Possibilidade de ampliar as exportações de carne bovina à China é positiva, mas negociação e logística podem limitar os efeitos das 80 mil toneladas discutidas para 2026.
A possibilidade de o Brasil utilizar parte da cota uruguaia para ampliar as exportações de carne bovina à China trouxe otimismo ao mercado. Entretanto, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avalia que o impacto da medida sobre os embarques de 2026 deverá ser limitado, com potencial de ganhar importância em 2027.
O principal obstáculo é o calendário. Além da necessidade de autorização chinesa, o transporte marítimo entre Brasil e China leva aproximadamente 45 a 60 dias. Isso reduz a janela para que os frigoríficos aproveitem ainda neste ano as cerca de 80 mil toneladas potencialmente disponíveis, segundo levantamento da Safras & Mercado.
China precisa autorizar a operação
Apesar do anúncio após o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Yamandú Orsi, ainda não havia confirmação oficial de Pequim permitindo que a carne brasileira fosse contabilizada na cota uruguaia.
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, avalia que outubro será decisivo. Uma autorização rápida poderia estimular novas compras de boi-China, enquanto os frigoríficos organizam os embarques de 2027.
O volume discutido equivale, aproximadamente, a 320 mil a 400 mil bovinos, dependendo do rendimento e da composição das cargas. Isso, porém, não representa demanda imediata por animais.
Cota brasileira pode acabar já em março de 2027
A preocupação da indústria está no próximo ano. A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,128 milhão de toneladas em 2027, que poderá ser consumida entre março e abril, conforme alerta de Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Nesse cenário, o aproveitamento de volumes adicionais poderia ajudar a preservar as exportações brasileiras ao longo do ano.
A importância do mercado chinês ficou evidente em agosto, quando os embarques brasileiros recuaram para aproximadamente 16,1 mil toneladas, contra 158,3 mil toneladas em junho, uma queda próxima de 90%.
Boi gordo avança e mercado futuro se aproxima dos R$ 400
Enquanto a negociação comercial avança, a arroba segue valorizada no Brasil. O Indicador Cepea/Esalq encerrou segunda-feira (21) em R$ 354,65/@ à vista, enquanto os contratos futuros de março de 2027 chegaram a R$ 391/@.
A diferença de R$ 36,35/@ demonstra a expectativa de preços mais elevados nos próximos meses, mas não garante que essa valorização chegará integralmente ao mercado físico.
Para o pecuarista, há ainda o desafio da reposição. Com bezerros próximos de R$ 4 mil em algumas praças, uma arroba mais cara não significa necessariamente maior rentabilidade.
A perspectiva, portanto, é positiva para as exportações, mas exige cautela na formação dos preços do boi gordo. Sem autorização chinesa e tempo hábil para os embarques, a cota uruguaia pode contribuir mais para o mercado brasileiro em 2027 do que no restante de 2026.
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