Controle do carrapato bovino desafia o rebanho e abre espaço para bioinsumos na pecuária

Resistência aos carrapaticidas estimula busca por alternativas biológicas; indústria cobra regras específicas para levar novas tecnologias ao produtor com segurança.

O controle do carrapato bovino coloca a pecuária diante de um desafio que vai além da escolha do produto aplicado no rebanho. Com populações do parasita resistentes a diferentes princípios ativos, produtores precisam preservar a eficiência dos tratamentos e conter prejuízos à produtividade. Nesse cenário, bioinsumos desenvolvidos para o manejo animal ganham espaço nas pesquisas e na agenda da indústria. Perdas bilionárias na pecuária ampliam espaço para bioinsumos no manejo animal, mas avanço do segmento depende de regulação, aponta ANPII Bio.

A dimensão econômica ajuda a explicar esse interesse. Um estudo de Grisi e colaboradores, publicado em 2014 e citado em materiais técnicos da Embrapa, estimou em US$ 3,24 bilhões por ano as perdas associadas ao carrapato no Brasil. O valor é uma referência histórica, e não um levantamento atualizado de 2026, mas evidencia o peso do problema para a atividade.

Controle do carrapato bovino: Resistência aumenta a pressão por novas ferramentas

O avanço da resistência compromete o resultado dos tratamentos e amplia a procura por tecnologias que possam integrar o manejo sanitário. Isso não significa abandonar os produtos convencionais, mas ampliar as ferramentas disponíveis e utilizá-las com critérios técnicos.

Para Caio Monteiro, pesquisador da área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), esse movimento exige condições para transformar conhecimento científico em soluções acessíveis ao campo.

“Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos”, afirma.

O pesquisador relaciona essa discussão ao conceito de Saúde Única, que considera a conexão entre saúde animal, humana e ambiental.

Como os biológicos podem atuar contra os parasitas

Entre as alternativas estudadas estão fungos capazes de infectar carrapatos, conhecidos como entomopatogênicos. Conforme a tecnologia e a finalidade de uso, as pesquisas envolvem aplicações nos animais ou no ambiente, buscando atingir diferentes fases do parasita.

Embora compartilhem bases tecnológicas com os biológicos agrícolas, os produtos destinados à pecuária apresentam particularidades. A interação com os animais exige avaliação de segurança, protocolos adequados e comprovação de desempenho nas condições de aplicação.

Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio), destaca essa diferença:

“Do ponto de vista da base tecnológica, há pouca ou nenhuma diferença entre os biológicos de uso animal e os de uso agrícola. As diferenças mais relevantes estão relacionadas ao contexto de uso e às exigências regulatórias.”

Outra frente mencionada pelo setor envolve os bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Eles vêm sendo pesquisados para aplicações na produção animal, inclusive voltadas a infecções do trato gastrointestinal. Trata-se, porém, de uma linha distinta do controle de carrapatos: resultados contra bactérias não comprovam eficácia contra parasitas, nem autorizam a substituição indiscriminada de tratamentos.

Indústria cobra regras específicas para o uso na pecuária

A Lei nº 15.070/2024 estabelece o marco legal dos bioinsumos e contempla aplicações agrícolas, pecuárias, aquícolas e florestais. A legislação abrange atividades como produção, registro, comercialização, pesquisa e fiscalização desses produtos.

Segundo a ANPII Bio, o avanço das tecnologias destinadas ao controle de parasitas externos depende de regras que atendam às particularidades do uso animal. A entidade ampliou sua atuação para representar também empresas desse segmento e defende maior previsibilidade para os investimentos.

“O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação”, afirma Larissa Bonotto, diretora de operações da associação.

Entre as propostas apresentadas pela entidade estão critérios para validar metodologias analíticas, requisitos de registro de estabelecimentos e identificação dos ativos biológicos em nível de cepa. A associação também defende que informações sobre efeitos comprovados contra parasitas possam constar em rótulos e bulas, respeitando os limites regulatórios aplicáveis.

O que muda para o produtor rural

Para quem está na fazenda, o interesse pelos bioinsumos precisa se traduzir em controle eficiente, segurança para o rebanho e viabilidade econômica. A origem biológica, por si só, não garante esses resultados.

A adoção exige atenção à finalidade autorizada do produto, às orientações de aplicação e às evidências de eficácia. Também é necessário avaliar como a ferramenta se encaixa no manejo da propriedade, com acompanhamento técnico.

O potencial está em ampliar as opções diante de um problema persistente. Transformar essa promessa em resultado no campo depende de pesquisa, qualidade industrial e regras claras, para que a inovação ajude a reduzir perdas sem criar novas incertezas para o pecuarista.

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