Com a cota chinesa cada vez mais próxima do limite, especialistas divergem sobre os próximos passos de Pequim. Enquanto o mercado acompanha os embarques com atenção, cresce a preocupação com uma possível taxação de 55% sobre parte da carne brasileira
A poucos dias do início do segundo semestre, uma pergunta domina as conversas entre pecuaristas, exportadores e frigoríficos brasileiros: a China irá estender a cota de importação de carne bovina brasileira ou deixará que o limite seja atingido, impondo uma tarifa de 55% sobre novos embarques?
A resposta ainda é um mistério. E justamente essa incerteza pode ser um dos principais fatores de volatilidade do mercado do boi gordo nos próximos meses.
Desde o início da vigência da atual cota de importação, a China estabeleceu um limite de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas de carne bovina brasileira que podem entrar no país sem a incidência da sobretaxa. Acima desse volume, passa a valer uma tarifa de 55%, o que reduz significativamente a competitividade da proteína brasileira no principal destino das exportações nacionais.
Como a China compra cerca de 20% de toda a produção brasileira de carne bovina e responde por mais da metade das exportações do setor, qualquer mudança nas regras de importação costuma provocar reflexos imediatos sobre os preços da arroba no Brasil.

Segundo dados divulgados pela Scot Consultoria, os desembarques seguem acelerados.
“A China divulgou os volumes de carne bovina brasileira recebidos até maio. No mês, foram desembarcadas 110,9 mil toneladas, levando o acumulado para 723,7 mil toneladas, o equivalente a 65,4% da cota sem o tarifaço.
Estima-se que, em junho, os desembarques estejam em 945,4 mil toneladas. Com isso, restariam 160,6 mil toneladas da cota, volume que pode estar em trânsito, correspondente aos embarques de junho.
Nesse cenário, a carne embarcada no início de julho poderá chegar à China já sujeita à taxação de 55,0%.”
Os números reforçam que o limite está muito próximo de ser alcançado, aumentando a expectativa sobre qual será a decisão das autoridades chinesas. 
StoneX acredita que prorrogação da cota não é o cenário mais provável
Durante a palestra “Parâmetros para o Hedge em um mercado tão volátil, que é o mercado do boi”, realizada na Feicorte 2026, em Presidente Prudente, o gestor de Hedge e consultor de Gerenciamento de Risco da StoneX, Gustavo Machado, afirmou que o mercado não deve contar com uma eventual flexibilização automática da cota chinesa.
Segundo ele, muitos agentes ainda apostam que Pequim poderá ampliar o limite, mas essa não é a visão da consultoria.
“Há a expectativa que a China possa flexibilizar essa questão das cotas, e essa não é a nossa opinião.”
Na avaliação do especialista, a investigação conduzida pelos chineses sobre as importações de carne bovina demonstra planejamento de longo prazo e não uma medida temporária.
“Os chineses não pensam como nós. A visão deles é de longo prazo.”
Machado também destacou que seria incoerente, na sua avaliação, que a China realizasse uma investigação durante aproximadamente dois anos para, logo em seguida, simplesmente ignorar os limites estabelecidos.
“Eu não acho que eles vão fazer isso.”
Apesar dessa avaliação, ele reconhece que ninguém possui uma resposta definitiva sobre o comportamento do governo chinês.
“Ninguém tem a resposta.”
Para o consultor, outro ponto importante será a sazonalidade dos embarques. Segundo ele, existe expectativa de que a China intensifique as compras no final do ano, já pensando na renovação da cota de 2027, fator que também poderá alterar o comportamento do mercado internacional da carne bovina.
Mercado trabalha com muitas hipóteses
Quem também acompanha esse movimento de perto é Lorenzo Junqueira, diretor da Agro Bacuri e fundador do Balcão do Boi.
Para ele, a falta de transparência sobre os números oficiais aumenta ainda mais a insegurança dos participantes do mercado. “A verdade é que ninguém sabe ao certo quanto dessa cota já foi preenchido e quanto ainda falta. Os chineses, estratégicos como são, podem muito bem conduzir esses números de acordo com os próprios interesses. O fato é que esse limite está cada vez mais próximo, e o pecuarista brasileiro pode acabar sendo pego de surpresa. Em momentos como este, informação, planejamento e cautela valem ouro. O importante é saber aproveitar a volatilidade do mercado a nosso favor” – disse o pecuarista.
A declaração reforça uma percepção compartilhada por muitos analistas: mais importante do que tentar prever a decisão da China é estar preparado para reagir rapidamente às mudanças de mercado.
Segundo semestre promete fortes emoções
Caso a China mantenha a cota sem qualquer flexibilização, parte dos embarques brasileiros poderá enfrentar custos significativamente maiores, reduzindo a competitividade da carne nacional naquele mercado.
Por outro lado, uma eventual extensão da cota ou uma mudança nas regras de importação poderia aliviar as preocupações dos exportadores e sustentar os preços da arroba.
Enquanto essa definição não chega, o cenário permanece cercado de incertezas.
Para o pecuarista, o momento exige atenção redobrada às informações de mercado, planejamento comercial e utilização de ferramentas de gerenciamento de risco, especialmente em um semestre que já começa cercado por expectativas de maior volatilidade.
E você, produtor? Acredita que a China irá estender a cota de importação ou permitirá que o limite seja atingido, iniciando a cobrança da tarifa de 55%? Como está se preparando para enfrentar a volatilidade que pode marcar o mercado do boi gordo neste segundo semestre?
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