Da infância marcada pela pobreza à construção de um império no agronegócio e na indústria, Gil Ferreira relembra os desafios, as perdas e os negócios improváveis que moldaram uma das trajetórias mais inspiradoras do campo brasileiro.
Aos 86 anos, Gil Ferreira é a personificação da história viva do empreendedorismo brasileiro e do agronegócio. Em uma conversa profunda no podcast Agro em Debate, da João Domingos Advogados, ele revelou uma trajetória que parece saída de um livro de ficção, mas que foi forjada em solo real, entre Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Sua vida é um testemunho de que a riqueza não se mede apenas em alqueires, mas na capacidade de se levantar após cada queda.
A história de Seu Gil começa no interior de Minas Gerais, na região de Caratinga. Criado em uma família de 12 irmãos, ele conheceu cedo as limitações da vida no campo. Essa simplicidade extrema foi o combustível para sua ambição. Ele relembra com clareza o sentimento que o impulsionava:
“Naquela época, a gente passava uma dificuldade financeira muito grande. Meu pão não tinha manteiga… Eu ficava meio com vergonha de sair assim para comer longe dos colegas, mas tudo isso fez parte do que eu fui pondo na minha cabeça: que eu tinha que ganhar dinheiro um dia, nem que fosse para a manteiga do pão”.

Sua jornada para o sucesso não foi um caminho pavimentado. Seu pai, um homem enérgico, não facilitou as coisas. “Meu pai me deixou ralar. Eu ralei sozinho mesmo. Eu aprendi foi assim, não foi ele me dando as coisas não”. Essa dureza paterna manifestou-se até quando Gil decidiu buscar a sorte em Goiás, em 1960. Ao pedir dinheiro para a passagem, ouviu do pai: “Vê se você aguenta pelo menos três meses lá”. Gil não só aguentou, como nunca mais voltou para morar em Minas.
O negócio inacreditável: um radinho de pilha por 100 alqueires
O título desta biografia destaca um dos episódios mais curiosos da vida de Seu Gil. No início da década de 60, a terra no então norte de Goiás (hoje Tocantins) não tinha o valor comercial que conhecemos hoje. Gil conta que adquiriu seu primeiro pedaço de terra em Alvorada de uma forma que hoje soa impossível:
“Comprei uma terra lá que terra lá não valia nada. Eu comprei, para você ter uma ideia, por um radinho de pilha que eu vendi… rádio novo… comprei cem alqueires”.
Posteriormente, ele expandiu essa área para 500 alqueires. Naquela época, ele viajava de Anápolis até a fazenda em uma moto Vespa, enfrentando cerca de 600 km de poeira e estradas de terra precárias. “Era tão desvalorizado que nem posseiro queria… eu ia de Vespa lá, rapaz”. Hoje, essa mesma terra é um exemplo de produtividade, chegando a produzir 75 sacas de soja por hectare na última safra.
Além dessa troca, Gil menciona outro negócio peculiar em Anápolis: adquiriu seus primeiros 10 alqueires na região em troca de um triturador.
Do comércio à indústria: o nascimento da Duro PVC
Em Anápolis, Gil construiu uma carreira sólida no comércio agropecuário. Ele começou vendendo produtos veterinários e adubos, mas sempre sonhou alto. “Sempre que eu ia a São Paulo… via aquelas firmas de trator… falei: ‘Puxa vida, um dia eu gostaria de ter uma empresa dessa'”.
O sonho se realizou quando ele conseguiu a representação dos tratores CBT. Sem dinheiro para o estoque inicial, recebeu cinco tratores em consignação e os vendeu rapidamente. No entanto, a vida empresarial trouxe desafios severos. Gil enfrentou uma concordata na década de 70 devido a erros de gestão e juros abusivos. Diferente de muitos, ele fez questão de pagar cada centavo: “O meu negócio é pagar e vencer, cumprir o que está prometido”.
Mais tarde, ele fundou a Duro PVC. A empresa surgiu quase por um “erro” de cálculo, pois se ele tivesse feito pesquisas de mercado na época, talvez não tivesse comprado a primeira máquina de tubos devido à forte concorrência da Tigre. Contudo, sua persistência a transformou em uma das cinco maiores empresas do ramo no Brasil, empregando 500 funcionários.
Perdas, garimpo e a tragédia familiar
A trajetória de Gil também foi marcada por perdas financeiras e pessoais. Ele buscou oportunidades no garimpo em Redenção (PA), onde “tirou o pé do atoleiro” vendendo máquinas para garimpeiros. Mas a sorte virou em Roraima, onde um prédio que estava construindo desabou e, logo após o recomeço, o governo Collor bombardeou as pistas de garimpo, deixando-o com um prejuízo enorme.
A provação mais difícil, contudo, foi o assassinato de seu irmão em uma disputa de terras no Tocantins. Gil viveu seis anos consumido pelo desejo de vingança. A paz só veio através de uma experiência espiritual enquanto nadava em uma lagoa na fazenda, onde um pequeno peixe interagiu com ele de forma incomum. “Deus naquela hora, eu enterrei meu irmão… larguei esse ódio da minha cabeça”.
Lições de um veterano
Seu Gil Ferreira não se aposentou da vida. Ele ainda caminha 6 km diariamente, faz musculação e cuida de suas terras. Ele olha para a tecnologia moderna com ceticismo, preferindo a confiabilidade de máquinas mais simples, após perder R$ 1 milhão em uma safra devido à falha na central eletrônica de um trator novo que o fez perder a janela de plantio.
Sua filosofia de vida é direta e baseada no trabalho:
“A gente tem sempre que pensar em Deus quando está em dificuldade… mas Deus só ajuda quem está preparado. Quem está sentado esperando que Deus ajuda, não vai ter essa chance. Tem que pôr o pé, pôr o chão, tem que correr atrás”.
Para Gil, a caminhada é feita de ciclos, e as quedas são parte do aprendizado. “Não pode desistir… tem caminhadas que as topadas ajudam você a caminhar”. Hoje, ele vê com orgulho o crescimento de seus filhos e netos nos negócios, mantendo a convicção de que a honestidade e a coragem de recomeçar são os verdadeiros pilares de uma vida bem vivida.
Confira o episódio completo:
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