Originária do Piemonte italiano, raça combina uma mutação natural no gene da miostatina com elevado desenvolvimento muscular e seleção voltada à eficiência na produção de carne
À primeira vista, o Piedmontese chama atenção pelo volume impressionante dos quartos traseiros. Mas a característica que tornou essa raça italiana reconhecida internacionalmente vai muito além da aparência.
A ciência já identificou uma alteração específica no gene da miostatina relacionada à chamada dupla musculatura, enquanto décadas de seleção transformaram um bovino que já teve múltiplas funções em uma raça altamente especializada para carne.
Piedmontese nasceu na região do Piemonte, no norte da Itália
O próprio nome revela a origem. O Piemontese — grafia utilizada oficialmente na Itália e também encontrado internacionalmente como Piedmontese — é uma raça bovina nativa do Piemonte, região do noroeste italiano cercada em grande parte pelo arco dos Alpes.
Segundo a Associação Nacional dos Criadores de Bovinos da Raça Piemontese (ANABORAPI), o animal originalmente possuía tripla aptidão: trabalho, produção de leite e carne. Com a evolução dos sistemas de criação e do melhoramento genético, a seleção foi progressivamente concentrada na produção de carne.
A ligação com a região continua forte. A associação informa atualmente possuir mais de 4 mil criadores associados, responsáveis pela preservação, seleção e disseminação da genética da raça. A ANABORAPI foi criada em 1960 e conduz o programa de melhoramento sob controle do Ministério da Agricultura, Soberania Alimentar e Florestas da Itália (MASAF).
Por que o Piedmontese desenvolve tantos músculos?
A resposta está no gene MSTN, responsável pela produção da miostatina.
A miostatina participa da regulação do crescimento da musculatura esquelética. Em condições normais, ela atua limitando a expansão excessiva da massa muscular.
Pesquisadores identificaram no Piedmontese uma mutação no exon 3 do gene da miostatina, provocando a substituição de um aminoácido na região funcional da proteína. A alteração é conhecida como C313Y.
Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences também demonstrou que Piedmontese e Belgian Blue possuem alterações distintas no gene da miostatina associadas ao fenótipo de dupla musculatura.
É importante fazer uma correção comum: “dupla musculatura” não significa que o bovino possui o dobro de músculos. O termo descreve um fenótipo caracterizado por desenvolvimento muscular muito superior ao encontrado em bovinos convencionais.
Na Itália, essa característica é associada também à expressão fassone, particularmente relacionada ao grande desenvolvimento muscular das coxas.
Uma conformação corporal difícil de confundir

A musculatura aparece principalmente nas regiões economicamente importantes para produção de carne.
O padrão morfológico oficial da raça descreve animais com dorso largo, lombo cheio e musculoso, garupa desenvolvida e coxas volumosas. A pele é fina, enquanto a estrutura óssea figura entre as características avaliadas pelo programa de seleção.
Outro detalhe está na pelagem.
Os bezerros nascem normalmente com tonalidade semelhante ao trigo escuro. Conforme amadurecem, as fêmeas tornam-se predominantemente brancas ou muito claras, enquanto os machos podem apresentar regiões acinzentadas ou mais escuras principalmente na cabeça, pescoço, ombros e extremidades.
Esse conjunto de características cria a aparência extremamente robusta que fez a raça ganhar notoriedade fora da Itália.
Piedmontese apresenta elevado aproveitamento da carcaça
A conformação não tem apenas função estética. Ela pode se transformar em maior proporção de carne comercializável.
A ANABORAPI afirma que bovinos Piemontese adequadamente criados podem superar 70% de rendimento ao abate, atribuindo o desempenho ao desenvolvimento muscular combinado à pele fina e estrutura óssea relativamente leve. Como se trata de um dado divulgado pela associação oficial da raça, o percentual deve ser interpretado como referência produtiva e não como resultado garantido para qualquer animal ou sistema de criação.
Há evidências experimentais que ajudam a sustentar o potencial de rendimento.
Um estudo do U.S. Meat Animal Research Center, ligado ao USDA, comparou 888 novilhos provenientes de diferentes grupos genéticos. Quando os animais foram avaliados em idade padronizada de 426 dias, descendentes de touros Piedmontese atingiram 69,7% de produto comercializável, o maior resultado entre os grupos analisados naquele critério experimental.
Os pesquisadores classificaram as carcaças dos descendentes de Piedmontese entre as mais musculosas, magras e de maior rendimento do experimento.
O percentual de produto comercializável utilizado no estudo, entretanto, não deve ser confundido diretamente com rendimento de carcaça frigorífica, pois são indicadores diferentes.
Carne magra não significa necessariamente carne dura
A genética da miostatina também despertou interesse dos pesquisadores por seus efeitos sobre as características da carne.
Em outro trabalho conduzido pelo U.S. Meat Animal Research Center, animais com influência genética Piedmontese foram estudados para determinar como diferentes genótipos relacionados à miostatina afetavam quatro grupos musculares.
Os resultados indicaram que a presença do alelo associado à hipertrofia muscular poderia favorecer características relacionadas à maciez, dependendo do genótipo e do músculo avaliado.
Isso não significa, porém, superioridade em todos os atributos sensoriais. No mesmo estudo, animais homozigotos para o alelo apresentaram avaliações inferiores de suculência e intensidade de sabor em algumas comparações.
A conclusão é relevante porque evita uma simplificação comum: qualidade da carne não depende exclusivamente de uma única característica genética.
Alimentação, idade ao abate, acabamento, manejo, maturação e processamento também interferem no resultado entregue ao consumidor.
Uma pesquisa envolvendo 1.327 touros Piemontese provenientes de 115 fazendas italianas encontrou diferenças entre sistemas produtivos em diversos parâmetros de carcaça, mas efeitos relativamente limitados sobre vários atributos de qualidade da carne. Os pesquisadores destacaram que fatores individuais, incluindo genética, permanecem importantes para explicar essas diferenças.
Seleção do Piedmontese também olha para o parto
Uma musculatura extremamente desenvolvida traz desafios que não podem ser ignorados pelo melhoramento genético.
Pesquisa do USDA com cruzamentos envolvendo Piedmontese mostrou associação entre o genótipo da miostatina, peso ao nascimento e dificuldade de parto. Os animais avaliados possuíam diferentes combinações do alelo relacionado à hipertrofia muscular.
Por isso, o programa moderno de seleção da raça não procura simplesmente produzir bovinos cada vez mais musculosos.
A ANABORAPI informa que os objetivos atuais incluem crescimento, musculatura, eficiência alimentar, facilidade de nascimento, facilidade de parto, sistema locomotor e docilidade.
O sistema é bastante estruturado. A associação informa que aproximadamente 220 jovens touros entram anualmente no centro genético para testes de desempenho. Cerca de 40 avançam inicialmente para a etapa seguinte e, após testes de progênie, aproximadamente 25 são selecionados para utilização mais ampla.
Segundo a própria associação, em duas décadas de seleção o ganho diário dos animais melhorou em mais de 100 gramas por dia, enquanto a avaliação de musculatura avançou um ponto em uma escala de 1 a 9.
Uma genética que chamou atenção muito além dos Alpes
O Piedmontese representa um caso interessante para a pecuária porque demonstra como uma única alteração genética pode produzir consequências visíveis sobre características de alto valor econômico.
Estudos com cruzamentos já mostraram que descendentes de touros Piedmontese podem apresentar maior área de olho de lombo, maior rendimento de carcaça e menor deposição relativa de gordura em determinadas condições experimentais.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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