Controle de javalis vai além da caça e setores discutem nova estratégia para o Brasil

Encontro reuniu setor produtivo, governo, pesquisa e especialistas para transformar o controle dos javalis em uma ação coordenada, com propostas que envolvem biossegurança, tecnologia, monitoramento, rastreabilidade e definição de responsabilidades.

O avanço dos javalis e javaporcos pelo território brasileiro começa a ganhar uma dimensão que ultrapassa os prejuízos provocados dentro das propriedades. A disseminação de uma espécie invasora altamente adaptável, capaz de destruir lavouras e circular por áreas de produção animal, está levando entidades do agro, pesquisadores e autoridades a discutir uma estratégia mais ampla e permanente de controle no país.

A dimensão do problema apareceu novamente nesta semana. Levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), realizado com 76 Sindicatos Rurais, apontou que 85,5% das regiões representadas pelas entidades que responderam à pesquisa registram a presença de javalis nas lavouras.

O dado foi apresentado no Fórum Javali, realizado na terça-feira (15), que reuniu representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Embrapa, especialistas e empresas ligadas ao manejo.

Mais do que discutir a retirada dos animais das propriedades, o encontro colocou sobre a mesa uma questão mais complexa: como impedir que uma espécie já disseminada em diferentes partes do Brasil continue ampliando os danos econômicos, ambientais e sanitários.

Javali já está registrado em 15 unidades da Federação

O problema está longe de se restringir a São Paulo.

Segundo o Ibama, há registros da presença de javalis em 15 unidades da Federação: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Roraima, Tocantins, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O Sus scrofa é nativo da Europa, Ásia e norte da África e foi introduzido no Brasil a partir da década de 1960, principalmente para produção de carne na Região Sul. Fora de sistemas controlados, porém, encontrou condições favoráveis para se reproduzir e ocupar novos territórios.

A combinação entre capacidade de adaptação, reprodução, comportamento oportunista e ausência de predadores naturais suficientes tornou sua expansão particularmente difícil de controlar.

O Ibama classifica o javali como espécie exótica invasora e lembra que o animal integra a relação das cem piores espécies invasoras do mundo. O controle populacional no Brasil é autorizado desde 2013 e está submetido a regras específicas.

O prejuízo não termina na planta comida

A imagem mais conhecida do problema é a de grupos de javalis entrando em plantações durante a noite. Mas o impacto econômico pode ser consideravelmente maior do que a quantidade de grãos efetivamente consumida.

Os animais podem derrubar plantas, pisotear áreas cultivadas, revolver o solo, danificar cercas e outras estruturas e aumentar os gastos com monitoramento e proteção das propriedades.

Milho, soja e outras culturas presentes justamente em algumas das regiões de maior ocorrência estão entre as atividades expostas.

Em áreas severamente afetadas, a Faesp cita relatos localizados em 2026 de perdas que chegaram a 40% em lavouras de milho. Isso não significa uma perda média nacional — trata-se de situações específicas —, mas ajuda a dimensionar o potencial de dano quando populações numerosas passam a utilizar repetidamente uma mesma área agrícola.

Uma avaliação técnica publicada pela Embrapa Pantanal já havia analisado o impacto provocado pelo javali em lavouras de milho no Mato Grosso do Sul, reforçando que o problema precisa ser acompanhado também sob a perspectiva econômica da propriedade.

Há ainda um efeito menos visível: quanto maior a população e a área ocupada pelos animais, mais complexo e caro tende a se tornar o controle.

A preocupação que vai além das lavouras: sanidade

Existe outro motivo para o assunto estar recebendo atenção crescente: a defesa sanitária da suinocultura brasileira.

Javalis pertencem ao mesmo grupo biológico dos suínos domésticos e podem participar da dinâmica de circulação de enfermidades que atingem suídeos.

Entre as maiores preocupações internacionais está a Peste Suína Africana (PSA), doença viral altamente contagiosa que afeta suínos domésticos, javalis e seus cruzamentos. A enfermidade não representa risco para seres humanos.

O Brasil permanece livre da PSA, mas justamente por isso a prevenção possui grande importância econômica.

Em diferentes partes do mundo, populações de javalis tiveram papel relevante na epidemiologia da doença. A Embrapa recomenda, entre outras medidas preventivas, evitar o contato entre suínos asselvajados e domésticos e reforçar a biosseguridade das granjas localizadas em regiões onde esses animais circulam.

O próprio Mapa orienta agentes envolvidos no manejo populacional a comunicar imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial a identificação de javalis encontrados mortos ou doentes e a adotar procedimentos de limpeza e desinfecção de equipamentos, roupas e calçados.

Nesse contexto, controlar javalis deixa de ser apenas uma discussão ambiental ou agrícola. Passa também a integrar a estratégia de proteção de uma das cadeias pecuárias mais importantes do Brasil.

“Vai além da caça”

Esse foi um dos principais pontos defendidos durante o fórum.

Para Julio Daniel do Vale, especialista da CNA, tratar a gestão da espécie simplesmente como atividade de caça reduz um problema que exige planejamento, monitoramento, continuidade e estratégias diferentes conforme a densidade populacional dos animais.

A lógica apresentada é relativamente simples.

Em regiões onde o javali ainda não está presente, o esforço deve estar concentrado na prevenção da entrada e estabelecimento da espécie.

Onde existem populações pequenas, a possibilidade de erradicação local pode ser perseguida.

Nas regiões em que a população já está estabelecida e apresenta elevada concentração, entretanto, o trabalho passa a envolver contenção, redução populacional, monitoramento e avaliação dos prejuízos.

Isso ajuda a explicar por que ações isoladas tendem a apresentar resultados limitados. Javalis não respeitam os limites das propriedades rurais. Um grupo retirado de determinada fazenda pode ser substituído por animais provenientes de áreas vizinhas se não houver manejo coordenado em escala territorial.

Tecnologia começa a entrar no controle

Outro ponto que começa a ganhar espaço é a utilização de tecnologia.

Monitoramento por câmeras, sistemas de georreferenciamento, armadilhas de captura coletiva, bancos de dados e ferramentas de rastreabilidade podem ajudar a identificar deslocamentos e áreas de concentração.

O desafio é transformar registros isolados em inteligência territorial capaz de orientar onde, quando e como realizar o manejo.

O Brasil já possui o Sistema Integrado de Manejo de Fauna (Simaf), utilizado para autorizações e relatórios relacionados ao controle. O Ibama determina que interessados no manejo sigam procedimentos específicos, incluindo inscrição no Cadastro Técnico Federal, regularidade cadastral, autorização e apresentação dos relatórios correspondentes.

Ou seja: embora o controle seja permitido, não se trata de uma atividade sem regras.

São Paulo acelera discussão sobre um plano próprio

A movimentação paulista acrescenta outro elemento importante ao debate.

Poucos dias antes do fórum, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo publicou a Resolução SAA nº 63, de 10 de setembro de 2026, relacionada ao grupo intersecretarial responsável pelos estudos e pela elaboração do Plano de Manejo e Monitoramento — Plano de Ações Javali São Paulo.

A norma estabelece prazo máximo de 45 dias para conclusão dos trabalhos e apresentação dos resultados pelo grupo.

A iniciativa estadual mostra uma tendência que poderá ganhar força em outras regiões: complementar as diretrizes nacionais com estratégias adaptadas às condições locais de produção, densidade populacional e risco sanitário.

Setor pede menos burocracia e mais coordenação

Para o presidente da Faesp, Tirso Meirelles, o avanço do problema exige simplificação das normas, maior segurança jurídica, capacitação para manejo, treinamento em biossegurança, rastreabilidade e utilização de novas tecnologias.

“O javali é uma ameaça à segurança do produtor rural e à produção. Precisamos investir nesse processo de manejo e controle de forma coletiva, com esforços reunidos em torno da sanidade animal e vegetal, bem como de projetos que contribuam para o produtor e para o país como um todo”, afirmou durante o encontro.

A discussão sobre burocracia é especialmente relevante porque existe uma diferença entre permitir o controle e conseguir executá-lo de maneira coordenada, segura e contínua em grandes extensões territoriais.

É justamente nesse ponto que entidades do setor enxergam uma das principais lacunas atuais.

O Brasil já possui um Plano Javali

O país não parte do zero.

Existe um Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali, estruturado pelo Ibama em conjunto com órgãos ambientais e o Ministério da Agricultura. O manejo também possui regulamentação específica desde 2013.

O desafio agora é transformar diretrizes, dados de campo, defesa sanitária, tecnologia e atuação dos produtores em uma estrutura suficientemente integrada para acompanhar uma espécie que já ocupa extensa parcela do território.

Em 2026, inclusive, iniciativas de monitoramento continuam avançando. Uma pesquisa nacional sobre “Suínos Asselvajados – Percepção de Presença e seus Impactos no Brasil (2025/2026)” buscou reunir informações diretamente das propriedades para dimensionar presença, prejuízos e impactos sanitários, ambientais e econômicos.

Esse tipo de levantamento é estratégico porque ainda existe uma dificuldade central: saber com precisão onde estão as maiores populações, como elas estão se deslocando e qual o tamanho real do prejuízo causado ao produtor brasileiro.

O problema muda quando deixa de ser de uma propriedade

Talvez esse seja o ponto mais importante do debate atual.

Um produtor pode reforçar cercas. Outro pode monitorar sua lavoura. Um terceiro pode realizar o manejo autorizado. Mas, quando uma população de animais se desloca entre propriedades, municípios e até estados, a resposta individual passa a ter alcance limitado.

Por isso, a discussão começa a migrar do simples “controle do javali” para um modelo de gestão territorial da espécie, envolvendo propriedades vizinhas, sindicatos, órgãos ambientais, defesa sanitária, pesquisadores e poder público.

É uma mudança importante de abordagem.

O javali continuará sendo um problema de quem encontra uma lavoura destruída pela manhã. Mas, à medida que sua presença se espalha pelo território, o custo potencial deixa de estar apenas dentro daquela fazenda e passa a alcançar produção agrícola, biodiversidade e a própria proteção sanitária da pecuária brasileira.

É justamente essa dimensão que explica por que o assunto voltou ao centro da agenda do agro em 2026 — e por que a construção de uma estratégia permanente tende a ser muito mais importante do que ações isoladas de controle.

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