Com custo 90% menor, pó de rocha avança como alternativa ao fertilizante mineral no agro

Tecnologia de remineralização de solos reduz a dependência de insumos importados, melhora a saúde da terra e eleva a rentabilidade de grandes culturas com foco em sustentabilidade

A instabilidade na geopolítica global transformou a necessidade de insumos importados em um dos principais desafios estratégicos para o agronegócio brasileiro. Atualmente, o Brasil traz do mercado externo cerca de 85% dos fertilizantes sintéticos utilizados em suas safras, cenário que deixa produtores vulneráveis às oscilações de preços provocadas por conflitos internacionais.

Em resposta a essa volatilidade, o pó de rocha avança como alternativa ao fertilizante mineral nas propriedades rurais de grande e médio porte. Essa tecnologia se consolida no país como uma solução de matriz nacional capaz de aliar a regeneração da terra a um custo significativamente menor, representando cerca de 10% do valor cobrado pelos adubos químicos tradicionais.

O pioneirismo regulatório do Brasil e o Plano Nacional de Fertilizantes

A técnica de utilizar pós de rocha na agricultura, conhecida cientificamente como rochagem, superou barreiras regulatórias fundamentais ao longo da última década. O Brasil assumiu uma posição de vanguarda global ao oficializar a categoria por meio da Lei número 12.890 de 2013, posteriormente regulamentada pela Instrução Normativa número 5 de 2016 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Hoje, esse insumo é parte estratégica do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), uma diretriz criada pelo governo federal para guiar o setor até o ano de 2050 com o objetivo de diminuir a exposição do mercado brasileiro às flutuações de fornecimento externo. Conforme dados históricos divulgados pela Embrapa Territorial, sob a coordenação do pesquisador Evaristo de Miranda, a rochagem se transformou em uma tecnologia complementar indispensável. Ela acumula excelentes resultados em culturas de grande relevância econômica, tais como a soja, o milho, a cana-de-açúcar, o feijão, além da fruticultura e da silvicultura. Atualmente, o mercado nacional já registra mais de 100 produtos comerciais oficiais e contabiliza uma área que supera a marca de 2 milhões de hectares tratados com a tecnologia.

Por que o pó de rocha avança como alternativa ao fertilizante mineral?

A expansão acelerada dessa tecnologia se justifica pela ciência do solo e pela rica composição mineral das rochas silicáticas, a exemplo do basalto e do biotita xisto. Segundo as análises desenvolvidas pelo geólogo Dr. Éder de Souza Martins, pesquisador da Embrapa Cerrados, esses materiais funcionam como excelentes condicionadores para solos altamente intemperizados e desgastados, perfil típico do bioma Cerrado. O pó de rocha atua devolvendo à terra uma gama quase completa de macro e micronutrientes essenciais para o desenvolvimento saudável dos cultivos.

Como os remineralizadores não possuem nitrogênio em sua composição original, elemento que se dissipa durante a formação geológica das rochas, a Embrapa recomenda a adoção de uma estratégia biológica integrada para suprir essa demanda sem depender da ureia importada:

  • Consórcio com leguminosas: O cultivo de plantas como o estilosantes e o feijão-guandu nas áreas de manejo ajuda a capturar o nitrogênio diretamente da atmosfera.
  • Correção química e equilíbrio: Enquanto as plantas fixam o nitrogênio na terra, os minerais triturados corrigem o pH profundo do solo.

Conforme demonstram os estudos coordenados pela Dra. Suzi Huff Theodoro, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e integrante da rede internacional Rocks for Crops, o insumo melhora o equilíbrio na absorção de potássio em relação ao cálcio e ao magnésio. Essa dinâmica evita a fixação do fósforo, que costuma ser um dos fatores de maior desperdício financeiro na adubação química convencional.

Produtividade real e a ascensão da agricultura regenerativa

Os impactos econômicos da rochagem são observados diretamente no balanço financeiro e nos índices de colheita das propriedades agrícolas. Pesquisas de campo indicam que a aplicação do remineralizador gera retornos produtivos reais. Na cultura da soja, por exemplo, os estudos apontam incrementos médios de 3,31 sacas por hectare. Já nas lavouras de cana-de-açúcar, o manejo registrou um aumento de quase 7 toneladas de colmos por hectare, acompanhado de melhorias nos índices de Açúcar Total Retido (ATR). No setor de café, os ganhos em áreas manejadas alcançaram até 20 sacas adicionais por hectare, variando de acordo com as condições de condução técnica.

Essa eficiência técnica gerou uma forte demanda comercial no mercado interno. De acordo com Daniel Antunes, economista e CEO da Tratto Agro, a produção de remineralizadores específicos, como o Fino de Micaxisto (FMX), chegou a dobrar em períodos recentes de escassez logística internacional. As projeções do setor sinalizam taxas de crescimento contínuo acima de 50% ao ano para os próximos ciclos.

Ademais, debates promovidos em fóruns importantes do setor, como o Congresso Brasileiro de Rochagem e reuniões da Abisolo (Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal), destacam que a tecnologia abre caminhos promissores para o mercado de carbono. Solos tratados com remineralizadores apresentam maior capacidade de retenção de água, melhor estrutura física e estimulam o sequestro de CO₂ por meio do processo de intemperismo acelerado, gerando créditos de carbono inorgânico de alta valorização no mercado internacional.

Como aplicar o insumo com segurança econômica

Embora o preço de aquisição do pó de rocha seja altamente competitivo na origem, variando geralmente entre R$ 100,00 e R$ 150,00 por tonelada nas mineradoras, o sucesso econômico da operação depende diretamente do planejamento logístico. Como se trata de um insumo de grande volume e peso, o frete rodoviário representa a variável crucial para a viabilidade do projeto. Consultores do setor recomendam que a fazenda esteja localizada em um raio de até 300 quilômetros em relação à fonte de extração, pois distâncias maiores podem anular as vantagens financeiras do material.

Do ponto de vista agronômico, os especialistas reforçam um alerta: a aplicação jamais deve ocorrer sem planejamento técnico. A realização de uma análise detalhada do solo e a verificação da caracterização mineralógica do produto (que legalmente precisa apresentar soma de bases superior a 9% e teor de quartzo inferior a 25%) são etapas obrigatórias. O protocolo padrão indicado pela Embrapa estabelece uma aplicação inicial que varia de cinco a oito toneladas por hectare, com intervenções menores de manutenção a partir do terceiro ano, consolidando um sistema produtivo resiliente, lucrativo e protegido contra crises de abastecimento globais.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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