Nascimento raro no Reino Unido volta os holofotes para a babirusa, suídeo encontrado apenas em ilhas da Indonésia e pressionado por doenças, caça e transformação das florestas
Um nascimento registrado na Inglaterra colocou novamente o porco-veado no centro das discussões sobre conservação da fauna asiática. Em 12 de agosto de 2026, o Chester Zoo anunciou a chegada de Rana, uma filhote de babirusa, animal nativo da Indonésia facilmente reconhecido pelos enormes caninos curvados apresentados pelos machos. A comemoração ocorre em meio a sinais preocupantes sobre o futuro desses animais em vida livre.
As estimativas divulgadas pelo zoológico apontam para menos de 10 mil babirusas sobrevivendo em seus habitats insulares, enquanto levantamentos de campo indicam que encontrar o animal está se tornando cada vez mais difícil em determinadas regiões.
Um nascimento raro chamou atenção no Reino Unido
Rana nasceu no Chester Zoo e é a quinta cria da fêmea Matano, que também nasceu na instituição há 11 anos. Segundo os responsáveis pelo zoológico, filhotes de babirusa costumam chegar ao mundo pesando entre 300 e 500 gramas.
A reprodução desses animais possui características diferentes das observadas nos suínos domésticos. As fêmeas normalmente dão à luz um ou dois filhotes, enquanto as gestações acompanhadas no Chester Zoo costumam durar em torno de 161 dias.
O pequeno número de descendentes por gestação torna cada nascimento especialmente relevante para os programas responsáveis por manter populações geneticamente saudáveis sob cuidados humanos.
O que torna o porco-veado tão estranho?
O apelido porco-veado está diretamente relacionado ao aspecto singular da babirusa. Apesar de pertencer à família dos porcos, o animal desenvolveu uma característica praticamente inconfundível.
Nos machos, os caninos superiores crescem em direção ao alto, atravessam a região do focinho e seguem curvando-se para trás. Dependendo do indivíduo, eles podem formar grandes arcos acima da cabeça. O Chester Zoo observa ainda que essas estruturas são relativamente frágeis, apesar da aparência ameaçadora.
As fêmeas não apresentam o mesmo conjunto de grandes presas externas.
A aparência peculiar também explica a origem do nome: “babirusa” está associada à ideia de “porco-veado” na língua malaia, uma referência visual aos caninos que lembram vagamente estruturas semelhantes a chifres.
Além dos dentes incomuns, o animal possui relativamente poucos pelos e pode atingir cerca de 100 quilos, segundo informações mantidas pelo Chester Zoo. Sua dieta é variada e inclui folhas, raízes, frutos, invertebrados e pequenos vertebrados.
Porco-veado aparece cada vez menos nos levantamentos
Talvez o dado mais preocupante venha diretamente do campo.
Um estudo realizado em Sulawesi com apoio do Chester Zoo utilizou armadilhas fotográficas para verificar a presença de babirusas. Durante todo o período de 2023 e 2024, os equipamentos registraram o animal em apenas duas ocasiões.
O resultado não representa sozinho uma contagem completa da população, mas funciona como um forte sinal da dificuldade de localizar os animais onde pesquisadores realizam o monitoramento.
A pressão sobre a babirusa não começou recentemente. A espécie enfrenta há décadas a caça para obtenção de carne, além de capturas com armadilhas. Informações da União Internacional para a Conservação da Natureza apontam a caça excessiva como uma das responsáveis pela forte redução observada em populações de Sulawesi.
O avanço sobre as florestas acrescenta outra camada ao problema. Exploração madeireira, conversão de áreas e degradação do habitat reduzem os ambientes disponíveis para alimentação, abrigo e reprodução.
Dados apresentados pelo Chester Zoo em agosto de 2026 estimam que menos de 10 mil babirusas permaneçam em seus habitats naturais insulares.
Peste suína africana aumenta a preocupação
Ao conjunto de ameaças já existentes somou-se um problema sanitário de grande alcance: a peste suína africana (PSA).
A enfermidade viral atinge porcos domésticos e selvagens e pode provocar taxas de mortalidade de até 100% em determinadas formas da doença, segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH). Apesar da gravidade entre os suínos, a PSA não infecta seres humanos.
O vírus já se espalhou por grande parte da Indonésia. Informações reunidas pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram registros oficiais em 32 das 34 províncias consideradas no acompanhamento, alcançando diferentes ilhas do arquipélago.
Há ainda registros da doença entre populações de porcos selvagens em Sulawesi, justamente uma das regiões onde vivem babirusas. Em abril de 2026, novos surtos também foram reportados em outras áreas do país, demonstrando que o desafio sanitário permanece ativo.
Para uma população restrita geograficamente e já pressionada por fatores ambientais, a circulação de uma enfermidade altamente letal amplia o risco de perdas rápidas.
Conservação tenta evitar que a babirusa desapareça
O cenário levou instituições internacionais e organizações indonésias a ampliar iniciativas de reprodução, acompanhamento populacional e conservação das áreas onde esses animais ainda sobrevivem.
Um dos projetos é o Action Indonesia, programa que reúne especialistas e instituições para trabalhar com espécies ameaçadas do arquipélago. A participação do Chester Zoo envolve treinamento, acompanhamento por câmeras, cooperação com zoológicos indonésios e suporte aos programas de reprodução.
Nos últimos anos, o compartilhamento de conhecimento entre as instituições contribuiu para o nascimento de pelo menos 17 babirusas em centros indonésios, dentro das metas de reprodução cooperativa estabelecidas no país.
A estratégia não se resume à manutenção de animais em zoológicos. As armadilhas fotográficas também são utilizadas para tentar descobrir onde ainda existem populações viáveis e fornecer dados para decisões de manejo e proteção territorial.
VEJA MAIS:
- Por que o gado às vezes forma círculos no pasto? Comportamento intriga quem observa o rebanho
- Em 1760, um comerciante deixou cavalos em uma ilha sem árvores no Atlântico; séculos depois, centenas ainda vivem livres
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.