Os estudos avaliaram aspectos como biodiversidade, armazenamento de carbono e qualidade da água e também apontaram possibilidades de geração de renda associadas à conservação.
Resultados de quatro anos de pesquisa do projeto EcoSiPas no Cerrado mineiro mostram o potencial de sistemas produtivos que mantêm árvores nativas para conciliar produção agropecuária e conservação ambiental. Os estudos avaliaram aspectos como biodiversidade, armazenamento de carbono e qualidade da água e também apontaram possibilidades de geração de renda associadas à conservação.
A iniciativa é conduzida por um consórcio científico internacional composto por instituições do Brasil, da Alemanha e dos Estados Unidos e atua nas bacias hidrográficas dos rios Urucuia e Pardo, no noroeste e no norte de Minas Gerais. Participam do projeto a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), instituições parceiras, agricultores e organizações civis.
A estratégia central do projeto apoia-se no fortalecimento e na valoração dos sistemas silvipastoris (SSPs) autóctones — modelos produtivos que integram árvores nativas, pastagens e criação de gado no mesmo espaço agrícola. Para transformar o manejo sustentável do solo em receita concreta, a equipe estruturou mecanismos de monetização que incluem sistemas de rotulagem e certificação, agregação de valor comercial aos produtos florestais não madeireiros (PFNM) e comercialização de créditos de carbono.
O Cerrado brasileiro é considerado um ambiente de relevância global, mas enfrenta ameaças severas provocadas pela substituição contínua de sua vegetação nativa pela expansão acelerada da agricultura e pelo avanço das pastagens. Segundo o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Aldicir Scariot, esse processo de transformação do uso do solo resulta na perda sistemática de serviços ecossistêmicos fundamentais para a qualidade de vida e o equilíbrio ambiental em todo o País. Os estudos desenvolvidos indicam caminhos viáveis para conciliar a preservação do bioma com a geração de renda no campo.
Workshop reúne parceiros para discutir resultados
Entre 22 e 24 de setembro, integrantes do EcoSiPas se reunirão na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília (DF), para consolidar e discutir os resultados obtidos ao longo dos quatro anos do projeto. O encontro também abordará a elaboração de publicações científicas, novas oportunidades de cooperação e ações de transferência de conhecimento.
No último dia, a programação será voltada ao diálogo com representantes da sociedade civil, cooperativas de produtores e gestores públicos. Entre os temas estão os resultados das diferentes frentes de pesquisa, alternativas de geração de renda associadas à conservação do Cerrado e recomendações para políticas públicas.
Cinco frentes analisam conservação, produção e geração de renda
Ao longo de quatro anos de pesquisas aplicadas, a equipe do projeto EcoSiPas atuou em cinco frentes principais de trabalho. Na primeira etapa, foram coletados dados sobre vegetação, solo e água de diferentes modalidades de uso da terra em ambas as bacias hidrográficas. A equipe mapeou a distribuição espacial atual do solo e construiu modelos sobre a ocupação futura em diferentes cenários de mudanças climáticas e estratégias de manejo. Os estudos de solo permitiram associar os usos da terra aos valores de fertilidade e textura dos solos, composição e riqueza de plantas, volume de biomassa vegetal, quantidade de carbono, hidrologia e topografia nas bacias hidrográficas avaliadas no ecossistema.

Equipe coletando amostras de solo para estimar a quantidade de carbono.
A segunda frente de trabalho quantificou os serviços ecossistêmicos prestados pelos principais usos da terra nas regiões analisadas. Foram coletadas mais de 2.200 amostras de vegetação e de solos em 200 áreas para avaliar a biodiversidade de plantas e o volume de biomassa. Os cientistas também analisaram o impacto da presença ou ausência de vegetação nativa na qualidade da água dos riachos em diferentes usos do solo. Embora os dados sigam em análise devido ao grande volume acumulado, os pesquisadores constataram que áreas de sistemas silvipastoris (SSP) na bacia do rio Pardo abrigam até 20 espécies de árvores, índice que não difere significativamente de amostras de Cerrado nativo.

Na vertente socioeconômica e comportamental, a terceira e a quarta frentes do consórcio avaliaram os fatores sociais, culturais e econômicos que determinam a adoção e o manejo dessas áreas por parte de agricultores e pecuaristas locais. Foram realizadas mais de 300 entrevistas com produtores rurais e extensionistas. Na bacia do Rio Pardo, os resultados indicam que agricultores com maior percepção ambiental se mostram mais propensos a adotar os sistemas silvipastoris (SSPs), ilustrando a importância do conhecimento ecológico na tomada de decisão.
O estudo destacou ainda a atuação das mulheres, que desempenham tarefas essenciais de coleta e comercialização de produtos extrativistas não madeireiros, como o pequi, nas áreas de manejo integrado. As comunidades locais identificaram os serviços ecossistêmicos relacionados à água como prioridade máxima, seguidos pela regulação climática, pela fertilidade do solo e pela provisão de alimentos.
A quinta frente estruturou modelos de negócios focados na monetização dos serviços ambientais prestados pelos sistemas silvipastoris (SSP). Em parceria com uma empresa europeia especializada em créditos de carbono, a iniciativa definiu os requisitos para viabilizar essa receita nas bacias hidrográficas analisadas. A estratégia baseia-se no princípio da adicionalidade, segundo o qual os créditos só serão válidos se as reduções ou remoções de emissões ocorrerem exclusivamente por causa do projeto de carbono e não em condições normais. Assim, converte pastagens degradadas em sistemas integrados com árvores, o que garante a captura contínua de carbono por meio da expansão das áreas de manejo sustentável.
A etapa final está centrada na elaboração de recomendações práticas para o aprimoramento de políticas públicas e na criação de ferramentas de apoio à tomada de decisão voltadas a gestores governamentais e produtores rurais. Simultaneamente, o projeto realiza a transferência direta de conhecimento aos agricultores, que recebem relatórios detalhados com as análises de solo de suas propriedades, acompanhados de materiais educativos sobre a riqueza do Cerrado, o manejo voltado à produção de água e as vantagens dos sistemas silvipastoris.
Além da investigação técnica, a iniciativa priorizou a formação científica e o inter-relacionamento acadêmico internacional entre pesquisadores seniores e cientistas em início de carreira. Graças a fontes de apoio adicionais, o programa viabilizou o intercâmbio de dez pesquisadores brasileiros na Alemanha e o recebimento de nove pesquisadores alemães no Brasil, promovendo uma troca de experiências fundamental para a capacitação de recursos humanos em áreas estratégicas para a sustentabilidade.

Equipe coletando amostras de solo para estimar a quantidade de carbono.
O consórcio
O projeto EcoSiPas é financiado com recursos do Ministério da Agricultura, Alimentação e Identidade Regional da Alemanha (BMLEH). A execução da proposta envolve um ecossistema diversificado e multissetorial de instituições de ensino, pesquisa e extensão. No Brasil, participam da iniciativa a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Central do Cerrado, o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas Gerais (CAA) e a Cooperativa Regional de Produção e Comercialização da Agricultura Familiar e Extrativismo no Grande Sertão Veredas (Copabase).
A cooperação internacional é complementada por instituições de ensino superior e pesquisa da Alemanha e dos Estados Unidos. Da parte alemã, integram o consórcio a Universidade de Ciências Aplicadas de Weihenstephan-Triesdorf (HSWT), a Universidade de Ciências Aplicadas dos Vales dos rios Reno e Waal (HSRW) e a Universidade de Freiburg. Por parte dos Estados Unidos, a iniciativa conta com a colaboração científica e metodológica da Universidade de Maryland (UMD).
Resultados e novos planejamentos
Algumas das metas do EcoSiPas são formalizar um plano de gestão de dados e definir um repositório central para assegurar a transparência das informações. O projeto também prevê a elaboração de pré-propostas para captação de recursos em editais internacionais e o planejamento de programas bilaterais de intercâmbio de estudantes e pesquisadores.
Outro objetivo é integrar os dados geoespaciais, ecológicos e socioeconômicos produzidos pelo projeto para ampliar o conhecimento sobre questões como adaptação às mudanças climáticas, segurança alimentar e perda de biodiversidade.
Entre as ações de valorização econômica está o uso sustentável do baru, fruto nativo do Cerrado abundante nos sistemas silvipastoris (SSPs) da bacia do rio Urucuia e alternativa de renda para extrativistas e agricultores familiares. A experiência inclui a certificação orgânica do produto e a estruturação de uma cadeia de suprimentos voltada ao mercado externo. O projeto também estuda os caminhos regulatórios necessários para a aprovação do baru e de outros produtos extrativistas como novos alimentos (novel food) na União Europeia.
Por fim, o projeto trabalha na elaboração de recomendações para políticas públicas voltadas à redução de gargalos institucionais para a sustentabilidade no bioma. O trabalho considera os principais desafios identificados ao longo dos quatro anos de pesquisa e a possibilidade de expansão dos sistemas silvipastoris (SSPs) autóctones.
Fonte: Embrapa
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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