Considerada extinta, raça bovina Algarvia ressurge com apenas 47 animais de linha pura

Depois de desaparecer dos registros e chegar a um núcleo genético extremamente reduzido, raça portuguesa volta a crescer com apoio de criadores, banco de germoplasma, inseminação artificial e transferência de embriões

Uma raça bovina que chegou a ser considerada extinta em Portugal está sendo reconstruída a partir de um núcleo genético extremamente reduzido. A raça Algarvia, originária do sul do país, alcançou 47 animais considerados de linha pura em 2025, segundo dados da Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL). Em 2018, essa mesma classificação reunia somente cinco exemplares.

A recuperação representa apenas uma fração do tamanho que esse gado teve no passado. A Agência Lusa aponta que havia mais de 20 mil cabeças na década de 1950, enquanto uma pesquisa científica publicada em Genetics Selection Evolution registra entre 25 mil e 29 mil animais catalogados entre as décadas de 1940 e 1970. Depois disso, a população entrou em rápido declínio. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Como uma população com milhares de animais quase desapareceu

A Algarvia esteve tradicionalmente ligada à atividade pecuária do sul de Portugal, com uso principalmente para trabalho e produção de carne, além de capacidade leiteira descrita nos registros oficiais portugueses.

A transformação da agricultura, porém, mudou o espaço ocupado por esses bovinos. A mecanização reduziu a necessidade de animais de tração e os criadores passaram a utilizar cruzamentos com raças como Limousine e Charolês buscando crescimento mais rápido e carcaças de maior valorização comercial. O resultado foi uma progressiva diluição da população tradicional.

O processo avançou a tal ponto que a raça já era considerada efetivamente extinta nos anos 1980 na literatura científica. Em 2004, um relatório sobre recursos genéticos animais em Portugal também a incluiu entre as raças bovinas extintas no país durante o século XX.

Busca por remanescentes deu início à reconstrução da raça

O desaparecimento, entretanto, não significava que todos os traços genéticos da Algarvia haviam sido eliminados.

Em 2005, um projeto de recuperação localizou uma população candidata formada por 43 fêmeas e quatro machos. Esses animais apresentavam características associadas ao antigo gado Algarvio, mas era necessário determinar quais realmente poderiam servir de base para reconstruir a população.

A investigação genética ganhou uma etapa decisiva com um estudo que analisou 46 animais fenotipicamente semelhantes à raça e os comparou com bovinos de outras populações portuguesas.

Os pesquisadores identificaram 30 vacas e três touros com perfil considerado adequado para integrar o processo de reconstituição. O trabalho também encontrou sinais de consanguinidade, um problema esperado quando a população sobrevivente é muito pequena e existem poucas linhagens disponíveis para reprodução.

Esse é um dos principais desafios enfrentados por raças bovinas que sobreviveram a populações extremamente reduzidas: aumentar o número de animais sem concentrar toda a geração seguinte em poucos reprodutores.

De cinco animais de linha pura para 47

Considerada extinta, raça bovina Algarvia ressurge com apenas 47 animais de linha pura
Exemplar da raça bovina Algarvia, população autóctone portuguesa que passou por um programa de recuperação genética após chegar perto do desaparecimento. Foto: DGAV / Reprodução

A reconstrução genética não ocorreu de maneira linear.

Segundo a ASCAL, responsável pela gestão do Livro Genealógico da raça desde 2005, havia cinco animais considerados de linha pura em 2018. O número chegou a 27 em 2024 e 47 em 2025.

O dado de 2018 precisa ser interpretado com cuidado. Um documento da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) registra naquele ano cinco fêmeas e dois machos adultos, pertencentes a dois criadores, no Livro Genealógico. A diferença ocorre porque a informação posterior da ASCAL trata especificamente dos animais classificados como de linha pura.

Também existem diferenças nos levantamentos mais recentes. Em agosto de 2024, a DGAV informava 21 animais registrados no Livro Genealógico, distribuídos por propriedades de Lagos, Silves e Tavira, enquanto a ASCAL posteriormente informou 27 exemplares de linha pura naquele mesmo ano. Como os levantamentos foram produzidos em momentos e classificações distintas, eles não devem ser somados ou tratados como uma única série estatística.

O dado mais recente divulgado pela associação aponta os 47 animais de linha pura em 2025.

Embriões e sêmen congelado ajudam a multiplicar a genética

A recuperação da Algarvia passou a depender não apenas dos acasalamentos naturais, mas também de ferramentas de reprodução assistida.

O programa desenvolvido pela ASCAL, com participação da DGAV e do Banco Português de Germoplasma Animal, utiliza inseminação artificial, transferência de embriões, registro genealógico e material genético conservado para aumentar o efetivo e, ao mesmo tempo, tentar preservar a diversidade da população.

Em julho de 2024, por exemplo, nasceu uma nova vitela Algarvia por transferência de embrião. Segundo a DGAV, foi o sexto nascimento obtido por essa estratégia dentro do programa de recuperação.

A técnica permite que embriões formados a partir de animais geneticamente estratégicos sejam implantados em fêmeas receptoras. O princípio também vem sendo empregado em projetos de conservação genética bovina com transferência de embriões, ampliando as possibilidades de multiplicação de raças com populações pequenas.

O material armazenado no banco de germoplasma tem papel semelhante. Sêmen e embriões conservados podem manter disponíveis linhagens que seriam difíceis ou impossíveis de recuperar apenas com os animais presentes nas propriedades.

Por que 47 animais ainda são muito poucos

O crescimento registrado desde 2018 mostra que o programa conseguiu ampliar a população considerada de linha pura, mas 47 bovinos ainda representam uma base genética bastante restrita.

Quando existem poucos indivíduos reprodutores, a preocupação não pode ser apenas aumentar o número de nascimentos. Se grande parte das novas gerações descender dos mesmos pais ou avós, a população pode crescer numericamente enquanto perde diversidade genética.

O próprio estudo que ajudou a reconstruir a Algarvia encontrou evidências de consanguinidade no núcleo analisado e destacou a necessidade de utilizar informações genéticas para orientar o manejo da raça.

Por isso, registro de parentesco, escolha dos acasalamentos e uso estratégico do germoplasma conservado são tão importantes quanto a quantidade final de animais.

Rusticidade preservada ao longo de gerações

A conservação também possui interesse além do valor histórico.

A DGAV descreve a Algarvia como uma raça criada principalmente em sistemas extensivos, utilizando vegetação espontânea, com elevada rusticidade e adaptação a áreas de solos pobres. O padrão oficial apresenta animais de pelagem uniforme vermelha ou castanha e membros fortes.

Essas características foram formadas ao longo de gerações sob as condições ambientais do Algarve. Preservar populações locais significa, portanto, conservar combinações genéticas associadas à adaptação regional que podem desaparecer definitivamente quando uma raça é substituída.

Recuperação ainda está longe de terminar

A Agência Lusa informou que pelo menos cinco produtores participavam do desenvolvimento da Algarvia, com propriedades em Vila do Bispo, Lagos, Portimão, Silves e Tavira. A intenção futura é formar uma população grande o bastante para permitir maior valorização comercial dos animais e de sua carne.

Esse estágio, porém, ainda depende da multiplicação do rebanho.

A história da Algarvia mostra que declarar uma raça recuperada exige mais do que evitar seu desaparecimento imediato. Mesmo depois de sair de cinco para 47 animais considerados de linha pura, o desafio permanece sendo construir uma população numericamente maior, geneticamente diversa e capaz de se reproduzir de forma sustentável.

Depois de ter sido considerada extinta, a raça voltou aos registros. Agora, sua sobrevivência depende de impedir que o crescimento do número de cabeças aconteça às custas da diversidade que os programas de conservação procuram justamente preservar.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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