Animal histórico para a conservação da espécie no Brasil passa a contar com medidas judiciais para reduzir riscos provocados por embarcações no litoral de Sergipe e da Bahia
O peixe-boi Astro, um dos animais mais conhecidos dos programas brasileiros de conservação marinha, voltou ao centro das atenções após a Justiça Federal determinar novas medidas para protegê-lo. Com 35 anos e aproximadamente 468 quilos, o mamífero já esteve envolvido em 34 ocorrências de colisão com embarcações, situação que levou autoridades a reforçarem as regras de navegação nas regiões onde ele costuma circular.
A decisão atende parcialmente a uma solicitação do Ministério Público Federal (MPF) e estabelece ações voltadas principalmente à redução do risco representado pelas hélices de barcos, além de ampliar fiscalização, sinalização e orientação para moradores, pescadores, turistas e operadores náuticos.
Acidente recente agravou preocupação com Astro
O episódio que intensificou a mobilização aconteceu em fevereiro de 2026, na Praia do Saco, município de Estância, em Sergipe.
Após uma colisão, Astro apresentou vários ferimentos provocados pelo contato com uma embarcação. Conforme informações apresentadas pelo MPF com base em avaliações veterinárias e dados técnicos da Fundação Mamíferos Aquáticos, uma das lesões chegou a cerca de 22 centímetros de comprimento e seis centímetros de profundidade.
O animal precisou receber acompanhamento e tratamento no próprio ambiente natural. A gravidade do caso reforçou a discussão sobre a necessidade de medidas permanentes para reduzir os riscos nas áreas onde o peixe-boi permanece com maior frequência.
Justiça amplia proteção contra embarcações
Entre as principais determinações está a adoção de estruturas de proteção nas hélices de embarcações que navegam em regiões utilizadas por Astro.
A medida alcança pontos do litoral sergipano e baiano associados aos deslocamentos do animal, incluindo áreas do Complexo Estuarino Piauí-Real-Fundo, da Praia do Saco e do estuário do Rio Vaza-Barris.
A fiscalização deverá contar com participação da Autoridade Marítima. Proprietários e operadores também precisarão ser informados sobre as exigências, especialmente em marinas, colônias de pescadores, locais de embarque e empresas ligadas ao turismo náutico.
Segundo o cronograma divulgado pelo MPF, a partir de 1º de outubro de 2026 poderão ser adotadas medidas administrativas contra embarcações que não estejam adequadas às determinações.
Outra preocupação é a velocidade próxima às áreas de ocorrência do animal. A redução da velocidade aumenta o tempo de reação dos condutores e diminui o potencial de impactos graves em eventuais encontros com animais marinhos.
Astro marcou o início das reintroduções no Brasil
A trajetória de Astro também tem importância histórica para a conservação do peixe-boi-marinho no país.
Resgatado no Ceará ainda jovem, ele passou por um período de recuperação antes de retornar à natureza. Em 21 de dezembro de 1994, foi solto junto com a fêmea Lua em Paripueira, Alagoas.
A operação marcou a primeira experiência brasileira de reintrodução de peixes-bois-marinhos na natureza, segundo registros técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A iniciativa se tornou referência para programas posteriores de reabilitação e soltura da espécie em diferentes pontos do litoral brasileiro.
Depois da reintrodução, Astro percorreu diversas regiões costeiras até estabelecer forte ligação com o litoral sul de Sergipe, onde passou a ser acompanhado por pesquisadores e se tornou conhecido entre moradores e visitantes.
Em reconhecimento a essa relação com o estado, ele foi declarado Bem de Interesse Cultural de Sergipe por legislação estadual publicada em 2025.
Contato de turistas também preocupa especialistas
Nem todos os riscos enfrentados por Astro estão relacionados à navegação.
Documentos utilizados na ação judicial também apontaram comportamentos inadequados de pessoas que tentam se aproximar excessivamente do animal. Há relatos envolvendo tentativa de toque, alimentação, perseguição e outras formas de interação direta.
Por esse motivo, órgãos ambientais deverão desenvolver ações educativas voltadas ao público que frequenta as áreas costeiras onde o peixe-boi costuma aparecer.
A orientação é manter distância, não oferecer alimentos e evitar qualquer tentativa de interação. Além de alterar o comportamento natural do animal, a aproximação pode aumentar sua exposição a situações perigosas.
Peixe-boi Astro integra espécie em situação crítica
O caso ocorre em um momento especialmente delicado para a conservação do peixe-boi-marinho.
O Trichechus manatus foi enquadrado como Criticamente em Perigo (CR) na atualização da lista brasileira de espécies ameaçadas publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em junho de 2026.
A categoria indica um nível extremamente elevado de risco de desaparecimento da espécie na natureza.
Entre as pressões enfrentadas pelos peixes-bois estão acidentes com embarcações, alterações nos ambientes costeiros e estuarinos e conflitos provocados pela presença humana em áreas utilizadas pelos animais.
Nesse contexto, medidas adotadas para preservar Astro também podem beneficiar outros indivíduos da espécie e diferentes animais que utilizam os mesmos ambientes.
Um símbolo vivo da conservação marinha
Astro acompanha a história da conservação dos peixes-bois no Brasil há mais de três décadas. Sua trajetória começou ainda nos primeiros projetos de reintrodução e hoje ajuda a evidenciar um desafio que permanece atual: permitir o uso turístico, pesqueiro e recreativo das áreas costeiras sem comprometer espécies ameaçadas.
A nova proteção determinada pela Justiça busca justamente reduzir esse conflito. Mais do que preservar um animal conhecido pela população, as medidas colocam em discussão a necessidade de tornar a navegação mais segura em áreas onde seres humanos e fauna marinha dividem o mesmo espaço.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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