A nova cota da China na exportação de carne bovina reduz a previsibilidade do mercado, cria uma nova dinâmica para o preço do boi gordo e pode influenciar desde o valor do bezerro até as decisões de retenção de matrizes na pecuária brasileira.
A decisão da China de estabelecer cotas anuais para a importação de carne bovina marca uma nova etapa para a pecuária brasileira. Mais do que limitar o volume de embarques, a medida altera a dinâmica do mercado e adiciona uma nova variável à formação do preço do boi gordo, exigindo atenção redobrada de produtores, confinadores, recriadores e frigoríficos.
Na avaliação de Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o mercado brasileiro passa a conviver com uma mudança estrutural. Segundo ele, além da oferta de animais, do consumo interno, do câmbio e das fases do ciclo pecuário, o ritmo de utilização da cota chinesa passa a influenciar diretamente a formação dos preços da arroba.
China continua decisiva, mas o mercado muda
Nos últimos anos, a China consolidou-se como o principal destino da carne bovina brasileira, absorvendo quase metade das exportações nacionais. Esse protagonismo fez com que a demanda chinesa se tornasse um dos principais fatores de sustentação dos preços pagos aos pecuaristas.
Com a implantação das cotas, entretanto, essa dinâmica deixa de ser linear.
Segundo Thiago Bernardino, a tendência é que os frigoríficos habilitados para exportar intensifiquem os embarques no início de cada ano para aproveitar o espaço disponível dentro da cota. Enquanto houver volume disponível, a disputa por animais aptos à exportação tende a permanecer aquecida.
“A partir da implantação da cota, o mercado passa a incorporar também uma sazonalidade comercial relacionada ao ritmo de utilização desse limite anual”, destaca o pesquisador em sua análise.
O que muda na formação do preço da arroba
Historicamente, o preço do boi gordo sempre foi determinado principalmente pela oferta de animais terminados, pelas condições das pastagens, pelo consumo doméstico e pelo ciclo pecuário.
Nos últimos anos, porém, as exportações passaram a exercer peso crescente sobre esse equilíbrio.
Para Thiago Bernardino, a China tornou-se a principal compradora marginal da carne bovina brasileira, absorvendo volumes adicionais de produção e aumentando a concorrência entre frigoríficos por animais destinados ao mercado externo.
Com a existência da cota, porém, essa pressão compradora pode diminuir à medida que o limite anual for sendo preenchido.
Na prática, isso significa que a capacidade de pagamento da indústria poderá perder força mesmo em momentos de oferta ajustada, caso os frigoríficos encontrem restrições para ampliar os embarques ao mercado chinês.
Reflexos chegam ao mercado de reposição
Os efeitos da nova política comercial não ficam restritos à exportação.
Caso haja redução na demanda por animais terminados após o preenchimento da cota, o impacto tende a chegar rapidamente ao mercado de reposição, pressionando os preços do bezerro e do boi magro.
Segundo o pesquisador do Cepea, se esse movimento persistir, produtores podem aumentar o descarte de matrizes. No curto prazo, isso amplia a oferta de carne bovina. No médio prazo, entretanto, reduz a produção futura de bezerros, influenciando todo o ciclo pecuário.
Câmbio deixa de explicar sozinho o mercado do boi gordo
Outro ponto destacado por Thiago Bernardino é que a formação do preço da arroba passa a depender de um conjunto maior de fatores.
Mesmo com dólar valorizado e preços internacionais favoráveis, a indústria poderá enfrentar limitações para ampliar as exportações à China quando a cota estiver próxima do limite.
“Além do câmbio e dos preços internacionais, passa a ser necessário considerar quanto da cota ainda está disponível”, observa o pesquisador.
Isso significa que a chamada paridade de exportação deixa de depender apenas das condições econômicas e passa a incorporar também uma restrição comercial.
Além da cota da China: O que o produtor deve observar
Na avaliação do Cepea, a China continuará sendo o principal mercado para a carne bovina brasileira. No entanto, a existência das cotas torna ainda mais importante acompanhar o ritmo das exportações ao longo do ano e a capacidade do Brasil de ampliar negócios com outros países.
Para o pecuarista, isso significa que decisões sobre retenção de matrizes, compra de reposição, confinamento e venda dos animais precisarão considerar não apenas as condições do mercado interno, mas também o cenário internacional.
A conclusão da análise é que a pecuária brasileira entra em um novo ciclo de formação de preços. A disponibilidade da cota chinesa passa a atuar ao lado da oferta de animais, do consumo doméstico, do câmbio e dos preços internacionais como um dos principais fatores que influenciam o valor da arroba.
Com base na análise de Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
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