Com mais de 60% das obras concluídas, complexo em Campo Mourão terá capacidade para processar 1,7 mil toneladas de milho diariamente e abre uma nova frente de industrialização do grão para a cooperativa; a previsão de início das operações é em 2027
Um dos maiores investimentos industriais ligados ao agronegócio paranaense começa a ganhar forma em Campo Mourão. A Coamo Agroindustrial Cooperativa já concluiu mais de 60% das obras de sua nova indústria de etanol de milho, empreendimento estimado atualmente em R$ 1,7 bilhão e que deverá iniciar as operações em março de 2027. A planta representa uma mudança importante na estratégia da cooperativa ao transformar parte relevante do milho recebido dos produtores em biocombustível e produtos destinados à nutrição animal.
Quando estiver em funcionamento, a indústria terá capacidade para processar 1.700 toneladas de milho por dia e produzir aproximadamente 765 mil litros diários de etanol. Em plena capacidade e considerando 365 dias de operação, o potencial equivale a aproximadamente 279 milhões de litros por ano, patamar compatível com a capacidade instalada de até 280 milhões de litros anuais anteriormente informada pelo BNDES.
Milho dos cooperados ganha uma nova rota
Mais do que produzir combustível, o empreendimento cria uma nova fonte de demanda para um dos principais grãos cultivados pelos cooperados. Documentação do projeto apresentada ao mercado informa que as 1,7 mil toneladas processadas diariamente equivalem a aproximadamente 20% do volume de milho recebido pela Coamo de seus associados.
A estratégia é justamente ampliar a industrialização de um produto que, até então, tinha parcela relevante comercializada in natura. Com a nova planta, o milho passa por uma cadeia de agregação de valor capaz de gerar etanol, ingredientes para alimentação animal e óleo.
A localização foi escolhida para aproveitar essa integração. A fábrica está sendo construída junto ao Parque Industrial da Coamo, em Campo Mourão, às margens da BR-487, onde a cooperativa já mantém diferentes estruturas industriais, incluindo moinho de trigo, indústria de rações, processamento e refino de óleo de soja, entre outras operações.
Além do etanol, 510 toneladas de DDGS por dia
Um dos pontos que amplia a importância do projeto para o agronegócio está justamente no que sobra depois da produção do combustível.
A indústria deverá gerar diariamente cerca de 510 toneladas de DDGS, coproduto do processamento do milho rico em proteínas e fibras e utilizado na nutrição animal. A previsão mais recente também aponta para a produção de aproximadamente 34 toneladas de óleo de milho por dia.
Isso cria uma conexão direta entre a expansão do etanol de milho e a pecuária. Enquanto parte da energia presente no grão é direcionada à produção do biocombustível, nutrientes permanecem concentrados nos grãos de destilaria, que podem retornar ao sistema produtivo na formulação de dietas para animais.
O óleo de milho acrescenta outra fonte de receita ao complexo e pode, entre diferentes destinações industriais, ser utilizado na fabricação de biodiesel. Assim, um mesmo milho passa a abastecer diferentes mercados, aumentando o aproveitamento econômico da matéria-prima.
Obra mobiliza 1.100 trabalhadores
O tamanho do investimento também aparece no canteiro de obras. Segundo informações divulgadas pela Coamo, 94 empresas e aproximadamente 1.100 trabalhadores estão envolvidos atualmente na implantação da indústria.
Nesta etapa, os trabalhos estão concentrados na continuidade das bases civis, estruturas metálicas e montagens eletromecânicas. De acordo com Emerson Abrahão Mansano, gerente Industrial de Etanol de Milho da Coamo, o empreendimento segue dentro do cronograma estabelecido para começar a operar em março do próximo ano.
BNDES financiou R$ 500 milhões do projeto
Parte do investimento conta com financiamento público voltado à transição energética. O BNDES aprovou R$ 500 milhões, por meio do Fundo Clima, para apoiar a implantação da planta.
Quando o financiamento foi anunciado, em 2024, o investimento total estava calculado em R$ 1,6 bilhão. Com o avanço do empreendimento, a cifra informada atualmente pela cooperativa chegou a aproximadamente R$ 1,7 bilhão.
O complexo também foi projetado pensando em integração energética. Segundo informações divulgadas pela Coamo, a matriz térmica utiliza eucalipto proveniente de reflorestamento próprio, enquanto a estrutura terá capacidade para gerar 30 megawatts de energia elétrica para abastecer o parque industrial da cooperativa.
De commodity a combustível, proteína e energia
A entrada da Coamo no etanol de milho mostra uma transformação que vem ganhando espaço no agronegócio brasileiro: a busca por industrializar o grão próximo às regiões produtoras e capturar diferentes fontes de receita dentro da mesma matéria-prima.
No caso da cooperativa, o movimento ganha peso adicional pelo tamanho de sua base produtiva. Ao direcionar o equivalente a aproximadamente um quinto do milho recebido dos cooperados para a nova indústria, a companhia cria uma demanda industrial relevante e permanente dentro de sua própria estrutura.
Se o cronograma for mantido, a partir de março de 2027, parte do milho entregue pelos produtores à Coamo deixará de seguir apenas o caminho tradicional do mercado de grãos. Dentro do próprio complexo de Campo Mourão, ele poderá ser transformado em etanol, DDGS, óleo e energia, colocando a cooperativa definitivamente em uma nova frente da bioeconomia brasileira.
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