Crédito contratado para tratores, colheitadeiras e outros equipamentos cai para R$ 2,76 bilhões em nove meses; juros elevados e margens pressionadas aumentam a cautela na renovação da frota
O crédito para máquinas agrícolas perdeu força em três dos principais estados produtores do país. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás somaram R$ 2,76 bilhões em financiamentos entre janeiro e setembro de 2026, contra R$ 4,50 bilhões no mesmo período do ano anterior, uma retração de 38,7%. Os números resultam de levantamento realizado na base Sicor, do Banco Central.
A quantidade de operações caiu ainda mais: foram 3.227 contratos, ante 5.511 entre janeiro e setembro de 2025, redução de 41,4%. No mesmo recorte, o crédito rural destinado a investimentos no país teve queda de 6,6%, mostrando que a retração nas compras financiadas de maquinário foi proporcionalmente bem mais intensa. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Goiás registra a maior retração entre os três estados
Goiás apresentou a queda mais acentuada. O financiamento destinado a máquinas agrícolas passou de aproximadamente R$ 1,43 bilhão para R$ 675,8 milhões, recuo de 52,7%. O número de contratos caiu de 2.106 para 979.
Mato Grosso continuou respondendo pelo maior volume entre os três estados, mas também registrou redução relevante, de cerca de R$ 2,50 bilhões para R$ 1,70 bilhão. Em Mato Grosso do Sul, as contratações diminuíram de R$ 571,6 milhões para aproximadamente R$ 386 milhões.
O movimento ocorre em um período no qual o mercado de máquinas e equipamentos agrícolas já vinha mostrando perda de ritmo, pressionado pelo custo financeiro e pela maior seletividade na concessão de crédito.
Colheitadeiras concentram a queda mais forte
Entre as principais categorias analisadas, as colheitadeiras tiveram o recuo mais expressivo. O volume contratado nos três estados caiu de R$ 1,55 bilhão para R$ 776,6 milhões, redução de 49,9%. O número de contratos passou de 1.047 para 515.
Nos tratores, o financiamento recuou 32,8%, para cerca de R$ 686,1 milhões. Já as operações destinadas a máquinas e implementos agrícolas alcançaram aproximadamente R$ 1,27 bilhão, com queda de 33,7% na comparação anual.
A dimensão desses investimentos torna a decisão de compra especialmente sensível ao custo do capital. Tratores e colheitadeiras normalmente permanecem vários anos na propriedade, o que faz com que juros, prazo do financiamento, capacidade de pagamento e expectativa de retorno tenham peso direto na substituição da frota.
Juros e crédito mais seletivo ajudam a explicar a cautela
A redução ocorre mesmo com o Plano Safra 2026/27 prevendo R$ 140,2 bilhões para investimentos dentro da agricultura empresarial. As taxas das linhas de investimento variam de 8,5% a 12,5% ao ano, conforme o programa e a finalidade.
No Moderfrota, voltado à modernização da frota, as condições definidas para o ciclo estabelecem juros de até 11,5% ao ano para produtores enquadrados no Pronamp e de até 12,5% ao ano para os demais beneficiários enquadrados nas condições da linha.
Fora das linhas controladas, o ambiente financeiro segue restritivo. A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, após decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) já apontava, em março, inadimplência elevada, maior rigor na concessão de crédito, juros altos e preços menores de commodities entre os fatores que pressionavam o mercado. Segundo a entidade, diante de margens reduzidas, agricultores tendem a priorizar despesas necessárias à produção antes de renovar equipamentos.
Esse comportamento também ajuda a explicar por que os tratores usados ganharam espaço em 2026. Preservar caixa, prolongar a utilização da frota existente ou recorrer ao mercado de seminovos passam a ser alternativas quando a compra de um equipamento novo exige financiamento mais pesado.
Moderfrota acompanha o movimento de retração
A desaceleração não se limita a MT, MS e GO. No país, levantamento feito na base Sicor mostra que as contratações do Moderfrota ficaram em aproximadamente R$ 2,57 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, ante R$ 5,08 bilhões no mesmo período de 2025, queda próxima de 49%.
A tendência já havia aparecido no ciclo anterior. Dados oficiais do Ministério da Agricultura mostram que, entre julho de 2025 e abril de 2026, as concessões do Moderfrota haviam diminuído de R$ 7,934 bilhões para R$ 3,638 bilhões, retração de 54%.
Ao mesmo tempo, o Plano Safra atual aumentou o volume global destinado aos investimentos. Isso mostra que disponibilidade programada de recursos e contratação efetiva não são necessariamente a mesma coisa. O acesso depende de enquadramento, disponibilidade na instituição financeira, análise de risco, garantias e capacidade financeira do tomador.
A diferença entre recurso anunciado e crédito efetivamente contratado já aparece como uma questão central no acesso ao financiamento do Plano Safra.
Consórcios também perdem ritmo nas máquinas agrícolas
A desaceleração aparece ainda em outra modalidade de aquisição. Segundo a ABAC, os consórcios de máquinas agrícolas comercializaram R$ 17,57 bilhões em créditos entre janeiro e setembro de 2026, contra R$ 19,70 bilhões no mesmo período de 2025. A queda foi de 10,8%.
As novas adesões recuaram 9,2%, de 78,15 mil para 70,95 mil cotas. Em sentido contrário, o número estimado de participantes ativos aumentou 4,8%, chegando a 488,17 mil, enquanto o tíquete médio atingiu R$ 284,42 mil em setembro, alta de 10,6% em relação ao mesmo mês de 2025.
A própria ABAC ressalta que esses números são estimativas. A entidade considera que as máquinas agrícolas representam 51% dos participantes do segmento de veículos pesados e aplica essa proporção aos indicadores do setor.
Renovação da frota entra numa conta cada vez mais criteriosa
A retração do crédito não significa que tratores e colheitadeiras tenham deixado de ser necessários. Em muitas propriedades, a mecanização é decisiva para cumprir janelas curtas de plantio e colheita, reduzir perdas e aumentar a capacidade operacional.
O que muda é a conta financeira. Com juros ainda elevados e acesso mais rigoroso ao crédito, o produtor precisa comparar o custo de manutenção da máquina atual com entrada, parcelas, prazo e ganho de eficiência esperado de um equipamento novo.
Nesse cenário, decisões sobre substituir ou modernizar uma máquina tendem a depender menos da simples disponibilidade de tecnologia e mais da capacidade de o investimento gerar retorno sem comprometer o caixa da propriedade.
Os próximos meses mostrarão se a redução das taxas de juros, uma melhora nas margens agrícolas ou maior execução das linhas do Plano Safra serão suficientes para destravar parte da demanda. Por enquanto, os números do Sicor deixam claro que a renovação da frota perdeu velocidade justamente em uma das regiões mais mecanizadas e relevantes para a produção brasileira.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.