Baias cobertas no confinamento de bovinos melhoraram ganho de peso, eficiência alimentar e lucro em comparação às baias abertas, aponta especialista
O confinamento de bovinos de corte constitui uma importante ferramenta para intensificação da produção, permitindo maior controle sobre a alimentação, o manejo e o período de terminação. Entretanto, a eficiência desse sistema não depende exclusivamente da genética dos animais e da formulação da dieta. As condições ambientais às quais os bovinos são submetidos também podem interferir no consumo, no comportamento, no conforto e, consequentemente, no desempenho produtivo.
Em regiões tropicais, a combinação de temperaturas elevadas, radiação solar e períodos de chuvas intensas representa um desafio adicional aos sistemas de confinamento. Em baias descobertas, além da exposição direta às condições climáticas, o acúmulo de água, dejetos e barro pode comprometer a locomoção dos animais, alterar seu comportamento e dificultar o acesso ao cocho e ao bebedouro. A literatura utilizada no presente estudo relaciona o estresse térmico e o desconforto ambiental ao aumento das exigências de mantença e à redução da eficiência de utilização dos nutrientes.
A infraestrutura, portanto, deve ser analisada não apenas como componente físico do confinamento, mas também como parte da estratégia de produção. A cobertura pode reduzir a exposição dos animais à radiação solar e às chuvas, além de proteger a dieta fornecida no cocho. Em períodos chuvosos, a preservação do piso e das condições de acesso ao alimento pode ser particularmente relevante para a manutenção da regularidade do consumo.
Nesse contexto, o presente estudo avaliou, em condições reais de produção, a diferença entre bovinos Nelore alojados em baias cobertas e descobertas durante um ciclo de terminação realizado no período chuvoso. O objetivo foi verificar se a tipologia da instalação esteve associada a alterações no desempenho zootécnico, na eficiência nutricional, nos indicadores sanitários e no resultado econômico do confinamento.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi conduzido na Fazenda Roseira da Serra, pertencente ao Confinamento JCZ, localizada em Bofete, São Paulo, durante o ciclo de terminação de 2025/2026. O período experimental compreendeu a entrada dos animais em outubro de 2025 e o abate em janeiro de 2026, totalizando 112 dias para o lote mantido em baia coberta e 114 dias para o lote mantido em baia aberta.
Foram avaliados 140 bovinos machos da raça Nelore, provenientes da mesma propriedade e distribuídos em dois lotes contemporâneos, com 70 animais cada. O Lote 102 foi mantido em baia coberta, enquanto o Lote 112 permaneceu em baia aberta. As instalações apresentavam como principal diferença a presença ou ausência de cobertura.
A padronização dos grupos envolveu a mesma raça, origem, dieta de terminação, sistema de fornecimento alimentar, equipe de manejo e destino de abate. A dieta apresentou alta inclusão de concentrado e foi fornecida em quatro tratos diários, realizados às 7h, 9h, 12h e 15h. O consumo de matéria seca foi determinado a partir da diferença entre a quantidade fornecida e as sobras registradas.
Foram avaliados indicadores de desempenho produtivo, eficiência nutricional, sanidade e resultado econômico. Entre os principais parâmetros analisados estiveram peso vivo inicial e final, ganho médio diário, consumo de matéria seca, conversão alimentar, eficiência alimentar, eficiência biológica, rendimento de carcaça, sobras de cocho, intervenções sanitárias, custo da arroba produzida, receita, lucro operacional e rentabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os animais alojados na baia coberta apresentaram maior desempenho durante o ciclo. O peso médio inicial foi de 360,78 kg no Lote 102 e 347,75 kg no Lote 112. Ao final do período, os animais da baia coberta alcançaram 624,69 kg, enquanto aqueles mantidos a céu aberto atingiram 578,14 kg. Assim, a diferença de peso final foi de 46,55 kg por animal.
O ganho médio diário foi de 2,356 kg/dia na baia coberta e 2,020 kg/dia na baia aberta, representando diferença de 16,6%. O ganho total de peso também foi superior no sistema coberto, com 263,91 kg por animal, contra 230,39 kg no sistema aberto. Esses resultados são compatíveis com a discussão apresentada no TCC, segundo a qual a redução do desconforto térmico e físico pode favorecer a utilização da energia da dieta para crescimento e deposição de tecidos.
A eficiência nutricional também apresentou diferenças importantes. A conversão alimentar foi de 5,10 kg de matéria seca por quilograma de ganho na baia coberta, contra 5,80 kgMS/kg na baia aberta. A eficiência alimentar foi de 19,58% e 17,22%, respectivamente. Já a eficiência biológica foi de 117,16 kgMS/@ no sistema coberto e 131,61 kgMS/@ no sistema aberto, indicando menor quantidade de matéria seca necessária para produzir uma arroba no lote coberto.
Outro aspecto relevante foi o ambiente do cocho. Durante o ciclo, as sobras acumuladas foram de 1.780 kg na baia coberta e 2.140 kg na baia aberta, diferença de 360 kg. A exposição da dieta às chuvas pode alterar suas características físicas e aumentar a umidade, enquanto as condições de lama podem dificultar o deslocamento dos animais e modificar sua frequência de acesso ao alimento. Dessa forma, o ambiente de alojamento pode interferir no aproveitamento do manejo nutricional mesmo quando a formulação da dieta é a mesma.
Os indicadores sanitários também apresentaram diferenças entre os lotes. Na baia coberta não foram registradas intervenções clínicas ou refugos de cocho. Na baia aberta ocorreram dois casos de bicheira, correspondentes a 2,85% do lote, e um animal foi considerado refugo de cocho, representando 1,40%. As intervenções totais corresponderam a 4,28% dos animais do lote aberto.
Esses resultados devem ser interpretados dentro das condições específicas do estudo, realizado durante um período de elevada precipitação. A literatura utilizada no trabalho relaciona a presença de umidade e lama a alterações no comportamento, maior esforço de locomoção e aumento de desafios sanitários. Assim, os dados observados no campo reforçam a importância de considerar a infraestrutura como parte do manejo do confinamento, principalmente em períodos chuvosos.
As diferenças produtivas também se refletiram nos resultados econômicos. O custo da arroba produzida foi de R$ 238,67 no lote coberto e R$ 257,70 no lote aberto. Embora o custo da diária total tenha sido semelhante — R$ 17,39 e R$ 17,01 por animal, respectivamente —, a maior quantidade de produto gerada pelo lote coberto resultou em menor custo unitário da arroba produzida.
A receita por animal foi de R$ 7.644,00 no lote coberto e R$ 7.068,75 no lote aberto. O custo total de produção apresentou valores próximos, R$ 5.613,62 e R$ 5.605,08, respectivamente. Entretanto, o lucro operacional alcançou R$ 2.030,38 por animal no sistema coberto, contra R$ 1.463,67 no sistema aberto.
Considerando os 70 animais de cada lote, o lucro total foi de R$ 142.126,60 na baia coberta e R$ 102.456,90 na baia aberta, uma diferença de R$ 39.669,70 no ciclo avaliado. A rentabilidade do período foi de 36,16% no lote coberto e 26,11% no aberto, enquanto a rentabilidade mensal foi de 9,68% e 6,87%, respectivamente.
Os resultados demonstram uma relação entre os indicadores biológicos e econômicos: o maior ganho de peso e a melhor eficiência de utilização da matéria seca resultaram em maior quantidade de produto comercializável e menor custo por arroba produzida. Dessa maneira, o efeito da infraestrutura não ficou restrito ao conforto dos animais, mas apareceu também nos indicadores de eficiência e resultado financeiro.
CONCLUSÃO
Nas condições avaliadas no ciclo de terminação de 2025/2026, os bovinos mantidos em baias cobertas apresentaram melhores indicadores de desempenho produtivo, eficiência nutricional, estabilidade sanitária e resultado econômico em comparação aos animais alojados em baias descobertas.
O sistema coberto apresentou ganho médio diário 16,6% superior, melhor conversão alimentar, maior eficiência alimentar e menor quantidade de matéria seca necessária por arroba produzida. Também foram observadas menores sobras de cocho e ausência de intervenções sanitárias e refugos no lote coberto, enquanto o sistema aberto apresentou 4,28% de intervenções.
Do ponto de vista econômico, a maior eficiência produtiva esteve associada a menor custo da arroba produzida e maior lucro operacional. No lote de 70 animais, a diferença de resultado alcançou R$ 39.669,70 no ciclo avaliado.
Dessa forma, os dados obtidos no estudo indicam que, nas condições de clima tropical úmido e período chuvoso avaliadas, a cobertura das baias esteve associada a ganhos que ultrapassaram a dimensão do conforto animal, refletindo-se diretamente na eficiência produtiva e econômica do confinamento. A ambiência, portanto, deve ser considerada como um componente integrado ao planejamento nutricional, sanitário e econômico da produção, uma vez que as condições oferecidas aos animais podem interferir na capacidade de transformar alimento em produto comercializável.
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