produtor ganha peso na análise de risco
Outra mudança apontada pelo executivo está na utilização crescente de dados para avaliar o risco individual de cada operação.
Tradicionalmente, parte da análise de crédito no campo esteve baseada em indicadores regionais ou parâmetros relativamente padronizados.
O problema, segundo Moreno, é que esse sistema nem sempre consegue distinguir produtores com diferentes níveis de eficiência financeira e operacional.
“Um produtor altamente profissionalizado e com excelente histórico de pagamento pode acabar pagando o mesmo prêmio de risco que uma operação fragilizada do mesmo município”, explica.
A digitalização permite incorporar à análise informações como histórico de produtividade, capacidade operacional e reputação comercial.
Com esses dados organizados, instituições financeiras conseguem analisar com maior precisão a realidade econômica de cada propriedade.
“A personalização do risco não beneficia apenas as instituições financeiras. Ela devolve ao bom gestor o valor da sua eficiência”, afirma o CEO.
Compra de insumos e crédito começam a seguir caminhos diferentes
Uma das transformações mais relevantes envolve a separação entre a aquisição dos insumos e o financiamento da compra.
No modelo tradicional, a negociação de sementes, fertilizantes ou defensivos muitas vezes estava diretamente vinculada à forma de pagamento oferecida pelo fornecedor ou distribuidor.
As plataformas digitais estão permitindo que essas duas decisões sejam feitas separadamente.
O produtor pode, por exemplo, comprar um insumo no distribuidor que apresentar a melhor condição comercial e financiar a operação com outra instituição que ofereça crédito mais competitivo.
“Hoje, a tecnologia permite uma arquitetura aberta”, afirma Moreno.
Para ele, essa liberdade tende a ampliar o poder de negociação do agricultor.
“É possível combinar diferentes prazos, taxas e garantias para compor o custo total de uma única safra”, explica.
Cada ponto percentual pesa no resultado
A discussão ganha importância à medida que o custo do dinheiro aumenta.
Em uma operação agrícola de grande escala, uma diferença de poucos pontos percentuais na taxa de financiamento pode alterar significativamente o custo total do capital empregado durante o ciclo produtivo.
Por isso, a decisão sobre crédito passa a integrar de maneira mais direta o planejamento econômico da propriedade.
Na avaliação de Moreno, o produtor tende a observar cada vez mais o financiamento como outro componente de custo da produção.
A escolha deixa de estar baseada apenas na disponibilidade do dinheiro e passa a considerar qual estrutura financeira gera menor impacto sobre a rentabilidade da safra.
Digitalização aumenta disputa pelo produtor
O avanço das plataformas financeiras e dos marketplaces também amplia a concorrência entre instituições interessadas em financiar o agronegócio.
Ao reunir diferentes agentes em uma mesma estrutura digital, o produtor consegue visualizar alternativas que antes poderiam exigir negociações separadas com bancos, fintechs, tradings, distribuidores ou outras empresas da cadeia.
Segundo Moreno, o papel da tecnologia é reduzir a distância entre quem precisa de recursos no campo e quem possui capital disponível para financiar a produção.
“Garantir o fluxo de caixa no campo exige mais do que repassar recursos. Exige eficiência de distribuição, transparência de taxas e ambiente concorrencial.”
Para ele, a digitalização não elimina a importância da relação de confiança historicamente construída no setor.
“Não se trata de substituir a relação de confiança do agro, mas de muni-la com dados e concorrência para que o produtor tome decisões financeiras mais inteligentes”, afirma.
Crédito passa a ser parte da estratégia da propriedade
O cenário aponta para uma mudança estrutural: o crédito deixa de ser tratado apenas como uma necessidade operacional e passa a ocupar espaço maior na estratégia de gestão da fazenda.
Para produtores mais capitalizados ou com bom histórico financeiro, a capacidade de apresentar dados consistentes sobre a operação pode se transformar em vantagem na negociação.
Para quem depende fortemente de capital de terceiros, comparar alternativas tende a ser ainda mais importante.
No fim, a discussão deixa de ser simplesmente sobre ter ou não acesso ao crédito rural.
O novo desafio é definir quanto esse dinheiro custa, como ele será pago e qual impacto terá sobre o resultado da próxima safra.
É nesse cenário que tecnologia, dados e maior concorrência entre financiadores começam a redesenhar a arquitetura do crédito no agronegócio brasileiro.
Sobre Ivan Moreno
Ivan Moreno é CEO da Orbia e possui experiência no agronegócio e passagem por multinacionais do setor. É formado em Processamento de Dados pela Universidade Mackenzie, possui MBA em Marketing pela ESPM e participou do Advanced Management Program (AMP 206) da Harvard Business School.
Na Orbia, é responsável pela condução dos negócios e pela implantação da estratégia da empresa. Em 2024, foi reconhecido entre as 100 personalidades mais influentes do agronegócio brasileiro na categoria Tecnologia, Pesquisa e Inovação, em levantamento promovido pelo Grupo Mídia.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.