Cientistas estão estudando células de vaca para criar novos tratamentos contra o câncer

Pesquisa da Universidade de Leipzig identificou que células bovinas reproduzem um importante mecanismo biológico humano com mais fidelidade do que as de camundongos, avanço que pode tornar o desenvolvimento de medicamentos contra o câncer mais preciso nas fases pré-clínicas.

Uma descoberta feita por pesquisadores da Universidade de Leipzig, na Alemanha, está chamando a atenção da comunidade científica por um motivo incomum: as células de vacas podem reproduzir um importante mecanismo biológico humano de forma mais fiel do que as células de camundongos, modelo que há décadas domina a pesquisa biomédica.

A constatação não significa que bovinos substituirão os modelos tradicionais nem que um novo tratamento contra o câncer tenha sido encontrado. O avanço está em uma etapa anterior, porém estratégica: a capacidade de testar novos medicamentos com maior precisão antes dos estudos clínicos em humanos, reduzindo erros de interpretação e aumentando a confiabilidade dos resultados obtidos em laboratório.

Publicada na revista científica Archives of Toxicology, a pesquisa sugere que células bovinas podem se tornar uma plataforma complementar para estudos sobre medicamentos que atuam estimulando a morte programada de células tumorais — um dos principais alvos da oncologia moderna.

O trabalho concentra-se em um processo chamado apoptose, conhecido como morte celular programada.

Longe de representar um problema, trata-se de um mecanismo essencial para a vida. Todos os dias, bilhões de células são eliminadas naturalmente quando apresentam danos, envelhecimento ou alterações que possam comprometer o organismo.

Esse “sistema de autodestruição” impede que células defeituosas continuem se multiplicando.

O câncer, entretanto, consegue burlar justamente esse mecanismo.

Em vez de morrer quando acumulam mutações, as células tumorais desenvolvem formas de bloquear a apoptose, permanecendo vivas e continuando sua multiplicação descontrolada.

É por isso que muitos medicamentos anticâncer modernos procuram exatamente restaurar essa capacidade de eliminar células doentes.

Os pesquisadores investigaram duas proteínas fundamentais nesse processo: BAX e BAK.

Essas proteínas atuam nas mitocôndrias — estruturas responsáveis pela produção de energia celular — e funcionam como verdadeiros gatilhos para iniciar a apoptose.

Quando ativadas corretamente, desencadeiam uma sequência de eventos que leva à destruição controlada da célula.

O estudo comparou amostras humanas com tecidos e células provenientes de diferentes mamíferos, incluindo:

  • bovinos;
  • camundongos;
  • ovinos;
  • suínos.

O resultado surpreendeu.

As células bovinas apresentaram uma organização molecular das proteínas BAX e BAK muito mais próxima daquela encontrada nas células humanas do que as observadas em camundongos, modelo experimental considerado padrão em inúmeros estudos biomédicos.

Embora camundongos sejam indispensáveis para inúmeras áreas da medicina, existem diferenças biológicas importantes entre espécies.

Essas diferenças podem fazer com que um medicamento apresente excelente desempenho em animais de laboratório, mas resultados muito diferentes quando chega aos testes clínicos em seres humanos.

Segundo os autores, justamente nesse mecanismo específico de apoptose mitocondrial, os bovinos reproduzem melhor o comportamento humano.

Os pesquisadores também verificaram que a proteína BAX dos bovinos apresenta uma conservação estrutural significativamente maior em relação à proteína humana do que a encontrada em camundongos, além de um padrão semelhante de organização molecular nas mitocôndrias.

Para verificar se essa semelhança também ocorria na prática, a equipe utilizou células hepáticas bovinas cultivadas em laboratório.

Essas células foram expostas a diferentes compostos capazes de estimular apoptose.

Os cientistas acompanharam diversos marcadores biológicos, incluindo:

  • liberação de citocromo c;
  • ativação de caspases;
  • processamento de proteínas ligadas à morte celular;
  • análises por microscopia de alta resolução.

Os resultados reforçaram que o comportamento observado nas células bovinas acompanha de maneira consistente mecanismos conhecidos da apoptose humana.

Na prática, a descoberta pode ajudar uma das fases mais críticas da pesquisa farmacêutica.

O desenvolvimento de um medicamento costuma levar mais de uma década e consumir bilhões de dólares.

Grande parte dos candidatos a novos tratamentos fracassa justamente porque os modelos utilizados nas fases iniciais nem sempre conseguem reproduzir com fidelidade a resposta humana.

Segundo o professor Frank Edlich, da Universidade de Leipzig, a identificação desse mecanismo fornece um critério biológico concreto para selecionar modelos experimentais mais adequados quando o objetivo é estudar medicamentos que atuam sobre a apoptose mitocondrial.

Isso pode reduzir interpretações equivocadas ainda nas etapas iniciais do desenvolvimento farmacêutico.

Os próprios autores fazem uma ressalva importante.

O estudo não conclui que bovinos substituirão camundongos ou outros modelos experimentais.

A descoberta refere-se exclusivamente a um mecanismo específico relacionado às proteínas BAX e BAK.

Outros aspectos fundamentais da biologia humana continuam exigindo diferentes modelos experimentais.

A proposta dos pesquisadores é utilizar células bovinas como ferramenta complementar, aumentando a precisão em determinados tipos de estudos e, potencialmente, reduzindo algumas limitações existentes hoje nas pesquisas pré-clínicas.

Embora o estudo esteja voltado à medicina, ele também evidencia uma tendência crescente da ciência: a medicina humana e a medicina veterinária compartilham cada vez mais conhecimento.

Esse conceito, conhecido internacionalmente como One Health (Saúde Única), reconhece que avanços obtidos em animais podem contribuir para a saúde humana e vice-versa.

No caso desta pesquisa, a importância dos bovinos não está relacionada à pecuária de produção, mas ao fato de que determinadas características celulares da espécie oferecem uma oportunidade inédita para compreender melhor processos biológicos envolvidos no câncer.

Para um país como o Brasil, detentor do maior rebanho comercial de bovinos do mundo e referência internacional em pesquisa agropecuária e medicina veterinária, estudos desse tipo reforçam o potencial de integração entre universidades, centros de pesquisa e instituições dedicadas às ciências da vida.

Apesar da repercussão científica, os pesquisadores fazem questão de evitar interpretações exageradas.

A pesquisa não descobriu uma nova terapia contra o câncer nem indica que tratamentos serão lançados em curto prazo.

O que ela oferece é um caminho potencial para tornar a etapa de desenvolvimento de medicamentos mais confiável.

Os próximos estudos buscarão verificar se essa semelhança entre células bovinas e humanas também ocorre em outros tecidos e diante de diferentes classes de medicamentos. Caso os resultados se confirmem, poderão surgir modelos celulares bovinos padronizados capazes de complementar — e, em algumas situações específicas, até reduzir — a dependência de determinados modelos pré-clínicos tradicionais.

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