Mesmo depois de virar etanol, o milho ainda deixa nutrientes valiosos para o gado: proteína, fibra, gordura e minerais ficam concentrados em coprodutos que chegam ao cocho.
À primeira vista, milho destinado a uma usina de etanol parece milho que deixou de alimentar animais para abastecer veículos. Na prática, a história é mais interessante. A produção do combustível consome principalmente o amido do grão, enquanto uma parcela importante dos demais nutrientes permanece no processo e retorna ao mercado na forma de ingredientes para alimentação animal, especialmente DDG e DDGS.
É assim que o mesmo milho pode participar de duas cadeias econômicas diferentes. Primeiro, parte de sua energia é transformada em etanol. Depois, proteínas, fibras, gorduras e minerais que não foram convertidos em combustível podem chegar ao cocho de bovinos, além de serem aproveitados nas cadeias de suínos e aves. A Embrapa explica que o amido representa aproximadamente dois terços do milho e é convertido em etanol e dióxido de carbono durante a fermentação; a fração restante dá origem aos grãos de destilaria, nos quais os nutrientes ficam concentrados.
O que antes poderia ser tratado simplesmente como um subproduto industrial tornou-se, portanto, uma segunda fonte de receita para as usinas e uma nova matéria-prima para a nutrição animal. E essa relação tende a ganhar importância à medida que a indústria brasileira de etanol de milho cresce.
O que acontece com o milho dentro da usina
Para entender como o milho “vira combustível” e ainda alimenta o gado, é preciso olhar para a composição do grão.
Na fabricação do etanol, o milho é moído e passa por etapas que permitem transformar seu amido em açúcares fermentáveis. Leveduras utilizam esses açúcares e produzem etanol e dióxido de carbono. Proteína, fibra, parte da gordura e minerais, porém, não desaparecem junto com o amido.
Depois da separação do etanol, essas frações podem ser processadas e comercializadas como grãos de destilaria. Entre os produtos mais conhecidos estão o DDG (Dried Distillers Grains) e o DDGS (Dried Distillers Grains with Solubles). Dependendo do processo industrial e do teor de umidade, também existem versões úmidas, utilizadas sobretudo quando a distância entre a usina e a propriedade permite uma logística economicamente viável.
A própria União Nacional do Etanol de Milho (Unem) destaca que DDG e DDGS são utilizados na alimentação de bovinos, suínos, aves, peixes e animais de companhia e já ganharam espaço inclusive no mercado internacional sob a denominação Brazilian Distillers Grains.
O detalhe importante: os nutrientes ficam mais concentrados
Existe uma consequência interessante quando grande parte do amido é retirada.
Imagine o milho como um pacote formado por amido, proteína, gordura, fibra, vitaminas e minerais. Se uma grande parcela do amido é fermentada e removida para produzir etanol, os componentes restantes passam a representar uma proporção maior da matéria seca do coproduto.
É justamente essa concentração que explica o valor nutricional dos grãos de destilaria.
Segundo publicação técnica da Embrapa, DDG e DDGS fornecem proteínas e aminoácidos, energia, minerais — com destaque para fósforo disponível — e vitaminas. A composição, entretanto, não é absolutamente uniforme: qualidade do milho, moagem, fermentação, eficiência na retirada do amido, temperatura de secagem e quantidade de solúveis incorporados ao produto podem alterar seu perfil nutricional.
Isso significa que falar simplesmente em “DDGS” não basta para formular uma dieta. O valor real do ingrediente depende de sua composição, procedência, preço e do restante da dieta utilizada na propriedade.
Por que o gado consegue aproveitar tão bem esse coproduto?
É justamente na pecuária de corte que essa nova conexão entre combustível e alimentação ganha relevância.
Bovinos são ruminantes e possuem um sistema digestivo capaz de aproveitar ingredientes fibrosos que não teriam o mesmo comportamento nutricional em outras espécies. Os grãos de destilaria podem fornecer proteína e energia e substituir parcialmente ingredientes convencionais dependendo da formulação.
Pesquisas brasileiras vêm avaliando essa utilização em condições próximas às encontradas nos confinamentos nacionais. Trabalho desenvolvido na Universidade de São Paulo, por exemplo, estudou DDGS em dietas de touros Nelore em terminação, avaliando metabolismo, desempenho e eficiência alimentar.
Outro estudo recente da USP acompanhou 40 touros Nelore durante 90 dias para comparar dietas com e sem coprodutos da indústria do etanol. Naquele experimento, não foram observadas diferenças estatísticas no peso final nem no ganho médio diário entre os tratamentos, indicando que esses ingredientes podem integrar dietas de terminação quando corretamente formulados.
Isso não significa que exista uma inclusão universal recomendada para qualquer confinamento. A quantidade economicamente e nutricionalmente adequada depende da análise bromatológica do produto, dos demais ingredientes, das exigências dos animais e do custo por unidade efetiva de nutriente.
Etanol de milho está mudando o mapa da alimentação animal
A discussão ganha outra dimensão porque o Brasil está aumentando rapidamente o processamento industrial do cereal.
O Ministério da Agricultura mantém acompanhamento específico da produção brasileira de etanol de milho, reflexo de uma indústria que deixou de ser marginal na matriz nacional de biocombustíveis.
Estimativas recentes da Hedgepoint apontam que o consumo doméstico brasileiro de milho deve ultrapassar 100 milhões de toneladas na safra 2026/27, com cerca de 28,5 milhões de toneladas destinadas à indústria de etanol. A projeção para a produção do biocombustível a partir do cereal chega a 12,8 bilhões de litros no período.
Esse crescimento cria uma consequência que nem sempre aparece quando se discute a competição entre combustível e ração: quanto mais milho entra nas usinas, maior também tende a ser a oferta dos coprodutos resultantes desse processamento.
A Unem acompanha justamente essa nova cadeia de DDG/DDGS e sua expansão no mercado doméstico e internacional. Além da pecuária brasileira, os produtos já são exportados, criando mais uma conexão entre a indústria de biocombustíveis e o mercado mundial de proteína animal.
Para o confinamento, a conta não é apenas “milho contra DDGS”
Do ponto de vista do pecuarista, o principal efeito dessa transformação pode estar na maneira de comparar ingredientes.
Não faz sentido avaliar DDG ou DDGS apenas pelo preço da tonelada. O produtor precisa observar quanto está pagando pela proteína, energia e matéria seca efetivamente entregues, além de considerar frete, armazenamento, regularidade do produto e possíveis limitações nutricionais.
Esse ponto é particularmente relevante no Centro-Oeste. A concentração simultânea de produção de milho, usinas de etanol e grandes rebanhos cria condições logísticas favoráveis para aproximar indústria e pecuária. Estudos publicados pela Embrapa já identificavam Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e outras regiões pecuárias como áreas de grande potencial para utilização dos coprodutos.
Na prática, uma usina próxima de regiões de confinamento pode transformar aquilo que seria apenas uma corrente secundária da produção de combustível em ingrediente competitivo para milhares de animais.
O frete, porém, pode decidir a conta. Quanto maior a distância entre a fábrica e a fazenda, maior precisa ser a vantagem nutricional ou de preço para justificar a substituição de ingredientes tradicionais.
O coproduto também passou a ser importante para a própria usina
Existe ainda um componente econômico que ajuda a explicar por que DDG e DDGS não devem ser vistos simplesmente como “sobras”.
Análise do Cepea sobre as margens de processamento de milho mostra que a receita das usinas não depende exclusivamente do etanol. Os coprodutos participam da rentabilidade industrial e podem funcionar como amortecedores quando o combustível perde valor relativo.
No primeiro semestre de 2026, por exemplo, o Cepea observou que, enquanto o preço do etanol recuou 28% em seis meses no Brasil, o DDG caiu aproximadamente 7%, aumentando a participação relativa do coproduto na receita do processamento. O estudo calculou ainda que, entre 2020 e junho de 2026, a margem bruta média do esmagamento de milho foi de 40,7% no Brasil.
Essa dinâmica ajuda a entender uma transformação maior: a usina de etanol de milho não produz apenas combustível. Ela funciona cada vez mais como uma plataforma industrial capaz de separar diferentes componentes do grão e direcioná-los para mercados distintos.
Nem todo DDGS é igual
Para o pecuarista, entretanto, crescimento da oferta não elimina a necessidade de avaliação técnica.
A composição dos grãos de destilaria varia entre plantas industriais e processos. Mudanças na retirada de óleo, eficiência da fermentação e secagem podem modificar concentração de proteína, gordura, fibra e minerais.
Também existem nutrientes que precisam ser observados com atenção na formulação. Enxofre em excesso, por exemplo, pode limitar a inclusão de determinados coprodutos na dieta de bovinos, razão pela qual análise laboratorial e acompanhamento de nutricionista são importantes antes de alterar uma dieta de confinamento.
Portanto, DDG e DDGS não devem ser tratados como substitutos automáticos do milho ou do farelo de soja. Eles são ingredientes com características próprias e precisam ser precificados pelo valor nutricional que efetivamente entregam.
Um grão, dois mercados
A expansão do etanol de milho está criando uma relação que tende a ficar cada vez mais visível no agronegócio brasileiro. O cereal deixa de seguir apenas o caminho tradicional — lavoura, armazém e ração — e passa por uma etapa industrial capaz de gerar simultaneamente energia e alimento.
Parte do carbono e do amido termina no tanque dos veículos. Uma parcela relevante dos nutrientes permanece disponível e pode voltar ao campo dentro do cocho.
Por isso, dizer que o milho destinado ao etanol simplesmente “deixa de alimentar o gado” conta apenas metade da história. A indústria retira principalmente aquilo que interessa à fermentação e devolve ao mercado um ingrediente nutricionalmente diferente, mais concentrado em determinadas frações e capaz de participar das dietas animais.
Para a pecuária brasileira, o avanço dessa indústria significa algo além da disputa por milho. Significa também uma nova oferta de ingredientes, especialmente perto das regiões produtoras, capaz de alterar formulações, logística e custos dos sistemas intensivos de produção.
No fim, o mesmo grão que ajuda a movimentar um veículo pode, depois do processamento, continuar cumprindo uma função que o milho desempenha há séculos: transformar nutrientes vegetais em carne, leite e proteína animal.
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